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6 a 21 de dezembro de 2005

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FILOSOFIA DO JEITO QUE O DIABO GOSTA
Companhia de Teatro Os Satyros usa Sade, em “A Filosofia na Alcova”, para tecer críticas atuais, a partir dos mesmos princípios dos pensamentos libertinos do século XVIII
por Thiago Vieira ( thiagojornalista@uol.com.br )

ríticas severas não é novidade na trajetória da Cia. de Teatro Os Satyros - fundada em 1989, em São Paulo, sempre buscando um teatro essencialmente experimental - e muito menos na obra de um dos mais polêmicos autores da história mundial, o francês Donatien Alphonse François, mais conhecido como o Marquês de Sade (1740-1814). Por isso a montagem de A Filosofia na Alcova (a terceira feita pelo grupo), baseada na obra homônima de Sade (1795), em cartaz por tempo indeterminado no Espaço dos Satyros, em São Paulo (Praça Roosevelt, 214, no Centro), não poderia ser diferente.

Aliás, antes do início da peça, a voz em off avisa que pessoas sensíveis podem se sentir incomodadas com o que estão prestes a testemunhar, também pudera, pois o espetáculo é recheado de cenas fortes e marcantes de violência sexual, homossexualidade, sodomia e até escatologias. Só para começar, os atores passam a maior parte do tempo com seus corpos desnudos e os homens, quase sempre, com ereção. Uma montagem chocante, exatamente do jeito que Os Satyros e o Marquês de Sade gostam.

Através dos ensinamentos de dois libertinos, Dolmancé (Fabiano Machado) e Juliette (Nora Toledo), à jovem Eugénie (Cléo de Paris) que tem a permissão de seu pai a se iniciar nas “artes” da libertinagem, a peça discute assuntos em voga na época do marquês e ainda atuais como a política, a moral e os bons costumes, a liberdade, a hipocrisia, o certo e o errado. Porém, com uma pitada a mais de atualidade, utilizando analogias entre o século XVIII e o terceiro milênio.

Dolmancé é um dos maiores libertinos, ao lado de Juliette, e, juntos, fazem o papel de professores de Eugénie, que se mostra uma aluna aplicada e participativa aos ensinamentos de seus mestres - faz perguntas, esclarece as suas dúvidas, aprende a arte de dar e extrair prazer, discute pontos polêmicos que conflitam com seu conhecimento religioso, herança de sua mãe, madame de Mistival (Soraya Aguillera).

Quem no início do espetáculo é apenas uma menina ingênua, que desconhece os prazeres da carne, Eugénie passa a ser uma promissora devassa, deixando que a filosofia dissertada em um quarto de descanso para moças, ou para que elas tenham suas relações íntimas com amigos longe dos olhos dos criados, ganhe raízes cada vez mais fortes em sua alma. Mas, afinal, o que aprende essa jovem? Apenas sexo, prazer e luxuria? Pelo contrário. Através da iniciação sexual Eugénie toma contato com ideais nada convencionais extremamente liberais, e muitas vezes perigosos.

Para entender que tipo de pensamentos é este, é preciso saber como pensava o libertino marquês de Sade. Nascido em 1740, Donatien escolheu a literatura como forma de mostrar suas inquietudes, foi preso várias vezes por seus atos libertinos, e foi em uma de suas clausuras que iniciou sua obra recheada de naturalismo, blasfêmias contra os dogmas da Igreja Católica, sodomia, clamores aos responsáveis pela Assembléia Constituinte francesa após a revolução discutindo que não existem crimes quando são praticados e analisados sob a ótica da natureza. Sua obra acaba lhe garantindo uma estada no Hospício de Chareton, e morre no dia 2 de dezembro de 1814, e como pedira em seu testamento, fora sepultado religiosamente no cemitério do hospital psiquiátrico.

Sade chocava a sociedade de sua época, não só pela obra acusada de ser pornográfica – talvez, um grande mal entendido -, mas pelas críticas que tecia. Pregava a ruptura da nova França com os preceitos religiosos e o moralismo, dizia que os homens deveriam se espelhar nos animais para que houvesse harmonia, idealizava uma sociedade onde o sexo nada mais é que o desejo carnal, quebrando a idéia de amor.

Os mesmos rompimentos de Sade são transmitidos a Eugénie, que passa a nutrir um ódio por sua mãe, acusando-a de lhe ter privado do que começa a considerar a sua real vocação: a libertinagem, que em momento algum da peça - ou mesmo do livro - deixa de ser praticada explicitamente.

Mas não é apenas o visual do espetáculo que chama atenção do público, ou pelo menos não deveria ser. A obviedade do choque nessa relação tão próxima que há entre Sade e Os Satyros, não é e nem poderia ser o alvo central da adaptação de Rodolfo Garcia Vasquez. Enquanto a platéia se distrai com a visão impactante de corpos se entrelaçando em quase real ato sexual, Dolmancé, o grande mestre de Eugénie, ensina não apenas à jovem, mas aos visitantes atentos, curiosos e chocados.

O libertino mor desta obra de Sade, fala sobre sexo - é claro -, sobre a sodomia, expõe bundas para votação do público, mas principalmente faz as críticas mais pesadas ao mundo que conhecemos hoje. Usando as palavras sadianas, Dolmancé fala do imperialismo, outrora o de Napoleão, hoje o dos Estados Unidos e suas políticas econômicas e de massificação da sua cultura aos demais povos do mundo.

O devasso torna ainda mais atual as suas críticas, menciona o ressente escândalo que vêm desmoralizando o já desgastado sistema político brasileiro, envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (do PT) e o desvio de verbas de estatais para a compra de votos no Congresso Nacional, para facilitar o trâmite de projetos governamentais.

Ele disserta sobre a religião e o moralismo imposto por ela, assim como a posição da instituição da Igreja Católica referente aos temas atuais. Questiona a existência de um ser divino e onipotente que tudo vê, contrapondo essa idéia dizendo que apenas a natureza seria capaz de tamanho poder. E assim, sem que o público perceba acaba refletindo sobre assuntos que raramente são abordados, graças aos preceitos cultivados desde a infância.

Isso faz com que a peça, por mais agradável que possa parecer a um voyeur, seja pesada, de difícil digestão, que remói dentro da platéia por horas após o espetáculo - o que é facilmente comprovado pelo silêncio que é feito na saída do teatro. Uma quietude que arrepia a espinha, que massacra o som dos carros nas proximidades da Praça Roosevelt.

Destaque

Sexo explícito, críticas ácidas, texto pesado e algumas surpresas durante o espetáculo. O que mais em uma peça tão recheada de “tapas na cara” poderia se destacar? Simples. A presença de Phedra D´Cordoba, um transexual cubano que interpreta o prestativo mordomo Augustin.

Na década de 1950, Phedra, um artista de dança, mudou-se para o Brasil fugindo do regime de Fidel Casto, a quem faz questão de tratar como “bandido”. Quando Os Satyros abriram seu espaço na Praça Roosevelt, em 2000, o cubano aproximou-se e passou a integrar o elenco da Companhia.