| CONFISSÕES DE UMA POP-STAR
Madonna está de volta, cheia de energia, plumas e paetês
por
Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )
 adonna já foi de tudo um pouco. Garota Materialista. Atriz de cinema. Polêmica. Puta. Country. Gueixa. Flertou com a música eletrônica. Tirou a roupa e beijou homens e mulheres. Quebrou tabus, rompeu barreiras e ajudou com sua imagem a consolidar o videoclipe como meio divulgação. Virou ícone pop e gay. Aderiu a cabala, transformou-se em mãe e objeto de estudos acadêmicos. Até criticar o "american way of life" e o hedonismo hollywoodiano ela foi capaz. Então o que mais esperar dela? A julgar pelo seu novo trabalho, Confessions On a Dance Floor , uma volta às origens, quando a cantora ainda não estava tão preocupada com o marketing pessoal e com sua imagem de ídolo mundial, e o que importava era mesmo a música. Lógico que não dá para simplesmente esquecer tudo que ela conquistou ao longo de mais de 20 anos de carreira. Nem o que a artista representa para toda uma geração. Mas em seu novo álbum a música vale mais do que a imagem de Madonna e as polêmicas que ela sempre se envolve. E, claro, que isso é pura jogada de marketing. Senão, convenhamos, não seria Madonna.
Confessions On a Dance Floor é o melhor trabalho de Madonna em muito tempo. Desde o ótimo Ray of Light (1998), que trazia claras influências eletrônicas e injetou um novo ânimo na carreira da cantora ao discutir temas como religião, privacidade e incorporar elementos orientais à sua música. De lá para cá, Madonna lançou os irregulares Music e American Life , pagou micos homéricos no cinema (os vexaminosos Sobrou para Você e Destino Insólito ) e perdeu fãs para cantoras menos talentosas como Britney Spears, Gwen Stefani e Kylie Minogue. De certa forma, Confessions On a Dance Floor apaga toda essa má fase da artista e a coloca de volta no seu devido lugar, a de rainha pop.
A melhor virtude de Confessions On a Dance Floor é não se levar a sério, mesmo que uma aura meio descartável perpasse todo o trabalho e o álbum pareça ter um prazo de validade. Madonna não quer inovar ou mudar os rumos da música. Ela quer apenas se divertir e divertir os fãs e entrega, assim, um CD coeso e animado, com a única intenção de fazer dançar. Talvez por isso a comoção em relação ao álbum seja tão grande. Há tempos Madonna não aparecia de maneira tão despojada e despretensiosa, ainda mais depois do fracasso de American Life , que mostrava uma faceta mais “politizada” da pop-star . A fonte onde ela foi pegar essa inspiração mais “alegre” é bem clara, a era disco da virada dos anos 1970. As influências vão desde as plumas e paetês, luzes, brilho e muitas cores até o indefectível globo luminoso.
Grande parte do sucesso do álbum parte da produção esmerada do DJ Stuart Price, dos projetos electro Zoot Woman e Les Rhythims Digitales, que usa samples de “Gimme gimme gimme”, do Abba, no ótimo primeiro single “Hung Up”, e faz referência direta aos teclados de “I Feel Love”, de Donna Summer, em “Future Lovers”. A mixagem do trabalho é concebida como um longo remix sem intervalos ou passagens entre as músicas. Esse recurso acaba fazendo com que, muitas vezes, uma música pareça, na verdade, apenas a continuação da anterior, deixando o álbum com uma sonoridade bem peculiar.
Além de “Hung up”, que ganhou um belo videoclipe que começa com Madonna de maiô rosa e cabelos à la panteras, outro destaque é a excepional “Sorry”, segundo single do CD. A música gruda como chiclete e tem tudo para virar um sucesso nas pistas. Aliás, todo o Confessions On a Dance Floor tem potencial de sobra para fazer a alegria dos fãs de Madonna, provando que a diva pop, mesmo beirando os seus 50 anos, ainda tem energia de sobra para gerar comoção e fazer hits como “Jump”, “I Love New York” e “Like It or Not”. Mesmo faixas que passam batidas em uma primeira audição, como “How High”, a pretensiosa “Isaac” (que se encaixaria melhor no Ray of Light do que aqui) e “Push” vão ganhando destaque e mostrando força com o passar do tempo. Confessions On a Dance Floor é como vinho, melhora com o tempo. Assim como Madonna. |