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6 a 21 de dezembro de 2005

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ADAPTAÇÃO EMBRIAGADA
Bent Hamer bem que tenta, mas Factotum é exercício de paciência para os estranhos à obra do escritor Charles Bukowski
por Guillermo Gumucio ( guillermogumucio@yahoo.com )

daptar com êxito para o cinema uma história repleta de álcool e sexo deveria ser uma missão relativamente trivial, afinal, esses são elementos que atraem um leque considerável do público. Todavia, essa é uma regra que parece ter o escritor e poeta Charles Bukowski como exceção, como pode-se comprovar mais uma vez em Factotum, de Bent Hamer.

Com estréia prevista apenas para 24 de fevereiro de 2006 nos Estados Unidos, Factotum foi exibido em algumas sessões das recentes mostras internacionais de cinema nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Como já diria um fã de Bukowski, não parece ser possível transpor com precisão para o cinema a poesia do mundo boêmio presente na obra do autor que consagrou-se na editora Black Sparrow, que editou maior parte de seu vasto material em prosa e verso.

Dezesseis anos após Mickey Rourke ter interpretado o bêbado inveterado Henry Chinaski em Barfly – Condenados pelo Vício (1987), Matt Dillon resolve encarar o desafio cênico imposto por um personagem como esse. Assim que seu rosto é mostrado na tela, o leitor-fã espanta-se. A semelhança com o verdadeiro jovem escritor é maior do que qualquer um poderia esperar. As costeletas, o formato do penteado, as vestimentas, tudo foi fielmente extraído das fotos conhecidas de Bukowski dos anos retratados no período de Factotum. Do outo lado do campo, temos a estonteante Marisa Tomei como Laura e Lily Taylor interpretando Jan, mulheres que são tão ou mais perdidas do que o protagonista e compartilham com ele a mesma atração e necessidade pela bebida.

Depois da recepção positiva da cenografia e maquiagem passamos para o vital, a interpretação. Dillon se esforçou, sem dúvida. Ao contrário de Rourke, que parece ter despertado todas as bestas das ruas de algum lugar de dentro de sua alma, Matt Dillon não exagera e combina os elementos da sobrevivência, necessidade e malandragem de uma maneira convicente. Contudo, tudo isso resulta na maior parte do tempo em vão, porque apesar de a interpretação ser bem conduzida, o roteiro não é. Entretanto, há um problema maior ainda em volta disso: os textos escritos por Bukowski não são favoráveis para o intento do bom diretor, que é realizar algo fiel e ao mesmo tempo dinâmico. Pode soar um tanto quanto estranho, mas as tentativas de adaptar Bukowski para as telas não são boas experiências simplesmente porque tentaram ser fidedignas à memória do escritor. Os coadjuvantes desempenham seu papel muito bem, entretanto. Você provavelmente irá se perguntar se a produção não pegou chefes de fábricas e um mendigo de verdade para realizar algumas cenas.

Como representar as questões do vício alcóolico, da jogatina, das mulheres – verdadeiras paixões ou não –, dos amigos, dos empregos, de uma maneira que a ênfase esteja no álcool, mas também na poesia dos pensamentos do protagonista? Bukowski conseguia realizar isso no papel de várias formas e utilizando-se de alguns artíficios de estilo, mas tudo isso na tela parece de uma execução incrivelmente complexa. Por exemplo, raramente há alguma menção a refeições em seus livros, mas não bastaria o diretor não incluir cenas de almoços e jantares na película para que isso fosse transmitido, porque essa já é uma prática comum ao cinema por questões óbvias de sumarização e adicionadas somente quando necessário para a mensagem e/ou quando o contexto proporciona tal fator.

Para quem conhece a história de Charles Bukowski, a cena do encontro de Chinaski com o pai deveria ser bastante emblemática, mas essa referência importantíssima da infância do escritor é interpretada de maneira que não condiz à sua real relevância e intensidade. Bukowski considerava seu progenitor o pior espécime da raça humana e seu mais cruel inimigo e isso poderia – e deveria – ser passado para a respectiva cena de Factotum. Tudo o que bastaria seria uma direção adequada e que tivesse isso em mente para obter como resultado uma atuação convicente por parte dos atores, mas, lamentavelmente, não é o que parece ter ocorrido.

Os contos e romances de Bukowski somente parecem ser facilmente adaptáveis para o cinema, por sua linguagem popular e enredo ordinário. Os quatro longas baseados na obra do velho safado – além dos já mencionados, há Crônicas de um Amor Louco (1981) e Crazy Love (1987) – esbarram no dilema da divisão de emoções e julgamento da bebida na vida das personagens, o que impacta profundamente na elaboração de um roteiro. A simplicidade da idéia geral pode ser conferida até mesmo nas sinopses de Factotum escritas. Todas não possuem mais do que três linhas e resumem-se às variáveis de “escritor vai de subemprego em subemprego tentando manter o vício enquanto se vê à volta de mulheres e confusão”. E, realmente, não poderia ser algo muito diferente.

Charles Bukowski sempre foi um artista que desperta sentimentos tão contrários entre si quanto o dia e a noite. Tratam-se de duas esferas, aquela com relação à sua obra e a outra concernente à sua personalidade. O difícil é distinguir uma da outra, já que encontrar algo que não seja explicitamente autobiográfico em suas linhas é uma tarefa bastante árdua. Em suma, se você não conhece a obra de Charles Bukowski, pense duas vezes antes de perder duas horas de sua preciosa vida com um filme que não fará o menor sentido. Factotum arranca algumas pequenas risadas com um humor sutil, mas é o mínimo que se espera, visto que os romances de Bukowski sempre trouxeram uma veia cômica. A cena em que um dos muitos chefes de Chinaski o apresenta a outro escritor é a mais memorável, e nela não há mais do que duas ou três linhas de fala.

A poesia de toda uma trajetória desvirtuada e climatizada pelos becos da Califórnia, a peculiariedade que torna os escritos de Bukowksi tão interessantes, é aquela que fatalmente transforma sua representação na sétima arte em apenas um mero adendo aos já escolados em sua bibliografia.