| ESQUELETOS NO ARMÁRIO
Marcas da Violência é um Cronenberg mais acessível
por
Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

arcas da Violência , novo trabalho do diretor canadense David Cronenberg, é sobre Tom, um típico americano médio, cidadão pacato e que mora em uma cidadezinha provinciana no meio do nada com sua família saída de uma propaganda do american way of life . Mas o filme é também sobre esqueletos guardados no armário. Sobre pessoas que tentam esconder o passado a todo custo debaixo do tapete. Sobre fantasmas que teimam em reaparecer e mudar o rumo de tudo. É ainda o trabalho mais acessível de Cronenberg em anos, desde M. Butterfly (1993), aquele filme chato em que Jeremy Irons se apaixonava por um travesti.
De maneira bastante econômica, Cronenberg nos mostra Tom e sua vidinha ordinária, no qual sua maior preocupação é tirar as latas vazias jogadas na frente do restaurante onde ganha a vida. Ele é casado e ama a mulher, tem dois filhos, um adolescente que sofre as incursões do valentão da escola e uma garotinha que quer sapatos novos. É ainda um cidadão exemplar que não hesita em matar dois pistoleiros que ameaçam sua clientela. A partir desse episódio, Tom deixa de ser apenas mais um pai esmerado no meio da multidão e se transforma na notícia da semana e em herói da comunidade. E tem que encarar também o passado que bate à sua porta.
O diretor até podia ser mais um a apontar o dedo e culpar a mídia dos males da humanidade ao explorar a desgraça ou heroísmo alheio, mas acerta ao utilizar um recurso batido apenas como ponte. É a exposição de Tom nos meios de comunicação que faz o filme decolar e suscitar dúvidas sobre a origem do bom moço, afinal nenhum pacato cidadão é tão hábil na hora de matar. A chegada de três mafiosos à cidade põe mais lenha na fogueira e deixa a mulher de Tom com a pulga atrás da orelha. Eles chamam Tom de Joey e querem acertar antigas pendências.
Outro acerto de David Cronenberg é não se preocupar muito em criar suspense em relação à verdadeira identidade de Tom. A questão central do filme não é essa e o espectador que for ver a produção esperando a solução de um mistério vai se decepcionar. Marcas da Violência tem um roteiro enxuto e inteligente demais para se ater a uma trama simplória. O ponto principal do filme é sobre como Tom e a família vão lidar com uma inesperada mudança de rumo, como eles vão retomar, se é que podem, a rotina.
Mais conhecido pela capacidade de confundir o espectador com tramas recheadas de elementos psicológicos - como em Gêmeos. Mórbida Semelhança e Spider. Desafie Sua Mente -, em Marcas da Violência o cineasta brinca de David Lynch ao apostar no bizarro e em personagens cheios de dubiedade. A violência surge de forma crua e fria, sem a estetização comum aos enlatados americanos. O sexo também é explorado sem medo, acentuando a personalidade humana das personagens.
Humanidade reforçada pelas belas atuações do elenco. Viggo Mortensen se despe da fantasia de herói medieval (lapidada na trilogia O Senhor dos Anéis ) e compõe um cidadão comum cheio de dúvidas sobre a própria natureza. Maria Bello supera as limitações do papel de “esposa”, enquanto Ed Harris e William Hurt funcionam como coadjuvantes de luxo. Uma surpresa é o jovem ator Ashton Holmes, que ganha espaço interpretando o filho de Tom.
Em Marcas da Violência , Cronenberg não se furta a subverter gêneros e mudar sem aviso as expectativas em torno do filme. Talvez se perca na “reviravolta” final. Ao invés de focar suas lentes nas mudanças e transformações vividas por Tom, a mulher e o filho adolescente, o diretor prefere seguir a cartilha das produções de suspense e colocar o protagonista no meio do fogo cruzado. Mas a última (e matadora) cena resume de forma tão sublime os sentimentos que perpassam o filme que justifica qualquer deslize. E atire a primeira pedra quem nunca guardou esqueletos dentro do armário. |