2

Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

6 a 21 de dezembro de 2005

Equipe Edições Anteriores

O GOSTO DA GUERRA
José Hamilton Ribeiro revela os horrores do Vietnã em livro-reportagem
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

le foi ao Vietnã para cobrir a guerra pela revista Realidade , em 1968, mas acabou se tornando a notícia principal. Partiu para ficar um mês no Extremo Oriente, mas esteve no Inferno. Num 20 de março, José Hamilton e o repórter fotográfico Keishaburo Shimamoto foram buscar a foto da capa da matéria da revista durante uma batida na chamada “Estrada sem alegria”, em Quang Tri, no norte do Vietnã do Sul. O que era uma reles operação de limpeza de minas vietcongues numa das regiões mais conflagradas da guerra virou cenário de horrores. Ao chegar lá, três soldados. Algumas milhas adiante, nova explosão. O soldado que acompanhava Hamilton e Shimamoto sugere que eles fossem até o local, para as fotos. No caminho, outra explosão. Detrás da cortina de fumaça que engolira o repórter brasileiro, lá estava a foto da capa. Por uma dessas fatalidades, ele apoiou o pé esquerdo numa das milhares de minas plantadas ali.

O livro O Gosto da Guerra (Objetiva, 129 páginas) é o relato da reportagem que virou epopéia, desde a partida do Brasil até a sua internação no hospital de Nha Trang. A reportagem virou diário, publicado originalmente em 1969, e há muitos anos esgotado. Para este relançamento, que sai dentro da coleção Jornalismo de Guerra , Hamilton passa a sua história a limpo. No fim, ele acrescenta um epílogo onde reflete sobre o Vietnã de hoje. A Aldeia sem Alegria ainda faz vítimas. “Gente do local diz as principais vítimas da explosão de minas são as crianças”, diz ele. “O Vietnã continua matando”. Nessa entrevista, concedida em forma de bate-papo, realizada durante a 50 o Feira do Livro de Porto Alegre , ele conta algumas de suas histórias, as contingências de um repórter de guerra, a relação do jornalista com as fontes, a tênue distância entre o repórter e “espião involuntário”, entre outros.

- Por que você decidiu cobrir a guerra?

José Hamilton Ribeiro - Em 1968, a Realidade era a revista mais importante do Brasil. A primeira escolha fui eu. Eu pedi um tempo e decidi que sim. A minha cobertura da Guerra do Vietnã foi boa, de que a “minha guerra é sempre melhor do que a sua” em alguns pontos. A Guerra do Vietnã era a grande guerra da Guerra Fria. Foi a primeira que teve a cobertura de televisão. Outro ponto é que a guerra se tornou um assunto cultural interessante: como produção que ela construiu , só é menor do que a II Guerra. Do ponto de vista jornalístico, ela foi a que mais matou jornalistas. Cerca de 3,3% morreram no front. Isso é um número absurdo porque, no caso da Guerra do Iraque, morreram 2,2% de jornalistas enquanto morreram apenas 1% dos soldados americanos.

- O que leva um jornalista a ir para a guerra?

José Hamilton Ribeiro - Quando morreu o Tim Lopes, o Globo Repórter fez um especial sobre o que leva um profissional a encarar uma situação de risco. Um pouco é vaidade; um pouco é espírito de aventura. Um pouco ambição profissional. E uma pitada de falta de juízo. Mas muito mesmo de um componente psicológico típico da profissão de jornalista, que é ser um justiceiro, um missionário, um visionário, no sentido em que ele sente que precisa estar onde estão acontecendo as coisas. Primeiro, para ser um testemunha da História. Segundo, para denunciar o que houver ali de maldade, de injustiça. Pode reparar que uma guerra que tem jornalista, na unidade de combate, ali não se verá atrocidade contra um prisioneiro de guerra. Uma guerra é ruim, — isso eu digo sempre, mas uma guerra sem jornalista é pior ainda.

Eu pensava isso como um fator de inibição de excessos, de crueldade, pensando na presença do jornalista americano, porque a imprensa de lá é uma instituição. Mas não pensava que houvesse isso do lado do Vietnã do Norte. E um dia desses, vendo um documentário da National Geographic, eu fiquei admirado quando um deles contou que viu a cara de horror do americano preso, o horror na face. Assim que ele viu o fotógrafo, ele se descontraiu e perdeu a cara de pavor, porque ele ficou consciente que ninguém faria com ele o que fariam com outro: interrogatório, tortura e morte. Esse era o destino do prisioneiro de guerra norte-americano.

- Por que o Brasil tem pouca correspondência de guerra?

José Hamilton Ribeiro - Para ter um bom jornalista de guerra, é preciso um jornalista e uma guerra. E felizmente o Brasil tem pouca guerra. Na verdade, tivemos uma só, que foi a do Paraguai. O máximo que a gente tem são escaramuças internas, e uma participação quase que retórica na II Guerra Mundial. E também não temos muito jornalismo brasileiro, que é um país cucaracha. Agora, quanto à qualidade, é fantástica. Qualidade de nível internacional. Nós tivemos da Guerra do Paraguai o Visconde de Taunay, com a Retirada de Laguna, que é uma obra-prima. Chega em Canudos, embora não fosse uma guerra, mas se chamasse como, tem o Euclides da Cunha. Na II Guerra é boa, tem Joel Silveira, Samuel Wainer, Rubem Braga. E na Guerra do Iraque tem um jornalista da Folha, que fez o Diário de Bagdá, que ele cobriu do ponto de vista do bombardeado. Temos pouco jornalismo de guerra, mas o que tem, é de qualidade.

Para o front, eles davam uma lista com uma porção de itens que você tinha que levar. Coisas óbvias, como uniforme, capacete, coturno, cantil, uma série de remédios. Peguei a lista e comprei tudo. De noite, eu me reuni com o pessoal da Imprensa, e um deles disse que a minha lista não está completa: tão faltando dois itens. Uma caixa de camisinha e uma pistola. E camisinha era algo muito íntimo, de marido e mulher, usado para evitar concepção. E eu pensei: ué? Camisinha para quê. Aí eu descobri. De repente, lá no Vietnã, você está numa unidade, com uma patrulha, e tem que atravessar a nado um rio, e você tinha que proteger algumas coisas que eram fundamentais na época, que era um maço de cigarro, que todo mundo fumava na época, e um pacote com notas de Dólar. Você botava o dinheiro e o cigarro lá dentro e estava salvo.

O outro item era uma pistola de bolso. E me explicaram: você é correspondente, as está com uniforme de soldado americano. Se você for pego prisioneiro, a sua sina vai ser a de todo americano. Interrogatório, tortura e assassinato. Isso porque o vietcongue não tinha estrutura para manter prisioneiros e, além do mais, matar era bom para o moral da tropa. Então você levava a pistola de bolso para, no caso de ser pego, você a usava contra a sua própria cabeça. E eu não peguei foi coisa nenhuma.

- Como lidar com as fontes numa cobertura de guerra?

José Hamilton Ribeiro - É muito difícil. Acho que a imprensa americana é a de mais alto nível. Mas coloque-se na pele de um americano cobrindo a guerra do seu país. Vai haver o momento em que você pode confundir patriotismo e serviço profissional. Se ultrapassar, o preço é caro. Um jornalista foi banido da imprensa americana porque ele mostrou que se usava gás na Guerra do Iraque. Então eles sabem que existe uma linha que o separa da prática da espionagem. Se ele começa a saber e publicar coisas demais, chega uma hora em que ele está servindo o inimigo. Então, mesmo que ele faça um exercício de objetividade, ele vai puxar para o seu medo, mesmo que inconscientemente. Você cobre a guerra em que a sua raça está em jogo. Mas, mesmo assim, acho que o jornalista tem um perfil psicológico que está sempre do lado do mais fraco, e ele vai ser parcial no sentido de defender esse lado fraco. Se vê que a cobertura do Vietnã foi devastadora para os Estados Unidos, porque os jornalistas ficaram com o lado mais fraco.

Como lidar com as fontes? Isso é variado, mas eu gosto de contar estes itens. A Associated Press tinha um escritório em Saigon. E eles tinham um programa de estímulo para que os vietnamitas de lá levassem informações. E eles pagavam US$ 15 por informação. Se ela fosse julgada boa, ela era aproveitada. Com o tempo, eles viram que esse anúncio tava atraindo muito louco, que ia lá contar mentira. Mas eles foram vendo que tinha gente que levava fotos, e a agência começou a dar furo. As informações eram verdadeiras. No fim da guerra, quando os tanques entram em Saigon, o pessoal da AP está assistindo, e eles vêem que os primeiros que entravam eram os camaradas que passavam informação. Eles eram guerrilheiros vietcongues, cuja missão era infiltrar para passar essas informações.

Eu fui para o Vietnã sozinho. Eu estava sem fotógrafo. E estava com a incumbência de contratar um lá. Conheci o Keishaburo Shimamoto, e o contratei para ficar do meu lado. Um belo dia, o Shimamoto me diz: “eu já tenho muitas fotos, mas não tenho a da capa”. E eu tive que adiar a volta. Quando nós corremos à uma explosão adiante. Eu nem bem dei uns cinco passos quando uma explosão povoou inteiramente os meus ouvidos. Então foi ele quem fez a foto dramática da capa comigo. Ele fez as fotos profissionalmente, mas depois ficou com remorso. Ele foi muito carinhoso, solidário.

Tinha terminado a guerra, teve uma crise interna na Realidade, e me colocaram como editor-chefe. E tinha uma vaga de fotógrafo. E eu pensei com convidar o Shimamoto. Combinamos um salário, etc. Ele me disse que precisava fazer as fotos para uma cobertura de guerra e daria o sinal depois. Foi abatido dentro de uma helicóptero pela artilharia anti-aérea, em 1970. Não acharam nada dele, nem o santinho.

- Quais foram os seus dois medos?

José Hamilton Ribeiro - O primeiro foi o seguinte: quando eu concluí que a explosão tinha sido comigo e não com o soldado que ia na minha frente, ele estava na frente e explode, eu passo logo atrás e explode também, chegou uma hora em que eu vi que tinha sido comigo, eu vi que eu estava sem calças. A perna direita estava cheia de sangue, mas a esquerda não. Sem pé, nada, e jorrando uma torneira de sangue. Eu fui saber depois que as pernas equivalem à metade do peso da gente. Então, quando você perde uma perna, você perde um bocado de peso, e como ela é muito irrigada. Imagine a perna aberta jorrando sangue, eu achei que ia morrer por esgotamento de sangue.

O capitão me deu os primeiros socorros, e eu venci o meu primeiro medo. Ele botou um cinto com um graveto para parar o sangue e um enfermeiro me deu uma injeção de morfina. Quando eu acordei, eu estava no helicóptero. Imagine um helicóptero conversível, você amarrado numa maca até o pescoço, e ali dentro várias macas. E eu ali, amarrado, com o efeito da morfina, estava achando que a guerra era o maior barato. Eu não tinha condições de me ver, e verifiquei o meu corpo, estava tudo ali. Era uma situação fantástica. Essa situação fantástica mudou quando um vizinho de maca do lado, ele tinha levado uma explosão no rosto. Não tinha nada lá, era uma massa disforme. E um olho ficava pendurado pelo nervo. Era mais ou menos patético: ele tentava falar comigo e jorrava sangue.

O helicóptero pousa no hospital. Eles iam levando um por um, e eu fui ficando. E aquele calor do Vietnã. Um cara vinha falar comigo, eu perguntei: “o que o senhor quer?”. Ele disse: “eu sou um padre”. Eu falei: ‘mas eu nem sou católico”. Ele respondeu: “mas numa hora dessas, não tem problema”. Eu pensei: “tô morto”. Chegando lá, tomei outra dose de morfina, quando acordei, descobri que iria para a primeira de onze cirurgias que eu iria passar, e aqueles dias no hospital foram os piores da minha vida. Todo dia eu me sentia mais fraco, e sabia que iria morrer, que eu iria morrer abandonado num país estranho, e ia ser enterrado por lá mesmo. Eu não sabia que o Itamarati estava se movimentando aqui com relação à mim. O segundo medo foi quando eu estava lá pelo meu décimo dia no hospital e eu não conseguia comer nada.

O outro medo era: será que eu vou poder ganhar a minha vida com o meu trabalho? Como eu vou viver nessa situação? Hoje em dia, quando se amputa uma perna, a pessoa recebe uma prótese no mesmo dia. Naquele tempo, não. Então, depois, quando eu fui para os Estados Unidos, eu fiquei sem perna mecânica, com a outra perna bombardeada, eu tinha um problema de estilhaço no olho, e eu não sabia se eu ia ficar bom ou não, eu tinha aquele suspense de que eu não pudesse ganhar a vida, fosse me tornar um ser dependente. Esse medo demorou mais, mas eu saí dele, inclusive, com o apoio da redação da Realidade, um apoio psicológico. Principalmente porque ela me mandou trabalhar logo em seguida. Eu estava nos Estados Unidos ainda sem perna mecânica, quando assassinaram o Robert Kennedy. E eu de muletas, fui fazer a cobertura. Na época, eu achei que eles tinham sido meio cruéis comigo, mas depois vi que aquilo foi um apoio muito grande, um estímulo para que eu pudesse vencer aquela minha limitação.

Sempre me perguntam se é possível ser um repórter de uma perna só? Eu continuei de lá para cá, do Vietnã para cá são uns 37 anos. Eu conto isso porque, quando eu voltei, fui convidado para programas de entrevistas. Até que eu fui a um programa de auditório no Rio de Janeiro. Ficam as pessoas animando ali. Até que um rapaz me perguntou; “você perdeu uma perna, mas continua repórter. É difícil ser repórter de uma perna só”. Eu respondi: “é mais difícil do que com duas, mas é mais fácil do que com quatro”.