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23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006

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ERROS DE EROS
Filme dividido em episódios prima pela falta de erotismo e de paixão
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

e na mitologia grega Eros, filho de Vênus, é a representação do amor, fazendo com que todos se enamorem através de suas flechadas certeiras, em Eros, o filme, ele não chega nem perto de atingir o alvo.

Dirigido por três grandes diretores, um mestre do neo-realismo italiano e idolatrado pela crítica mundial, Michelangelo Antonioni, e dois dos mais originais e inventivos diretores da atualidade, Steven Soderberg e Wong Kar-Wai, Eros (2004), reúne três diferentes histórias para falar do amor, do erotismo, da paixão, do desejo, ou da falta dele. Pena que tudo isso fique apenas na intenção.

Ao reunir três episódios distintos, falta ao longa unidade, sendo que não existe um elo, ou qualquer outra coisa, que possa ligar as histórias ou causar alguma empatia com o filme. Os episódios estão ali apenas para justificar um lançamento mundial em forma de longa-metragem apoiado no nome de seus diretores. A irregularidade toma conta de Eros , com uma narrativa desconexa e equivocada, tornando-o um filme frio, distante, que passa longe de qualquer sentimento relacionado ao amor, com exceção do último episódio dirigido por Wong Kar-Wai, mas aí já é tarde demais para salvá-lo de toda a chatice.

Nem mesmo a música de Caetano Veloso, intitulada Michelangelo Antonioni, que inicia os três episódios, parece a vontade no longa. Sua beleza é inigualável, mas descabida dentro de propostas tão diferentes de cada um dos realizadores, sendo apenas usada para forçar uma relação entre as histórias.

“O caminho perigoso das coisas”

Infelizmente Michelangelo Antonioni, ainda em atividade no alto de seus 93 anos, entrega a pior história (mas será que tem alguma?) e o pior episódio do longa. Talvez a aposentadoria lhe fizesse muito melhor do que cometer a mais vergonhosa direção da sua carreira.

O episódio de Antonioni é de uma chatice visceral, onde existe um fiapo de história que apenas serve para mostrar mulheres nuas. Se a intenção era falar da incomunicabilidade humana, da relação desgastada entre um casal, temas que são habituais e freqüentes na filmografia do diretor, essa intenção passa longe, ou melhor, ela nem chega a ser considerada. A precariedade da direção e da insistência no nu gratuito nem parece filme de Antonioni e sim aqueles feitos no auge da Boca do Lixo paulistana, que em sua precariedade, ainda conseguiam ser bem melhores.

“Equilíbrio”

Rapaz que sonha sempre com a mesma mulher procura um analista para contar sua história. O analista, por sua vez, parece muito mais interessado no que está acontecendo do outro lado da janela do que no paciente. Realizado em preto-e-branco, Soderbergh cria um episódio simples e divertido, mas nada além disso. Sua história mostra as várias maneiras que o erotismo pode atingir a uma determinada pessoa: o que é erótico pra um, pode não ser erótico para o outro.

“A mão”

Sem dúvida alguma o melhor episódio do longa. Uma pena que foi deixado para o final, quando o tédio já tomou conta de todos nós. Mas, mesmo assim, a história de Wong Kar-Wai resiste arduamente. Mais uma prova do talento e da sensibilidade única desde cineasta que tem deixado sua marca e criado um estilo único de direção: muitos closes, cores fortes e quentes e uma trilha sonora arrebatadora.

“A mão” segue a mesma linha de “Amor à flor da pele”, um dos grandes sucessos do cineasta, ao criar um clima de forte atração e paixão platônica que permeia toda a película. O desejo, o voyeurismo, está presente na história do jovem aprendiz de costureiro que se apaixona por uma prostituta para quem tem que costurar um vestido. Para que ele a conheça melhor, a jovem prostituta toca-lhe o corpo e deixa ser tocada, para que ele nunca esqueça aquelas medidas e costure pensando nela. Ao tocá-lo, ela lhe mostra o quanto de prazer sabe extrair de um corpo, e ao conhecer a mão dela, ele usaria a dele para fazer os mais belos vestidos que pudesse cobri-la.

O desejo em possuir o que não se pode, o corpo do objeto amado, acaba sendo possuído pelos vestidos feitos, a cada toque da roupa na pele dela é como se ele a estivesse tocando. A volúpia é transformada em amor e a redenção para ambas as partes pode estar mais longe do que eles imaginam. Platônico, duro e cruel, com toda a sensibilidade que só Wong Kar-Wai consegue. E é dele que vem a salvação para Eros , um filme com mais erros do que acertos e, sem querer, somos flechados pela delicadeza desse episódio, fato que deixaria qualquer Cupido orgulhoso.