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23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006

Equipe Edições Anteriores

O SÉCULO ILUMINADO RUSSO
Compilação revela o melhor da narrativa curta dos melhores autores russos
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

m dos períodos mais férteis da história da Literatura Mundial é sem dúvida nenhuma o século 19. Durante os anos 1800, o mundo viu nascer boa parte daqueles que hoje são considerados cânones das letras. Baudelaire, Kafka, Balzac, Mallarmé, Machado de Assis, Lima Barreto e Whitman são figuras de proa que tiveram seus nomes eternizados no mundo literário e que viveram durante o referido período. A lista é interminável e desnecessária. Data desta época também o surgimento de uma geração de escritores russos fantásticos, que colocou a subdesenvolvida Rússia de então no primeiro time da literatura global. Trata-se de um período profícuo e marcante.

Escritores hoje essenciais brotaram, sob o regime dos czares, aos montes entre as estepes e geleiras eslavas. Puchkin, Dostoiévski, Gogol, Tolstói e Tchekov foram alguns dos autores – os mais conhecidos – que ajudaram a produzir, em um espaço de tempo relativamente pequeno, uma das maiores literaturas do mundo. Além disso, forjaram alguns dos símbolos e mitos mais poderosos da modernidade, como o Homem Comum, o Homem Supérfluo, o Subterrâneo e a Vanguarda.

Neste rico universo, de escritores comprometidos em entender a condição humana, a miséria e o sofrimento surdo de seu povo, o conto ganha lugar de destaque. É fato que os épicos romances de Dostoiévski ( Crime e Castigo , O Idiota, Os Irmãos Karamazov ) e Tolstói ( Ana Karenina, Guerra e Paz ) tiveram importante papel na construção do perfil literário do país, ajudando a arte russa a ultrapassar fronteiras. Porém, apesar de toda influência que o romance traz consigo, é no conto que o homem russo se mostra por inteiro, com seu misticismo religioso, sofrimento e superstição. Ademais, é nas histórias curtas que o contraste entre a vida miserável dos mujiques e a decadência da nobreza ocidentalizada se revela mais nítido.

Boa parte dos melhores contos dos mais notáveis escritores da Rússia pode ser conferida na coletânea que a editora Ediouro relança com o nome de Contos Russos – Os Clássicos . Parte de uma coleção que inclui ainda antologias sobre autores ingleses e norte-americanos, o tomo que traz as histórias russas foi organizado pelo jornalista e escritor Rubem Braga, sob supervisão de outro bamba da literatura brasileira, Graciliano Ramos.

Como o próprio título sugere, o livro traz alguns dos principais autores russos de todos os tempos. Das 39 histórias, apenas duas – “O capote”, clássico de Nikolai Gogol, e “Os sete enforcados”, de Leonid Andreiev – foram traduzidas diretamente da língua de origem para o português. O restante teve a tradução feita a partir de textos do francês e do inglês. Ou seja, a tradução da tradução. Tal fato é justificado, na apresentação escrita por Rubem Braga, devido à falta da grande maioria dos textos originais, o que impossibilitou a tradução direta.

Além dos autores mais conhecidos do leitor brasileiro, como os já citados Dostoiévski, Gogol e Tchekov, a coletânea traz escritores nunca publicados no Brasil, tais como V. Vinnitchenko e Nikolai Tikhonov.

O “time” escalado para a tradução do livro também chama a atenção. Intelectuais destacados como Vinicius de Moraes, José Lins do Rego, Joel Silveira, Manuel Bandeira e Raquel de Queiroz dão um toque a mais na coletânea.

Dentre os medalhões, Anton Tchekov é o autor com mais contos na antologia – cinco no total. Considerado um mestre do conto, o autor de As três irmãs escrevia histórias concisas que valorizavam fatos aparentemente banais. Entre os textos de Tchekov escolhidos para figurar em Contos Russos , “Vanka”, traduzido pelo poeta Manuel Bandeira, é o que melhor representa a escrita métrica praticada pelo autor. Nele Tchekov mostra toda a fragilidade do povo camponês russo diante dos senhores de terras ao contar a história de um menino de nove anos que é mantido como escravo por seu dono. Cronista perspicaz, Tchecov soube traduzir o sentimento de agonia e medo vivido pela classe menos favorecida de seu tempo.

Entre os textos já conhecidos do leitor brasileiro, “A morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstói, a novela “Ela era doce e humilde” de Dostoiévski e “O capote”, de Nikolai Gogol, são os mais significativos. Neste último, o autor de Almas Mortas constrói um dos personagens mais desgraçados da literatura. Akaki Akakievitch, protagonista da história, enfrenta uma verdadeira odisséia para conseguir um novo capote (casaco), que logo depois de adquirido é roubado por ladrões inescrupulosos. Mesmo depois de morto, o pobre volta para resgatar seu único bem que conquistou em vida. Com este conto, Gogol dá vida a um verdadeiro anti-herói, tipo que figuraria com bastante freqüência na literatura russa do século 19.

Leon Tolstói também está bem representado. Além da obra-prima “A morte de Ivan Ilitch”, o autor de Ressurreição contribui com mais dois belos contos: “Aléxis – O ‘pote'” e “Os três staretzi”, este último de tendência religiosa. Talvez pela extensão dos contos que escreveu, Dostoiévski teve apenas uma história selecionada.

Herdeiro da geração de Puchkin e companhia, Gorki, nascido em 1868 e morto em 1936, após o triunfo da Revolução de 1917, foi um dos principais escritores do período soviético e também dá as caras na compilação. “Kirila”, uma de suas histórias contidas no livro, segue a linha da literatura engajada, da narrativa proletária, onde os personagens principais são sempre os desafortunados, prostitutas, trabalhadores braçais, desempregados e vagabundos. Dos escritores alinhados ao regime soviético, a antologia ainda resgata textos Ilya Ehrenburg, Vadim Kozhevnikov e Lídia Seifullina.

As surpresas do livro ficam por conta de Leonid Andreiev, com o ótimo “Os sete enforcados” e Aleksandr Kuprin, autor de “O ultraje”. A primeira história remete de imediato à clássica novela A última noite de um condenado , de Vitor Hugo, ao narrar os últimos instantes de vida de um grupo de criminosos. Valendo-se da psicologia, recurso bastante comum nas narrativas de Dostoievski, Andreiev consegue descrever com maestria o medo e horror dos condenados ao enforcamento antes da pena capital. O final infeliz e trágico do conto é magistral – digno da melhor literatura eslava – mostra por que o autor foi chamado de “matemático do horror” pelo crítico Vladmir Pozner. Porém, nem só de desgraça vive a literatura russa. Kuprin, autor quase desconhecido em terras brasileiras, mostra que a ironia e o bom humor também estão presentes na narrativa russa. Fortemente influenciado pelo estilo de Tchekov, “O ultraje” narra uma situação pouco comum: durante uma reunião de magistrados, um grupo de gatunos, representantes de uma tal Federação das Associações de Ladrões de Rostov-Kharkov-Odessa-Nikolaiev, pede a palavra para que se defendam de acusações falsas e injustas, segundo o chefe do grupo, creditadas aos ladrões do país pela imprensa. De modo cômico, o representante do bando, um exímio orador e espécie de intelectual da quadrilha, expõe seus argumentos ao presidente do tribunal, que ao final do monólogo acaba reconhecendo o talento e a lisura dos “respeitados criminosos”, eximindo-os de culpa.

Todavia, há ainda textos de Puchkin, um dos pilares da arte russa e dono de uma das mais destacadas obras poéticas do país, e Eugenio Zamiatin, autor do hermético romance Nós , considerado precursor da ficção 1984 , que consagrou o inglês George Orwell.

Governada com mão de ferro pelo czar, a Rússia de 1800 lutava contra seu próprio provincianismo. Em uma época em que os grandes centros da Europa desfrutavam as vantagens que o surto industrial e científico lhes possibilitou, a Rússia tentava sair do marasmo que a acometia cultural, política e economicamente. O surgimento das profícuas gerações de escritores a partir do século 19 está diretamente ligado a um evento arquitetônico e urbanístico desprendido pela monarquia russa. A construção de São Petersburgo, iniciada em 1703 por Pedro I, possibilitou ao país adentrar, ainda que lentamente, no modernismo que já se fazia realidade nos países desenvolvidos.

Portanto, São Petersburgo foi a mais clara expressão de modernidade no solo da Rússia ao longo do século 19. A capital imperial representou a força estrangeira e cosmopolita que fluiu no país. Por outro lado, Moscou, até então a principal cidade russa, significava as tradições nativas, uma espécie de anti-Iluminismo. Assim, São Petersburgo era a vanguarda, Moscou o conservadorismo; Petersburgo o secular, Moscou o religioso.

E é justamente deste conflito de interesses que surgiu uma tradição literária rica, que deu vida a uma enorme galeria de tipos. Personagens que oscilam entre o niilismo radical e a esperança religiosa. Ler os clássicos contos russos apresentados aqui, portanto, é uma maneira de entender não só a arte daquele país, mas de algum modo, o povo russo, seus costumes e superstições.