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Em Minority Report – A Nova Lei, Spielberg segue as pegadas do Mestre do Suspense
por Fernando Américo
(
feramerico@yahoo.com.br )
 uito se fala sobre a influência de Hitchcock no cinema moderno. A manipulação do tempo e do espaço foram heranças deixadas pelo mestre do suspense e já totalmente incorporadas à linguagem cinematográfica. Mais difícil é reproduzir a habilidade de Hitchcock de construir o suspense como um segredo, um jogo, uma brincadeira, entre o diretor e o público. Isto explica como, às vezes, na obra de Hitchcock, o cômico nasce da apreensão e até mesmo do drama. As “fatias da vida” de Hitchcock às vezes tinham uma pitada de Lubitsch. O mestre da comédia sofisticada, ídolo de Billy Wilder, tinha uma estratégia muito especial para contar histórias: não contá-las e deixar o público preencher as lacunas. Existe muito de Lubitsch nos melhores filmes ingleses de Hitchcock, como Os 39 Degraus .
Os 39 Degraus pertence a uma tradição narrativa de Alfred Hitchcock, os filmes de jornada, em que um personagem injustamente acusado tem que percorrer grandes distâncias para provar sua inocência. Outros filmes nesta linha são A Dama Oculta (objeto de um recente remake não confesso, Plano de Vôo , com Jodie Foster), Correspondente Estrangeiro, Sabotador e o mais famoso deles, Intriga Internacional . Nestas histórias, Hitchcock se preocupava menos com o lado sombrio da transferência cristã da culpa, para se entregar ao prazer de armar um jogo de gato e rato, não só entre os personagens do filme, mas principalmente com o público.
O cineasta dá uma dica e vai em frente; a nós cabe segui-lo e tentar adivinhar seus passos. No trajeto de Hitchcock, pouco importa saber de antemão onde vamos chegar; a jornada é o que importa. Mesmo porque, nestes filmes de Hitchcock, ao contrário dos que abordam a transferência de culpa (como A Tortura do Silêncio e O Homem Errado ) o personagem principal passa por uma mudança durante o trajeto. A jornada destes filmes é, na verdade, a construção de uma nova identidade para o protagonista.
Em Intriga Internacional , por exemplo, Cary Grant faz o papel de um publicitário com síndrome de playboy que é confundido com um espião internacional infalível, uma espécie de James Bond virtual, que simplesmente não existe; é uma invenção dos serviços de inteligência americanos para deixar seus inimigos sempre na expectativa. Pouco importa que Roger Thornhill, o personagem de Grant, não seja o espião George Kaplan; aliás, pouco importa que Kaplan não exista. Thornhill terá que se transformar em Kaplan para que sobreviva aos perigos que o cercam.
Esta é outra armadilha para os cineastas que ousam tentar seguir o caminho dos filmes-jornada de Alfred Hitchcock. Mais do que salvar o mundo e beijar a mocinha, os personagens de Hitchcock passam por uma trajetória pessoal que os transforma, e neste trajeto, arrastam o público, que no final das contas, é quem mais se diverte. Será que o Mestre do Suspense tinha levado esta fórmula com ele para o túmulo?
Steven Spielberg (que nos últimos anos tem se mostrado cada vez mais surpreendente) provou que não com seu genial Minority Report – A Nova Lei . Lançado em 2002 como um blockbuster no verão americano, o filme teve um resultado modesto para os atuais padrões (empatou com Lilo & Stich na bilheteria do primeiro final de semana) e recuperou o investimento no mercado internacional. O filme só cresce com o tempo, e posso apostar que Spielberg vai ser mais lembrado por ele do que por alguns de suas jogadas de “marketing do bem”, como Amistad , por exemplo. Minority Report é um filme de jornada levado às últimas conseqüências. Se em Hitchcock o assassino era acusado de um crime já passado, na versão de Spielberg para o conto de Phillip K.Dick (o mesmo de Blade Runner ) o herói precisa provar que é inocente de um crime que ainda não foi cometido. Como os “homens em fuga” de Hitchcock, John Anderton, o personagem de Tom Cruise, precisa lutar para manter sua própria identidade, e correr, correr muito. Mas o mais importante de tudo é que ele precisa aprender a ver. Na cena que detona emocionalmente o filme, Anderton, depois de ser acuado pelo investigador de Polícia que vem derrubá-lo do seu posto, é agarrado pela vidente mantida em estado vegetativo para descobrir os crimes futuros. Despertando de um longo silêncio, ela faz a pergunta vital para o filme: “Você pode ver?”
John Anderton vai ter que, literalmente, mudar seu jeito de olhar. Ele vai ter que ter novos olhos para ver o que estava à sua frente, mas não conseguia enxergar. Chefe da PreCrime, uma empresa que revolucionou a Polícia ao resolver os crimes antes que eles acontecessem, John Anderton é um símbolo para a empresa, por causa da tragédia que se abateu sobre sua família: seu filho foi raptado em um local público, torturado e morto. A partir daí, John Anderton passa a ser o maior nome do projeto por sua história pessoal. O que Anderton não sabe é sobre os sacrifícios que foram feitos para que seu sistema fosse perfeito. Minority Report é um filme de verão que contempla temas como as vantagens e limites do livre arbítrio humano. Quem disse que diversão não pode ser reflexão?
Deixo os detalhes da trama para o leitor conferir vendo o próprio filme. Peço apenas que repare nas pequenas surpresas e truques usados pelo diretor de ET para contar a história da maneira mais impactante para o público. Spielberg mostra sua maturidade justamente em um de seus projetos mais comerciais, descendente direto da montanha-russa narrativa da série Indiana Jones e de sua contribuição para o inconsciente coletivo da raça humana, o sublime Tubarão , filme em que também aprendemos a ver o que não existe: o monstro do mar só é mostrado durante cinco minutos. O resto fica por conta de nossa imaginação. O artifício foi tão poderoso, que 30 anos depois, ainda sentimos arrepios quando entramos no mar.
Como em Hitchcock, é no andamento da história de Minority Report que sentimos a invenção, o truque, o malabarismo, o toque que ilustra e expande o sentido do tema central. Sentimos isto quando John Anderton é perseguido pelos policiais e entra numa fábrica de carros (um dos muitos merchandisings do filme). O personagem entra dentro de um carro e ele vai sendo construído em torno dele, até que ele possa fugir de seus perseguidores. A cena é uma homenagem direta a Hitchcock, que tinha um sonho de realizá-la em Intriga Internacional mas não conseguiu. Outro exemplo: a cena em que John Anderton visita a cientista responsável pelo projeto com os videntes em estado vegetativo: o que seria num filme comum uma mera cena de exposição, feita para sabermos mais sobre a trama, vira um dos momentos mais inesperados e emocionantes do filme, com um personagem inesquecível, uma jardineira de clones que revela a Anderton o início do pecado original da PreCrime. E para selar o segredo entre eles, um beijo na boca. Se o mundo fosse justo, Lois Smith teria ganhado o Oscar de Coadjuvante do ano apenas por esta cena.
Mas há mais, muito mais. Em Minority Report , Spielberg parece ter feito as pazes com o contador de histórias que encantou o mundo há 30 anos, muitas vezes sacrificado pelo seu lado humanitário, aquele que lhe deu seus Oscars. E é neste seu prazer de contar histórias que reside a maior influência de Hitchcock, de Lubitsch, de todos aqueles que pedem ao público apenas a inocência de aprender a olhar de novo.  |