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23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006

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CICATRIZES HEROÍNAS
Anthony Kieds revela como conseguiu salvar-se das drogas e levar em frente o Red Hot Chili Peppers em Scar Tissue
por Guillermo Gumucio ( guillermogumucio@yahoo.com )

om certeza você conhece o Red Hot Chili Peppers. "Higher Ground", "Give It Away", "Under the Bridge" e "Californication" são apenas alguns dos hits que não pararam de tocar nas rádios durante mais de uma década. O que você provavelmente não conhece é o verdadeiro pesadelo que foi a vida de seu vocalista, Anthony Kiedis, até recentemente, durante toda a trajetória de sucesso da banda, e que está descrita pelo próprio (com colaboração de Larry Sloman, de On the Road with Bob Dylan ) em Scar Tissue: A vida alucinada do vocalista dos   Red Hot Chili Peppers, lançado pela Ediouro.

A autobiografia resulta em uma combinação cujo conteúdo é 70% a história de um viciado reabilitado e o pouco restante sobre a música que ele fazia e o tempo com os colegas de banda, e esse é o maior problema para o fã que tinha a esperança de encontrar um teor mais detalhado sobre a carreira do Red Hot Chili Peppers e não está muito interessado em ler a respeito de incontáveis dias e noites de seu vocalista preferido sob o efeito de heroína. no que muitas vezes assemelha-se bastante aos relatos de reabilitados dos grupos de reuniões de viciados, que Kiedis efetivamente presenciou, conforme conta em suas eloqüentes linhas.

Uma das partes mais interessantes do livro talvez seja o prefácio, que prega uma bela peça no leitor, além de dar a pista sobre qual será o assunto abordado nas 312 páginas subseqüentes: drogas, drogas e mais drogas. O subtítulo da edição brasileira avisa apropriadamente, mas nós, consumidores acostumados a adjetivos exagerados para promoção e marketing do produto, não damos a devida atenção, pois, afinal, tudo no rock deve ser “alucinado”. Entretanto, as páginas dedicadas aos preparativos, procedimentos e conseqüências do consumo de drogas, em especial a heroína, são maioria, sendo que muitas outras parecem-se mais com dedicações tardias de amor. Há alguns episódios curiosos, como o relacionamento com Nina Hagen ou o affair sem um único beijo com Sinead O' Connor, por exemplo, entre outras mulheres com quem Kiedis teve o privilégio de dividir sentimentos e prazeres carnais.

Há um ponto por de mais importante na biografia de Anthony Kiedis que chama a atenção de qualquer um que tenha idéia clara da fama e sucesso da banda: o fato de toda a loucura por ele vivida não ter sido passada, percebida pelo público em geral. Quer dizer, todos conseguem imaginar uma coisa ou outra com relação a drogas, até pelas letras e histórico de episódios trágicos em relação a isso na banda (a morte por overdose do guitarrista Hillel Slovak e o afastamento muito ligado às drogas de John Frusciante, que depois voltou à banda para gravar  Californication e permanece no posto até hoje)  mas não todo o turbilhão e seqüência de eventos, como descritos no livro. O fator revelação é encontrado exatamente nesse ponto – na descrição de alucinações e consumo de diversos entorpecentes pelo vocalista de um dos conjuntos de rock mais famosos dos últimos vinte anos.

Muitos dos relacionamentos com os produtores estão relacionados em Scar Tissue , com as impressões de Kiedis em relação a eles: o carinho por George Clinton (Parliament/Funkadelic), a admiração pelo profissionalismo de Rick Rubin e até mesmo uma brincadeira escatológica que realizou com Flea para zombar de Andy Gill, guitarrista do Gang of Four que produziu o disco de estréia de 1984, e com o qual tiveram diversas brigas e discussões e quem tornou-se uma total decepção por tratar-se de uma referência musical muito importante para a banda e não ter cumprido sua tarefa com a produção como eles gostariam. Inclusive, a narração recai menos sobre a amizade com Flea do que se poderia imaginar. É claro, ele não deixa de mencionar a respeito de como o baixista australiano e eterno amigo o salvava de suas noitadas em companhia apenas das drogas em hotéis de Los Angeles, mas, ainda assim, não é tanta a atenção dada a esse aspecto como seria de se esperar para quem acompanha a carreira do Chili Peppers. Entretanto, a perda irreparável de Slovak é tratada conforme o esperado, sem dúvida. Kiedis esmiúça todas as sensações de que sua ausência provocaram nele e, é claro, descreve os dias de uso de quantidades assustadoras de heroína após o falecimento e a vontade de isolamento que costuma atacar em tais momentos.

A rotina de viciado de Kiedis não era nem um pouco agradável e pode causar certo espanto em grande parte de sua comunidade admiradora, visto que ela é repleta de belas criaturas do sexo feminino. Tudo começa aos treze anos, quando ele experimenta maconha a convite do pai ausente, um hippie e pequeno traficante, e uma de suas companheiras relâmpago. Após isso, começou a freqüentar as festinhas concedidas pelo progenitor e a sentir-se mais adulto, numa fase que ele próprio enxerga com muita auto-crítica hoje em dia, comentando que era o típico garoto revoltado e problemático, sempre querendo briga com tudo e todos para alcançar o que quisesse. A heroína permeia por toda a biografia, trazendo os mais diversos problemas tanto para a vida pessoal e amorosa quanto para a profissional, e é possível encontrar algumas histórias cruelmente interessantes, como a troca de uma guitarra autografada pelo Rolling Stones “pela menor quantidade de droga que já havia visto” e uma viagem a Bornéu na tentativa de reabilitar-se a, além de outros não ligados aos problemas com narcóticos, como a explicação definitiva do episódio “Fire” em Woodstock ou sobre a gravação da polêmica cena do beijo com Dave Navarro no vídeo de “Warped”.

Curiosamente, o momento do primeiro baseado de Kiedis está documentado em uma seqüência de fotografias em preto e branco que dignamente consta da primeira das páginas para esse fim inseridas no miolo do livro. Entre outras fotografias, há as várias formações da banda, Kiedis com sua mãe (e fã número um) e Dalai-Lama ("o cara também sabe se vestir"), além de uma galeria com muitas das mulheres de sua vida.

A edição da Ediouro traz uma capa surpreendentemente mais significativa e artística que a da edição norte-americana e a tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves e Andréia Moroni para o português é adequada, incorporando algumas das expressões atuais e termos relacionados ao uso de drogas.

Pode ser mais um relato de um ex-viciado famoso, mas realmente vale a pena para os admiradores do serviço à música pop e funk realizado por Kiedis e seus companheiros; contudo, os longos relatos sobre drogas e noites de sexo, que tornam-se mais freqüentes na segunda metade do livro, chegam a ser cansativos até para aqueles acostumados a coisas como Trainspotting ou conversas com aqueles que passaram por algo parecido. Nas últimas fases da banda, o detalhamento dos fatos ligados à música também deixam a desejar, em comparação com o início, para dar lugar à montanha russa do vício do vocalista que termina, por sorte, com final feliz.