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6 a 21 de dezembro de 2005

Equipe Edições Anteriores

QUADRINHOS EM MOVIMENTO
Cada vez mais a indústria cinematográfica vem absorvendo o mundo das HQs
por Paulo Eugênio de Carvalho ( peugenio@infonet.com.br )

cinema sempre foi um dos meios de comunicação que mais atraiu a atenção do homem, seja pelo fato de brincar com os sonhos humanos, como pela capacidade de retratar, de forma magnífica, a nossa realidade. Hoje, mais do que nunca, o cinema vem sendo procurado pelo homem, tanto como um meio de diversão como uma forma de fazer (ou, pelo menos, se esconder por algum tempo) da realidade. É esta, certamente, uma das principais causas que faz com que uma pessoa entre numa sala escura e fique nela por mais ou menos duas horas, ou seja, em meio a tantos problemas socioeconômicos, o homem procura sempre formas de se afastar a realidade.

Assim como existem pessoas que também se escondem do mundo atrás de algumas folhas de papel: páginas de história em quadrinhos. Este é outro meio de comunicação que acaba tendo efeitos similares ao do cinema, já que trata dos mais diversos temas. Reunindo a linguagem escrita com a visual, a arte seqüencial se torna outro veículo de comunicação bastante utilizado pelo homem.

Não impressiona que, atualmente, a união desses dois meios de comunicação esteja se tornando tão intensa, afinal, o que não é o cinema senão quadros em movimento? Como o homem gosta de ver o impossível acontecendo, nada melhor do que adaptações cinematográficas de quadrinhos. A fusão desses dois meios gera, contudo, discussões: tais adaptações devem sofrer algum tipo de limitação? Deve ou não uma adaptação de quadrinhos ser fiel à sua fonte? Para que estas perguntas sejam respondidas, será necessária uma longa análise sobre o tema e, para isso, nada mais justo do que observar as adaptações já realizadas pela indústria cinematográfica. Em cada filme analisado, é interessante que seja observado o lado positivo e negativo, ou seja, até que ponto o respeito ou não às HQs, por parte dos diretores de cinema pode prejudicar as adaptações.

Um exemplo para tal observação pode ser Homem-Aranha. Como se sabe, um filme deste tipo atrai, em sua maioria, fãs e admiradores do personagem. É justamente este público que dará ao filme sua devida repercussão. Com Homem-Aranha , a palavra fracasso passou muito longe. Apesar de algumas mudanças, o diretor Sam Raimi soube trabalhar muito bem os personagens durante todo o filme. Somente duas mudanças chamaram mais a atenção dos fãs: a teia orgânica e o uniforme do vilão Duende Verde. Nos quadrinhos, as teias que saem dos pulsos do herói não são de origem orgânica, mas mecânica, ou seja, surgem de um mecanismo desenvolvido pelo próprio Peter Parker. Já o uniforme do Duende no filme não se assemelha nem um pouco ao das HQs. Porém, esta mudança não causou muito problema, pois certas modificações são essenciais, principalmente para criar um nexo causal quanto à origem do personagem nos tempos de hoje.

Outro filme no qual as mudanças, embora significantes, não interferiram no seu sucesso, foi X-Men . Neste, houve uma modificação um tanto quanto arriscada: o uniforme dos heróis. As cores vivas e quentes dos quadrinhos deram lugar ao preto e tons escuros. Apesar disto, muitos fãs respeitaram tal mudança, pois os uniformes do filme trouxeram aos personagens um ar mais sério e realista, tanto que, depois de algum tempo, as HQs absorveram a idéia.

Com o filme Hulk , de Ang Lee, pode-se observar um fator interessante. Grande parte das pessoas (com exceção dos fãs) reclamou do fato do personagem ter sido criado, exclusivamente, por computação gráfica. Na verdade, para que Hulk fosse fiel aos quadrinhos, tal recurso foi fundamental. Pela primeira vez, um personagem fiel à sua origem foi rejeitado. Tal confusão dá-se pelo fato de que grande parte do público foi ao cinema achando que iria encontrar aquele Hulk da série de Tv dos anos 70, interpretado pelo inesquecível Lou Ferrigno. Série esta que retratava um personagem totalmente distante do das HQs. Dessa forma, o Hulk de Ang Lee causou impacto nesse público, que por ter acompanhado tal série, criticou a adaptação.

Com a análise desses filmes, já se pode ter uma noção dos efeitos causados por tais mudanças, todavia, a verificação de mais um filme se faz necessária. Apesar de não ter estreado nos cinemas brasileiros, o filme O Justiceiro chama atenção. Como se sabe, tal personagem não pode ser considerado um verdadeiro herói, pois seu heroísmo é, na verdade, uma conseqüência de suas ações. Se a segurança de uma pessoa estiver dentro dos seus objetivos, ele será um exímio herói. Caso contrário, o “lado negro da força” ganhará evidência. Com isso, percebe-se que o personagem não tem nenhum tipo de superpoderes, ou seja, é um homem normal em uma constante busca de vingança. É justamente esta característica que foi muito bem retratada no filme. Este conta com a inexistência total de efeitos especiais (efeitos digitais/computação gráfica). É importante ratificar que o conceito de efeitos especiais engloba também aquelas famosas explosões (existentes no filme). Dessa forma, somente os efeitos digitais foram descartados. Com um filme à moda antiga, o personagem consegue ter uma boa aproximação dos quadrinhos. Além disso, seu estilo frio e violento foi muito bem retratado, mesmo com os fãs dizendo que o personagem do filme estava “bonzinho”, opinião que talvez contribua para a inserção de cenas bem mais violentas na já programada continuação.

Várias outras adaptações também tiveram igual sucesso nos cinemas: o herói cego Demolidor ; Hellboy ; Quarteto Fantástico e outros que, apesar de mais desconhecidos, foram boas adaptações: Estrada para Perdição , baseado no livro ilustrado de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner e Anti-herói Americano , baseado nos quadrinhos autobiográficos de Harvey Pekar.

Porém, não só de sucesso vive a indústria cinematográfica. Certas adaptações sofrem tantas mudanças que acabam criando um novo personagem, descaracterizando por completo o original. Três filmes podem exemplificar tal afirmação. O primeiro deles é Mulher-Gato . Pode-se dizer, sem exagero, que a única relação existente entre o longa e a HQ seja o título. A personagem sofreu uma enorme quantidade de modificações, seja na sua origem, como no seu uniforme que lembra muito um traje sadomasoquista. Com tantas mudanças, é possível que o filme tivesse um melhor resultado caso fosse dado um outro nome ao personagem, ou seja, um filme totalmente desvinculado da idéia dos quadrinhos.

Outros filmes que seguem esta linha foram Batman Eternamente e Batman e Robin . Além do “carnaval” de luzes e cores, característica que passa longe do Batman dos quadrinhos, os filmes, em especial, o último, apresenta um incrível desperdício de personagens. A idéia que se tem é de que esses seriam os dois últimos filmes do Batman, isto é, nunca mais nada seria produzido e, devido a isto, o diretor utilizou a maior quantidade de personagens possível. Um exemplo deste uso indiscriminado está no quarto filme da série, no qual encontramos o vilão Bane. Este, nas HQs, foi o responsável pela quase morte do homem-morcego. Além disso, Bane deu origem a uma nova saga que traria significantes mudanças na vida do herói. Infelizmente, a participação desse personagem no filme se resume a alguns minutos. Além da origem totalmente reformulada, o vilão é destruído por Robin com apenas um simples chute. Resumindo, um vilão muito importante nas HQs foi desprezado, tornando-se um personagem fraco, vazio e sem importância.

Contudo, Batman ainda pode continuar respirando graças ao recente Batman Begins , filme que conseguiu trazer para as telas a verdadeira essência do herói, tornando-se a melhor adaptação do personagem.

A partir do exposto, percebe-se que nas adaptações cinematográficas de quadrinhos são necessárias certas mudanças, seja para melhor adaptação do ator ao personagem e ao contexto histórico como para haver uma ligação com o que ocorre nos dias atuais ou até mesmo para a composição de um enredo mais ágil e surpreendente. É lógico que há um risco nas adaptações, pois as mudanças, mesmo que poucas, podem ser drásticas e descaracterizar o personagem ou exagerar no clichê. Por isso, roteiristas e diretores precisam conhecer bem a história que estão trabalhando além de estarem cientes que boa parte do público que irá às salas de projeção são fãs que esperam assistir a um filme fiel à sua origem e com isso, deve-se procurar fazer algo que agrade mais ao público que aos padrões estereotipados de Hollywood.

Os filmes baseados nas HQs tornaram-se a nova mania das produtoras, tanto que já está se pensando em torná-los um gênero, pois devido ao sucesso certamente é algo que vai perdurar já que é altamente lucrativo e personagens é o que não faltam. Só a Marvel dispõe de mais de 4.500 para estrelarem alguma produção. Sem contar que as tramas atraem tanto aqueles que sempre acompanharam os quadrinhos quanto aos apenas interessados em diversão regada a pipoca e refrigerante dada a mistura de ação, drama, comédia e romance sempre presentes.