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6 a 21 de dezembro de 2005

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É O QUE PARECE?
Museu de Arte Moderna de São Paulo usa o sistema clássico de gêneros para eleger um conjunto de obras contemporâneas que reflete as qualidades e condições que estão guiando a produção artística nacional
por Daniel Hora ( horadaniel@yahoo.com.br )

MARCO PAULO ROLLA "Café da manhã", 2001 - Foto Luigi Stavale

omo é a arte que se produz no Brasil atual? Desde 1969, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) seleciona as possíveis respostas e as traz a público na forma do consagrado Panorama da Arte Brasileira, que alcança este ano sua 29ª edição. Desta vez, o curador Felipe Chaimovich apostou no sistema clássico de gêneros artísticos como um meio de diálogo entre ele, os 50 criadores reunidos na mostra e os visitantes do museu. Antes que isto soe antiquado, é necessário advertir: as categorias de paisagem, retrato, natureza-morta, costumes, alegoria, história e emblema não passam de referências para uma reflexão que elege como ponto de partida a estética implantada por artistas franceses em território nacional, no reinado de D. João VI. Tal herança ainda serve de parâmetro para se pensar sobre nossa arte, segundo constatou Chaimovich nas conversas que teve em suas visitas a mais de 100 ateliês.

O sistema de gêneros não serve para hierarquizar as escolhas do MAM, como acontecia no século XVII, quando o método foi organizado pelo pintor e teórico Charles Le Brun. Tampouco os significados de cada termo se explicitam visualmente neste Panorama como alguém poderia esperar. Os trabalhos desta exposição lembram que é a surpresa nas infinitas possibilidades de expressão plástica, e não as amarras acadêmicas de épocas passadas, o que move a arte desde as rupturas e revisões modernas. O conjunto em exposição engloba suportes variados, distintos tipos de experimentação e representantes de 14 cidades brasileiras.

A maior parte das obras tem o trunfo de ser, ao mesmo tempo, inteligível e provocante, usando uma temática pertinente ao mundo atual. O gênero costume, por exemplo, inclui A Casa (2004) de José Bechara, uma instalação que inverte o conceito comum de lar, com um cubo de madeira que expele móveis. Trata-se de um conflito entre ordem e caos, que também desponta na performance Café da Manhã (2001) de Marco Paulo Rolla, em que os restos de alimentos derrubados da mesa pelo artista vão apodrecendo durante a mostra.

A tensão entre realidade, ficção e memória, típica da era da hiperinformação, também comparece, dispersa por vários núcleos. A Iludida (2004) de Walda Marques usa a colagem para montar uma fotonovela cuja sonhadora protagonista admite ser apenas uma fotografia. No videoclipe Just Like a Movie Star (2000), do grupo assume vivid astro focus, cintila o sonho da mitificação gerada pelas luzes da cultura pop. Já a alegoria Vanitas (2001) de José Patrício joga com as fraturas da identidade. É composta por quadrados que formam diagramas de esqueletos humanos, a modo de quebra-cabeças, e que criam uma moldura ao redor de uma área branca, como um espelho que não reflete.

Outro assunto corrente, a violência, marca os vídeos Ambiência e Lê Déjenuer sur l'Herbe (1971-2001) de Marcelo do Campo (artista inventado por Dora Longo Bahia). No primeiro, um interrogatório remete à ditadura militar e, no segundo, faz-se referência ao quadro homônimo de Manet e à submissão da mulher pela sociedade machista. Vale conferir ainda como a idéia da paisagem é usada para a criação da instalação Pioneiro (2005) de Nuno Ramos, que traz dois barcos chocados como em um acidente e um vídeo a respeito de sua montagem.

MESTRE DIDI "Iya Agba - Agba Nilé - Mãe Ancestral da terra", 2005 - Foto Luigi Stavale

Merecem destaque dois casos interessantes de crítica às instituições que convalidam e promovem a arte. São as instalações Gonper Museum (2005) de Fabiano Gonper e Expediente (1978-2005) de Paulo Brusky. A primeira consiste em um pequeno museu dentro do museu: obras do acervo do MAM colocadas por Gonper em um espaço fictício. Brusky, por sua vez, põe no palco os bastidores da própria mostra: uma mesa de trabalho onde um funcionário do MAM desempenha suas funções administrativas. O fato de que algumas vezes esteja ali cuidando de seus afazeres uma coordenadora de marketing aumenta a carga de ironia deste encontro entre valor artístico e econômico.

Estas duas obras proporcionam um ponto de conclusão sincera à equação de fatores que, juntados neste Panorama, simbolizam as condições da arte feita atualmente no país. Incluem-se neste cálculo o uso dos variados modos de expressão surgidos desde o movimento da Nova Objetividade, o modo de participação dos artistas contemporâneos nos espaços expositivos do país, muitos deles financiados por meio das leis de incentivo fiscal, e o papel dos museus e dos criadores em propostas pedagógicas e, portanto, de aspecto acadêmico, surgidas sob estas circunstâncias. Como já se poderia imaginar, é impossível definir simplesmente pela aparência o que é a produção nacional.

PANORAMA DA ARTE BRASILEIRA
29 Out a 08 Jan
MAM
Parque do Ibirapuera, portão 3 - s/nº
São Paulo - SP - Brasil
04094-000
Tel.: (11) 5549-9688
Fax: (11) 5549-2342

Horários
terça à domingo e feriados das 10h as 18h

Ingressos
R$ 5,50
(estudantes pagam meia entrada com a apresentação da carteirinha)

ENTRADA GRATUITA:
- sócios
- parceiros
- aos domingos - o dia todo
- crianças com menos de 10 anos e pessoas com mais de 65