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23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006

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LADO PODRE DO CONGRESSO GANHA ESPAÇO
Em entrevista, jornalista Lucio Vaz dá detalhes sobre seu livro A Ética da Malandragem
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

crise política que explodiu no Brasil este ano serviu para escancarar em páginas de jornal, sites da internet, programas de televisão e de rádio, todas as falcatruas e falta de compromisso com a ética e com a sociedade, da grande maioria dos políticos brasileiros. Os acontecimentos dos últimos meses revelam o desprezo pelos projetos do país, a luta para garantir interesses pessoais em cima de votações e liberações de verbas da União para obras eleitoreiras, o pagamento de propina (ou o famoso “mensalão”) a deputados para fazerem parte da base aliada do partido do governo e aprovarem seus projetos no Legislativo. Vimos a ascensão e queda do líder do “baixo-clero”, Severino Cavalcanti, símbolo-mor desse modo de atuar na política, que no governo atual entrou de vez na participação e divisão do dinheiro e poder em Brasília. Cada vez mais o Congresso Nacional mostra a sua principal cara, podre e corrupta, para a população.

Nada mais oportuno, portanto, que um livro retrate esse lado do Congresso em que as coisas não funcionam e se sobrepõem à Casa que deveria aprovar projetos em benefício do povo e do desenvolvimento do país. Coincidência ou não, A Ética da Malandragem: no submundo do Congresso Nacional (Geração Editorial), do jornalista Lucio Vaz, 47, supre, de forma surpreendente, todo esse cenário triste da política brasileira, em que os mandatos são alugados, a contratação de parentes é abundante, os funcionários são obrigados a ceder parte do salário ao político que o contratou. Trata-se de uma compilação de reportagens sobre o esse submundo (revistas e com informações atualizadas de possíveis desdobramentos), feitas durante os cerca de vinte anos de cobertura no Congresso, em que trabalhou em jornais como o Correio Braziliense e a Folha de S. Paulo , onde acabou se especializando nesse tipo de trabalho. Lançado em julho, o livro já está em sua segunda edição, tendo a primeira esgotada em apenas três meses.

Em entrevista concedida ao Rabisco por telefone, direto de sua casa em Brasília, durante um intervalo do jornal para o almoço, Lucio Vaz deu detalhes sobre a confecção do livro e falou sobre a ligação do tema escolhido com os acontecimentos na política nacional. Para ele, um dos principais problemas da corrupção no Congresso está na impunidade, além da falta de educação e cultura do povo que vota em troca de alguma coisa e não tem o político representando os interesses de sua cidade. “Aquele que troca seu voto por uma cesta básica vai ficar quatro anos passando fome. Faltam condições para as pessoas terem consciência política”, afirma. Confira o bate-papo com o esse gaúcho de São Gabriel que queria fazer cinema e tomou gosto pelo jornalismo.

– Como surgiu a idéia do livro?

A primeira idéia era fazer um livro só de reportagens sobre negociatas de cargos, mas eu achei que ficaria monotemático e como eu fazia muita matéria sobre o Congresso Nacional, esse submundo mesmo, do nepotismo, do aluguel de mandatos, da troca de voto, eu vi que dava para fazer sobre tudo isso. E também não quis fazer um livro sobre a minha vida, que é o erro que muitos jornalistas caem. O objetivo não era falar sobre mim e sim contar as histórias do submundo do Congresso. Eu tinha mais umas vinte reportagens que não tinham relação com esse tema e que eu deixei fora. Daí eu comecei a pensar como eu faria, se em primeira pessoa ou não. Apesar de parecer meio arrogante em primeira pessoa, era a melhor escolha, pois como eu ia fazer se fosse em terceira pessoa? ‘ O repórter Lucio Vaz...'. Sem contar que em primeira pessoa eu poderia fazer comentários daquilo que eu vivenciava.

Como foi esse trabalho de compilação das matérias?

Eu fui formatando aos poucos. Eu passei o primeiro ano recolhendo material e fazendo entrevista, porque essa parte do making of nem tinha. Então eu entrevistava a pessoa novamente e perguntava: “você disse isso?”, “não, foi de outra forma”, conversava sobre os detalhes, até porque os diálogos não foram publicados na época, então eu tive que fazer esse trabalho. Eu fiz também uma pesquisa na biblioteca do Senado e da Câmara, onde eu consegui recuperar as matérias. Porque até 1994 é fácil, pois como eram da Folha de S. Paulo é só fazer a pesquisa no site deles que aparece a data da matéria. Mas de 1994 para trás é mais complicado, eu tive que entrar em contato com o jornal para acessar o banco de dados da própria Folha e recebi tudo por fax. Pelo menos eu tenho todas as entrevistadas gravadas e transcritas comigo, essa organização ajudou bastante. Já para escrever foi complicado, pois como eu trabalho muito ficava difícil me dedicar. Nos primeiros seis meses eu escrevi uns oito capítulos. Aí em fevereiro desse ano eu tirei quarenta dias de férias do Correio Braziliense e escrevi mais 16 capítulos. Mas aí eu já estava com todas as entrevistas e as gravações prontas, era só redigir e concluir, o que aconteceu em março.

Como é para você lançar um livro bem no meio dessa crise política desencadeada por corrupção e favorecimentos que são os mesmos que você relatou durante esses seus vinte anos de cobertura jornalística?

O livro foi lançado em julho, dois meses antes do mensalão, então não tem nada a ver com o mensalão, como muitas pessoas perguntam, apesar do tema ser recorrente. Quando eu terminei de escrever o livro (em março) o Severino Cavalcanti se elegeu como presidente da Câmara dos Deputados e algumas pessoas começaram a comentar sobre a relação do livro com ele. A editora até sugeriu de colocar uma foto do Severino na capa, mas eu recusei, porque não é um livro sobre o Severino, ele é apenas um personagem, um símbolo dessa gente que está lá para se beneficiar e não para defender o interesse público. Quando o livro foi lançado, a repercussão da crise ajudou a divulgar, fui chamado para dar entrevistas em vários lugares. Aí depois que a CPI esfriou veio o escândalo do mensalinho que estava ligado ao Severino, o que fez retomar a divulgação. É incrível como essas tragédias acabam ajudando nosso trabalho.

De todas essas reportagens que foram selecionadas para o livro, qual é, para você, a mais emblemática para o momento atual de nossa política? E qual você mais gostou de ter feito?

São vários capítulos que gosto. Mas tem um que hoje a história se repete que é o do PTB e o aluguel da legenda. Quando eu ouvi numa sala, políticos do partido discutindo quanto tinha de ser o valor que o Paulo Maluf deveria pagar para o PTB apoiá-lo. Não havia nenhuma discussão ideológica ou programática, e sim de números. E passados quatro anos o PTB recebeu 10 milhões para apoiar o governo do Lula, e isso é significativo, pois um partido como o PT que tinha um compromisso com a ética. Mas tem também a que eu fiz na terra do João Alves (a respeito do “anão do orçamento”, que direcionou altas quantias da União, durante o governo Collor, para sua cidade), para ver como vivia aquele povo. Encontrei personagens interessantes na terra dele. Sobre a venda de cocaína também, que foi um absurdo o Congresso não estar preparado para ter um controle a esse respeito. Acho que a imprensa tem até um papel educativo nisso, por exemplo, hoje o controle é muito maior, tem detector com raios-X para não entrar armas, drogas, etc. As matérias servem para educar e corrigir e não como uma forma de depreciar a imagem do Congresso, como muitos políticos criticam. A idéia é que as matérias mostrem os problemas para que sejam corrigidos.

Como é para você fazer essas matérias sobre denúncias de irregularidades e ver que o acusado é absolvido mesmo com provas contundentes, como no caso do deputado Zé Gomes (PSD-GO), que contratava jogador de futebol para o time de sua cidade (Itumbiara) e colocava-os na folha de pagamento de seu gabinete, e teve apenas uma suspensão de um mês como pena, e acabou sendo apoiado pelos moradores da cidade, sendo reeleito em seguida. Como é isso para você?

O caso do Zé Gomes ele acabou sendo reeleito com uma boa quantidade de votos. Teve também do deputado Chicão Brígido (PMDB-AC) que alugava o mandato para a sua suplente em troca de dinheiro, arrecadado dos próprios funcionários de gabinete. Esse foi julgado e absolvido pelos próprios deputados na Câmara. Também tem esse lado, as denúncias levam à correção de alguns casos, mas a maioria ainda é impune e isso possibilita novos casos. Falta educação e cultura para o povo, pois ele troca seu voto para uma pessoa que não vai representá-la e sim a interesses comerciais. Aquele que troca seu voto por uma cesta básica vai ficar quatro anos passando fome. Faltam condições para as pessoas terem consciência política, além da questão da impunidade. Nesse sentido, o papel da imprensa é um processo lento. Com o tempo as coisas vão melhorando, a imprensa tem esse papel de fazer a vigilância e mostrar as coisas erradas. O problema é que as coisas mudam muito aos poucos.

Como é conviver com os dois mundos do Congresso? Como é essa relação no cotidiano com pessoas que praticam atos ilícitos ou anti-éticos?

Eu acabei me especializando nesse tipo de cobertura na Folha , e acho que é por vocação mesmo, eu gosto de trabalhar com o submundo. E para isso você tem que ter contato com eles, jantar, sair para bater papo. Às vezes o deputado não tem expressão no cenário político, mas acabam saindo informações interessantes, pois para ele é importante que saia em seu município que ele conseguiu aquela verba, não importa se ele está vendendo o voto. E trabalhar com os adversários, pois na maioria das reportagens são os adversários que entregam seus opositores. Mas não pode nunca se misturar nem ser cúmplice.

A maioria dos políticos relatados por você nesse livro partilham do mesmo pensamento, ao considerarem normal receberem verbas para seus redutos eleitorais em troca do voto em determinado projeto do governo. Você credita isso a uma cultura política no Brasil em que o “é dando que se recebe” e a tal “lei de Gérson” são as únicas éticas que regem de verdade o Brasil?

Nos Estados Unidos o voto é distrital, lá o político é eleito e representa uma região. Numa reportagem que fiz na Folha, 60% dos deputados eleitos são “distritais”, isto é, representam um reduto eleitoral. No caso de cidades grandes é eleito apenas um e em cidades menores ele junta 3, 4 municípios e consegue voto deles para representar a região. Tem que ficar claro que não é errado o deputado ou o senador querer uma ambulância para sua cidade, mas sim a forma como ele a consegue. Ele não pode trocar seu voto a favor do governo para conseguir um hospital para a sua cidade, ele tem que agir com seu poder de convencimento para que o governo ache importante o hospital naquela cidade.

Para você, possível é ainda acreditar no outro Congresso, ou hoje os “dois mundos” do Congresso estão tão entrelaçados que fica difícil acreditar quem é quem? O que ocorre hoje no Congresso não é prova de até onde o baixo-clero pode ir dentro da estrutura do Legislativo?

A eleição do Severino serviu para o Congresso aprender um pouco, pois os partidos de oposição ao governo votaram nele para irem contra o PT. Aí viram que erraram, o que abriu espaço para o Aldo Rebelo (PC do B-SP) ser eleito, mas o José Thomaz Nonô Figueiredo (PFL-AL) estava muito mais preparado. O Aldo eu tenho como uma pessoa correta. Agora, ele cometeu o pecado original de ser líder do governo, então ele não tem a independência suficiente para presidir a Câmara de forma autônoma, mas como ele é um homem de bem eu acredito que ele possa fazer as coisas. Essa coisa de político bom e mau sempre vai ter, tanto que vários são cassados por assassinato, por irregularidades, é um certo espelho da sociedade. Mas o Congresso não é a sociedade, pois nem todos os setores da sociedade estão representados, tem empresários demais, os trabalhadores estão sub-representados, assim como outros setores. Nosso papel é apontar as falhas e também o caminho, temos um papel social e político de ajudar a esclarecer a população sobre isso para na hora de votar não eleger mais esses políticos.