| DESPLUGADO, MAS AGITADO
Engenheiros do Hawaii conquista zona leste paulistana com show acústico
por
Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )
 m lugar longínquo da Zona Leste de São Paulo recebeu na madrugada do último dia 26 os Engenheiros do Hawaii para uma apresentação de seu trabalho acústico, lançado ano passado, em parceria com a MTV. O endereço situado na avenida Aricanduva, difícil de ser localizado pelos mais descuidados, mas cultuado pelos roqueiros da chamada “ZL” (iniciais da região paulistana), é o Kazebre Rock Bar, conhecido por abrigar shows covers e de bandas novas, que tem feito incursões pelo mainstream , trazendo alguns destaques do rock nacional para tocar na periferia.
Num ambiente em parte aberto, com direito à fogueira, cachoeira e lago artificiais, além de tendas de madeira para o consumo de comida e bebida, a área do palco principal é coberta e acolheu bem o público, que, apesar da chuva que persistiu durante o dia todo na cidade, e do conseqüente clima frio que ela trouxe, compareceu em peso para ouvir os hits certeiros de Humberto Gessinger (sua indefectível gaita) e seu conjunto atual, formado por Bernardo Fonseca (baixo), Gláucio Ayala (bateria e vocais), Paulinho Galvão (violões) e Humberto Barros no órgão. O ingresso antecipado a R$ 10,00 ajudou a encher o Kazebre de jovens ávidos por rock ‘n' roll, mesmo que na versão desplugada.
E Gessinger não desapontou. Desancou todas as faixas do CD, incluindo as famosas “O Papa é Pop”, “Infinita Highway”, “Somos Quem Podemos Ser” e “Terra de Gigantes”, sem deixar de mostrar algumas das novidades que fizeram parte do álbum, como a canção do ex-parceiro de banda Carlos Maltz, “Depois de Nós”, além das inéditas “Outras Freqüências” e “Armas Químicas e Poemas”, gravadas especialmente para o acústico, além de “Eu que não amo você”, que ficou de fora do CD, mas entrou no DVD, num arranjo mais calmo que o original.
Melhor que as músicas conhecidas, a banda presenteou os fãs com canções que não figuraram no trabalho lançado. Assim, temas como “Parabólica”, “Segurança”, num medley com “Sopa de Letrinhas”, “A Montanha”, “Negro Amor”, encorparam o repertório do show. Destaque para a versão pesada de “Toda Forma de Poder” mesclada com “Chuva de Containers”, que, apesar de ser arranjada nos violões causou a fúria da platéia.
O clima informal da apresentação era evidente no palco: os balões do cenário do acústico foram improvisados, mas as luzes supriram qualquer falta do conceito original do show. Os músicos também estavam à vontade: exceção feita a Gessinger, que veio todo de roupa social preta e jaqueta da mesma cor. Barros, por exemplo, com o cigarro na boca, parecia aqueles músicos de jazz que tocam em bares, assim como o baixista, com sua roupa desleixada que demonstrava sua indiferença em relação aos protocolos costumeiros.
No começo da exibição aconteceu um pouco do tumulto habitual, com aquele empurra-empurra e rodas de bate-cabeça em algumas músicas, que iniciou discussões mais ríspidas entre os mais exaltados da platéia. Mas logo a galera se fixou no show e o começo morno deu lugar a uma apresentação quase religiosa, com boa parte do público cantando todas as músicas despejadas pelo quinteto.
Interessante também o piano preto instalado ao lado da posição do vocalista, que ficava em cima de um suporte giratório, fazendo Gessinger rodar por todos os lados enquanto executava no instrumento canções como “Piano Bar”, “Refrão de Bolero” e “A Promessa”. Todas, claro, com arranjos diversos do que todos estão acostumados a ouvir. Essa é uma característica de cada turnê dos Engenheiros, as músicas antigas se renovam em arranjos mais rápidos, mais lentos, agitados, calmos, mostrando o inesgotável repertório instrumental da banda.
Após uma hora e meia de acordes e notas, a banda terminou com “Revolta dos Dândis” e muitos agradecimentos por parte do vocalista, que não parecia esperar tanta receptividade e cumplicidade. Mas todos permaneceram em seus apertados lugares em pé para gritar pela banda e aguardar o bis. Que veio com a já manjada “Era um Garoto...”, levando o público à loucura. Depois de uma nova saída o segundo bis veio com “Simples de Coração”, do álbum de mesmo nome, e “Prá Ser Sincero”, que fechou com chave de ouro um show certeiro: sem muitas falas, com muitas músicas e rock desplugado para o deleite dos que gostam dos Engenheiros de Gessinger, de letras confessionais e arranjos variados a cada nova turnê. |