Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006

Equipe Edições Anteriores

IN MEMORIAM
Morte do ator Noriyuki Morita faz o mundo relembrar o carisma do eterno Sr. Miyagi
por Ricardo Stabolito Junior (ricardostabolito@bol.com.br)

ator morre, sua obra fica”. É comum ouvirmos de atores mais experientes esse tipo de frase. Quando pensamos que muitos ficaram, ficam e ainda ficarão mais conhecidos por um personagem a que deram vida do que pelo próprio nome, constatamos que a frase é verdadeira. E Noriyuki “Pat” Morita é um dos casos mais notáveis dessa frase.

O ator nipo-americano faleceu no último mês de novembro, em sua casa, na cidade de Las Vegas, por causas naturais. Ele tinha 73 anos, sendo 38 deles dedicados à carreira no cinema. O anúncio de sua morte foi feito por Evelyn Guerrero, sua parceira há 12 anos. Morita nasceu no dia 28 de junho de 1932, na cidade de Isleton, na Califórnia. Durante a juventude, dois fatos foram marcantes em sua vida: a possibilidade de não andar pelo resto da vida, por causa de uma tuberculose vertebral, e, logo após, a prisão a qual esteve submetido em um campo de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial.

Sua carreira artística se iniciou como comediante de palco e chegou a se apresentar profissionalmente em casas noturnas. No entanto, a péssima condição em que se encontrava a família após a guerra, levou-o a ser programador de computador. Nesta profissão, acreditava que teria mais sucesso financeiro, mas, a vontade de retomar a vida artística sempre esteve presente em Pat Morita.

Após se estabilizar financeiramente, ele conseguiu retomar a carreira. Seu primeiro papel no cinema foi uma pequena aparição no musical estrelado por Julie Andrews Positivamente Millie (1967). Na seqüência, veio a participação na comédia-faroeste The Shakiest Gun in the West (1968) e, no ano seguinte, estreou na TV na série The queen and I . Sua primeira grande chance foi na TV, na série cômica de sucesso Happy Days , em 1975. O papel de Arnold, dono da lanchonete, que era cenário principal da produção, foi um grande empurrão na carreira do comediante. O sucesso levou o canal a dar-lhe seu próprio seriado logo no ano seguinte – Mr. T and Tina – que não passou da primeira temporada.

Apesar do fracasso na TV, Morita continuou fazendo participações especiais nas principais séries de sucesso da época. M*A*S*H* , Kung Fu , Starsky & Hutch e Magnum foram algumas das séries em que fez pontas. Mas Noriyuki Morita não esqueceu o cinema, tendo participações elogiadas nos filmes A batalha de Midway (1976) e no hilariante Os trapalhões do futuro (1982), ao lado do peso-pesado da comédia Jerry Lewis. No mesmo ano, ele teve um retorno bem-sucedido de mais uma temporada a série Happy days .

A sua grande chance apareceu no ano de 1984. Pat Morita se interessou no papel de Kesuke Miyagi, no novo projeto do diretor John G. Avildsen – Karate Kid . Avildsen tinha no currículo um Oscar de melhor diretor por Rocky – Um lutador (1976), a demissão antes do início das produções do filme de maior sucesso dos anos 70 – Os embalos de sábado à noite – e uma extensa lista de produções fracassadas a partir daí.

Nos testes para o papel, Morita foi notadamente o melhor dentre os concorrentes. Os produtores não gostavam da idéia de tê-lo no papel, pois ele fez carreira em papeis cômicos e Miyagi era um personagem que requeria uma interpretação de caráter dramático. Além disso, os produtores não acreditavam que Pat Morita, com sua aparência simpática e frágil, convenceria na interpretação de um “rígido” professor de artes marciais. Mas, no fim, o apoio do diretor e os bons desempenhos nos testes falaram mais alto e o ator foi contratado.

Karate Kid foi um grande sucesso. A história do garoto (Daniel LaRusso – interpretado por Ralph Macchio) que encontra nas artes marciais um meio de proteção, um sentido para a vida e um grande amigo (Miyagi) encantou platéias do mundo inteiro e Macchio e Morita se tornaram grandes ícones da cinematografia americana dos anos 80. Os críticos se entusiasmaram mais com a interpretação de Morita do que com o filme em si.

A atuação de Noriyuki Morita foi surpreendente. Ele teve competência para interpretar com maestria um personagem que tinha múltiplas facetas. Miyagi tinha momentos cômicos, dramáticos, tensos e alegres, mas a interpretação de Morita enveredou por todas essas linhas com perfeição. A comicidade do ator, que era motivo de preocupação dos produtores, se tornou um ponto positivo nos momentos engraçados de Miyagi. A aparência frágil e simpática de Morita ajudou a tornar Kesuke Miyagi um personagem mais carismático e real.

No fim de 1984, Noriyuki “Pat” Morita se tornou o primeiro ator nipo-americano indicado a um Oscar. Sua atuação em Karate Kid – A Hora da verdade lhe rendeu a indicação ao prêmio de melhor ator coadjuvante. Acabou não levando a estatueta, a perdendo para Haing S. Ngor por Os gritos do silêncio . A série rendeu mais duas continuações de sucesso com Ralph Macchio em 1986 e 1989. As atuações de Pat Morita continuaram a chamar a atenção, mas menos do que no primeiro filme. Em 1994, Karate kid ganhou uma terceira continuação apresentando Morita e a jovem Hillary Swank. A atriz viria a falar mais tarde que Morita foi um dos primeiros impulsionadores de sua, hoje, brilhante carreira.

A carreira de Pat Morita ficou extremamente ligada à figura de Kesuke Miyagi, mas isso não o impediu de continuar trabalhando em cinema e TV. Ainda nos anos 80, se destacam a série Ohara (1987) e a comédia estrelada ao lado do apresentador noturno americano Jay Leno Dois tiras da pesada (1989). Nos anos 90, Noriyuki continuou desenvolvendo trabalhos, mas com menos oportunidades de mostrar seu talento em filmes realmente sérios. Destacam-se a comédia Lua de mel à três (1992 – com Nicolas Cage em meteórica ascendência), Até as vaqueiras choram (1993) de Gus Van Sant, a comédia Duro de espiar (1996) com o genial Leslie Nielsen e três filmes com Jean Claude Van Damme: as duas continuações do sucesso O Grande Dragão Branco (filmes de 1995 e 1997) e Inferno (1999) onde possui uma pequena e engraçadíssima participação. Além disso, o ator emprestou sua voz ao imperador nas animações de sucesso Mulan (1998) e sua continuação Mulan 2 (2001).

Nos últimos anos, Pat Morita vinha participando de filmes de menor expressão e fazendo aparições especiais em séries de TV. De seus últimos trabalhos destacam-se Elvis ainda não morreu e Luz, Câmera e Ação (ambos de 2004). A sátira com Jerry Lewis e com participação especial de Michael Jackson, Miss Cast Away (2004), é outro lançamento com a participação de Morita. Para 2006, existem três filmes para serem lançados com a presença do ator. Tratam-se das comédias Angst e American Fusion e do thriller independente Princess , que é oficialmente seu último trabalho no cinema.

Nas ruas dos EUA, eram poucos aqueles que o chamavam de Pat Morita. Todos se referiam de forma carinhosa ao lendário Mr. Miyagi. Recebeu uma estrela na calçada da fama de Hollywood, no ano de 1994, mesmo em que lançava Karate Kid 4 . Pat Morita colecionou fãs pelo mundo inteiro e seu jeito simpático cativou uma geração. Muitos foram pegos de surpresa com sua morte. A verdade é que Noriyuki “Pat” Morita morreu dia 24 de novembro de 2005, mas o Sr. Miyagi que ele popularizou fará dele eterno.