| BRAVO!
Virtuosi chega à oitava edição trazendo novidades e reflexões sobre o papel da música erudita na formação cultural
por
Ana Lira
(
analira@rabisco.com.br )
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| Tuca Siqueira |
ue a música produzida em Recife ganhou novos elementos, nos últimos vinte anos, não é surpresa para quem tem acompanhado a produção cultural da cidade. No entanto, algo mais se transformou na capital de Pernambuco, e não foi para melhor. Houve uma época em que sair de casa, para ver as apresentações da Orquestra Sinfônica do Recife, era quase um ritual. Lembro ainda de uma noite, no Parque da Jaqueira, em que choveu e eu não consegui ver a parte final do concerto porque uma centena de sombrinhas e guarda-chuvas se abriram na minha frente.
Cenas como aquela se repetem pouco em Recife, atualmente. A Sinfônica tem sido vista em raras apresentações e os eventos de música erudita começaram a desaparecer do calendário cultural da cidade. Um dos poucos que ainda resistem, fora do circuito de pequenos recitais organizados pelo curso de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ou pelos núcleos e conservatórios de música do estado, é o Virtuosi - Festival Internacional de Música de Pernambuco , cuja oitava edição ocorreu entre os dias 12 e 18 deste mês.
O evento foi realizado mais uma vez no Teatro Santa Isabel – que foi construído em meados do século XIX, pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier e abriga o festival desde 2003, quando ele deixou de ocorrer no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O Santa Isabel tem cerca de 700 lugares, o que é pouco para um festival que tem a intenção de impulsionar a democratização da música erudita. No entanto, a pianista e organizadora do evento, Ana Lucia Altino, explicou que a mudança ocorreu porque o festival, até então, era mais voltado para a música de câmara (com poucos músicos, como o Quarteto da Cidade de São Paulo), e o Teatro Santa Isabel se encaixava melhor na proposta, além de ter uma acústica mais apropriada.
Nesta edição de 2005, contudo, o Virtuosi trouxe uma composição menos voltada para a orquestra de câmara, com a fundação da Orquestra Sinfônica Virtuosi, que participou das apresentações durante quatro dias, dos sete dedicados ao festival. Para se ter uma idéia, no ano passado o evento foi realizado apenas durante três noites, e duas delas foram dedicadas a recitais: um do violonista Fabio Zanon e o outro do violinista Daniel Guedes. Portanto, a fundação da sinfônica, para o oitavo ano do evento, pode trazer novidades no futuro. De acordo com Ana Lucia Altino, se este formato se consolidar, a organização pode considerar a possibilidade de procurar espaços maiores, como era o caso do Teatro da UFPE.
Além da Orquestra Sinfônica Virtuosi, outras iniciativas puderam ser conferidas ao longo da semana. Nos dois dias em que seriam executadas obras de compositores pernambucanos, como Capiba, Clóvis Pereira e José Ursicino da Silva (o maestro Duda), os ingressos foram gratuitos. Além disso, a organização também promoveu seminários, ensaios abertos para alunos das escolas recifenses e master classes para estudantes de música. Esta idéia, por sinal, foi desenvolvida, no ano passado, pelos idealizadores do Virtuosi , durante o projeto A Fábrica de Música , que estruturou uma orquestra de jovens músicos da região e realizou mais de 40 concertos na capital e no interior.
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| Ana Lira |
Se o VIII Virtuosi trouxe várias novidades, outros aspectos foram mantidos, como a tradição de homenagear compositores locais. A honra deste ano foi concedida o maestro Clovis Pereira, que foi responsável pelas primeiras composições do Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna, além de possuir um trabalho de vasta amplitude, indo do popular ao erudito. O evento homenageou, ainda, os 400 anos da obra Dom Quixote de la Mancha , de Miguel de Cervantes, e dedicou a quinta noite à memória da pianista pernambucana Josefina Aguiar, falecida em 26 de junho deste ano.
AS SETE NOITES
12.12 - Retratos Para o Cavaleiro da Triste Figura
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| Tuca Siqueira |
A abertura do VIII Virtuosi - Festival Internacional de Música de Pernambuco foi dedicada aos 400 anos do clássico de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha . Sob o título de “Retratos Para o Cavaleiro da Triste Figura” , as apresentações da noite integraram música, cinema e artes cênicas. O palco foi ocupado pela pianista Vânia Pajares, a mezzo-soprano Denise de Freitas, o barítono Homero Velho e o coreógrafo e bailarino Wagner Alvarenga. A orquestra, sob regência do maestro Rafael Garcia, ocupou o fosso do Santa Isabel.
A apresentação foi belíssima. Iniciando com a seqüência Burlesque de Don Quixhotte, do compositor alemão Georg Phillip Telemann, que viveu entre os anos de 1681 e 1767 e foi contemporâneo e compadre de Johann Sebastian Bach. A segunda parte trouxe as árias da ópera Don Quichotte , do francês Jules-Émile-Frédéric Massenet, que foram executadas por Homero Velho e Denise de Freitas. Os cantores também interagiram com o bailarino Wagner Alvarenga, que representou Dom Quixote. Freitas, em interpretação emocionante, personificou Dulcinéia, a amada do cavaleiro da triste figura.
O terceiro momento da noite trouxe três canções do francês Joseph Maurice Ravel, que é popularmente conhecido por uma obra que compôs em 1928, o “Bolero”. Na primeira noite do Virtuosi , Ravel foi representado pela seqüência Trois Chansons de Don Quichotte à Dulcinée , que ele elaborou entre 1932 e 1933 para o concurso que escolheria a trilha sonora do filme Don Quixote, de G.W. Pabst, de 1933. No entanto, a obra selecionada foi a do compositor Jacques Ibert - que acabou responsável pela música de diversos outros filmes, entre eles Macbeth , de Orson Welles, em 1948. Por uma enorme fatalidade, Trois Chansons de Don Quichotte à Dulcinée foi o último trabalho completo de Ravel, que faleceu em 1937.
Por último, ouvimos a seqüência Don Quichotte, do compositor austríaco Ludwig Léon Minkus, que a compôs para o Balé do Teatro Bolshoi, a pedido do coreógrafo Marius Petita, com estréia mundial realizada em 27 de dezembro de 1869. Durante a execução das sequências, e da coreografia de Alvarenga, foram exibidos trechos dos filmes Don Quichotte , de G.W. Pabst, de 1933, como foi citado; o também Don Quichotte , de Orson Welles, de 1992; e Man of la Mancha , de Anthur Hiller, lançado em 1973.
A platéia presente ao primeiro dia do festival ficou bastante encantada com o resultado desta integração artística, e aplaudiu bastante. A pianista Vânia Pajares deu um toque especial ao conjunto. Ela não apenas tocou, mas deu um caráter interpretativo ao que estava executando, como se a sonoridade vinda do piano fosse um personagem a mais naquele espaço. Isso enriqueceu bastante a apresentação, que teve direção do paulistano Eddynio Rossetto.
13.12 - Gilles Apap e o The Colors Of Invention
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| Tuca Siqueira |
A segunda noite do evento colocou no palco apenas um violino, um acordeon e um contrabaixo. Considerando toda a grandiosidade da noite de abertura, a presença de um trio no palco do Teatro Santa Isabel poderia dar a impressão que as três horas de apresentação seriam maçantes, mas Gilles Apap e o The Colors Of Invention fizeram uma das mais entusiasmadas performances do festival.
O grupo, na verdade, é formado por quatro integrantes, Gilles Apap (violino), Myriam Lafar (acordeon), Ludovit Kovac (cymballum) e Phillipe Noharet (contrabaixo). Contudo, problemas de ordem superior impediram que Kovac subisse ao palco, e o grupo, então, reorganizou a estrutura da apresentação. A base da performance foi a recriação da famosa composição As Quatro Estações , do italiano Antonio Vivaldi. A obra, que de acordo com Ana Lucia Altino é geralmente tocada com orquestra de cordas, violino solo e cravo, foi tocada na segunda noite até com assobios de Gilles Apap.
A criatividade e o talento do grupo acabaram tendo um efeito muito positivo no público, que gostou da apresentação e interagiu com os músicos. Além de tocar As Quatro Estações completa, Gilles Apap e o The Colors Of Invention presentearam o público com um belo repertório de canções populares de diversos locais do mundo. Eles tocaram canções de origem alemã, celta, cigana, americana, entre outras. Em alguns momentos da apresentação, Apap pediu a atenção do público e falando em francês, com um dos coordenadores da equipe de gravação como tradutor, ele ia explicando para o público o que eles estava sendo executado no palco.
Em um dos momentos mais singulares da noite, Myriam Lafar fez uma belíssima performance solo no acordeon, sendo acompanhada depois pelos demais integrantes para o encerramento. O The Colors Of Invention se reuniu com Gilles Apap, pela primeira vez, no ano de 2000, e acabaram gravando o álbum No Piano On That One , que saiu pelo selo Apapaziz.
14.12 - The Miró String Quartet
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| Tuca Siqueira |
O terceiro dia colocou no palco o The Miró String Quartet , que foi formado há dez anos pelos violinistas Daniel Ching e Sandy Yamamoto, o violista John Largess e Joshua Gindele, no cello. Durante mais de duas horas, o público ficou boquiaberto com a habilidade e sintonia do quarteto, que executou Beethoven e Schubert, na primeira parte, e Brahms, na segunda parte, acompanhados pelos músicos Rafael Altino, na viola, e Leonardo Altino, no Cello.
Do alemão Ludwig Von Beethoven, o Miró String Quartet executou Quarteto de Cordas n.3 em ré maior Op. 18 . Este quarteto faz parte de um conjunto de seis obras, que Beethoven compôs por volta de 1800, inspirado no estilo de Franz Haydn, de quem foi amigo e admirador. Depois, o grupo trouxe o Quarteto de Cordas n.14 em ré menor , de Franz Schubert, também conhecido como A Morte e a Donzela . Esta obra instrumental foi escrita em 1824, quatro anos antes da morte do compositor austríaco.
Por fim, acompanhados de Rafael Altino e Leonardo Altino, o quarteto executou o Sexteto de Cordas Op. 36 em sol maior , de Johannes Brahms. O alemão compôs obras para orquestra de câmara nas diversas fases de sua carreira, este, no entanto, começou a ser elaborado em 1864, a partir de anotações anteriores do compositor, mas foi lançado apenas em 1866.
A apresentação do The Miró String Quartet não teve a interação permitida por Gilles Apap e o The Colors Of Invention, no dia anterior, mas a performance forte de seus integrantes levou o teatro em peso a aplaudir o grupo diversas vezes durante a apresentação. Entre a primeira e a segunda parte, o maestro Rafael Garcia precisou pedir que os aplausos ficassem restritos apenas ao fim de cada obra, como manda o figurino. Talvez este impacto que eles causam na platéia explique o sucesso que o quarteto vem fazendo, em todo o mundo, desde que foi criado, em 1995.
15.12 - Homenagem a Clóvis Pereira
O quarto dia trouxe uma programação bastante extensa por causa das homenagens ao maestro pernambucano Clovis Pereira . As apresentações, que começaram por volta das 21 horas, se estenderam até mais de meia – noite, com o teatro lotado. A apresentação começou com o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo , executando a obra Quarteto de Cordas , do próprio Pereira. Os integrantes se disseram honrados em executar a primeira audição da obra que o maestro pernambucano compôs, entre abril e maio deste ano, em homenagem ao próprio quarteto.
Após a primeira parte das congratulações a Clóvis Pereira, a violinista islandesa Judith Ingolfsson entrou no palco para executar o Trilo do Diabo , Sonata em sol menor de Giuseppe Tartini. A pianista Ana Lucia Altino contou, na entrevista coletiva, que existiram histórias relatando que o compositor italiano sonhou com esta obra para violino solo, mas que ela foi lançada e é quase sempre executada em piano. A versão apresentada na quarta noite do festival, por Ingolfsson, foi elaborada pela própria violinista, a partir do que seria a obra original de Tartini para violino solo.
Pela performance concentrada da musicista, não é difícil imaginar a complexidade de execução da obra. A platéia procurou colaborar, na medida do possível, fazendo o máximo de silêncio. O som daquele violino parecia selar um pacto de respeito que, encerrada a apresentação, não foi quebrado nem com os aplausos. Após a apresentação de Ingolfsson, a Orquestra Sinfônica Virtuosi, acompanhada das violinistas Sandy Yamamoto, do Miró String Quartet, e Soh-Hyun Park executaram três movimentos do Concerto para dois violinos e cordas em ré menor, BWV 1043 , de Johann Sebastian Bach.
A segunda parte da noite foi completamente dedicada a Clóvis Pereira. O maestro pernambucano subiu ao palco do Santa Isabel para reger a Orquestra Sinfônica Virtuosi na execução de duas de suas obras: o Concertino para violino e orquestra de cordas e a Grande Missa Nordestina . O Concertino , como diz o título da obra, foi executado apenas por parte da orquestra que acompanhou o violino solo de Clóvis Pereira Filho, que veio a Recife para a apresentação em homenagem ao pai.
Em seguida, o maestro Pereira executou os nove movimentos da Grande Missa Nordestina . A obra, cantada em latim, teve performance vocal da mezzo-soprano Denise de Freiras, do barítono Homero Velho e do Coral Contracantos, da Universidade Federal de Pernambuco, sob regência do também maestro Flávio Medeiros. A Grande Missa Nordestina é uma das obras mais significativas do compositor. O Kyrie, que é a primeira parte desta obra de Clóvis Pereira foi baseada nas escalas usadas por violeiros e cantadores; o Agnus Dei, que é a penúltima parte, traz as inspirações do aboio dos vaqueiros nordestinos e, assim, Pereira foi usando a musicalidade da tradição popular do nordeste para elaborar um trabalho erudito.
É preciso dizer que a Grande Missa Nordestina é uma das obras mais lindas que ouvimos durante todo o Virtuosi . O aplauso caloroso que o maestro Clóvis Pereira recebeu, ao final, não foi mero protocolo da homenagem. O público estava, de fato, impressionado com o que vira. Entre amigos, as pessoas se perguntavam como uma obra daquelas não era conhecida e executada em Recife.
A sorte é que todo o festival foi gravado e a Petrobrás patrocinou duas mil cópias de um disco, que vai conter as obras dos compositores pernambucanos que foram executadas no festival. O melhor é que este CD vai ser distribuído gratuitamente no ano que vem. Esta, certamente, vai ser uma grande colaboração para divulgar a belíssima obra de Clóvis Pereira para quem não pode comparecer ao festival.
16.12 – Schumann & O Piano
A quinta noite do Virtuosi foi inteiramente dedicada à memória da pianista Josefina Aguiar, falecida há seis meses, em Recife. Para a homenagem foram selecionadas cinco obras para piano do compositor Robert Alexander Schumann (1810-1856). A apresentação foi estruturada de modo que o pianista Hugh Sung fosse recebendo cada um dos músicos convidados, de acordo com a especificidade de cada obra.
Assim, ele iniciou a apresentação sozinho, interpretando com maestria a obra Carnaval Op.9 , que foi escrita por Schumann entre 1834 e 1835, e consiste em 21 peças para piano. Em seguida, Sung recebeu Leonardo Altino para a execução da Fantasiestücke Op. 73 para Cello e Piano . O Märchenbilder Op.113 para viola e piano foi acompanhado pelo irmão de Leonardo, Rafael Altino.
Logo depois, pode-se ouvir, pela primeira vez, durante o festival, uma obra apenas com piano e trompa. Hugh Sung teve a companhia do trompista Luiz Garcia, da Orquestra Sinfônica da USP, para tocar Adagio e Allegro em Lá Bemols Op. 70 para trompa e piano . Por fim, o pianista executou o Quinteto para piano e cordas em mi bemol maior Op.44 acompanhado do quarteto de cordas formado por Leonardo e Rafael Altino, no cello e viola, respectivamente, e por Soh-Hyun Park e por Jonathan Crow, nos violinos.
O talento e a simpatia de Hugh Sung conquistaram, de fato, a platéia do quinto dia do festival. Quem tivesse a oportunidade de observar com cuidado as expressões de Sung, enquanto tocava, não teria dúvidas de que ele é um daqueles musicistas literalmente apaixonados pelo que faz. A performance dele não foi apenas bonita de ouvir, mas de ver, também. Aliado a tudo isso, o pianista ainda despertou curiosidade no público com um aparelho fininho, do tamanho de um papel A4, que ele fixou no piano a partir da segunda obra. Na verdade, era um computador, que continha as partituras de Schumann que ele iria tocar.
17.12 - Orquestra Sinfônica Virtuosi & Virtuosos
O sábado, penúltimo dia do Virtuosi , trouxe uma programação bastante diversificada. A Orquestra Sinfônica Virtuosi subiu ao palco, completa, para executar um repertório mais romântico com Dvorák, Paganini, Liszt e Tchaikovski. Esta noite toda a regência foi do maestro Rafael Garcia. A programação original trazia uma obra de Bela Bartok, no lugar de Liszt, neste dia, mas por motivos pessoais, o pianista Hugh Sung não podia tocar no domingo, último dia do evento, então, a sua apresentação de Liszt foi antecipada e a obra de Bartók ficou para o encerramento.
Do compositor tcheco Antonín Dvorák a orquestra executou os três movimentos do Concerto para violoncelo e orquestra em si menor, Op.14 , acompanhada pelo violoncelo solo de Leonardo Altino. Este Concerto foi escrito por Dvorák, nos Estados Unidos, durante os três anos em que ele viveu naquele país. A primeira parte da noite foi encerrada com o Concerto para violino e orquestra n.1 em Ré maior, Op.6 , de Nicolo Paganini, que teve como solista a islandesa Judith Ingolfsson. O interessante deste segundo compositor da noite é que Paganini foi muito pouco tocado em Recife. A única apresentação de uma obra sua, de que se tem notícia, data da década de 1970 em uma apresentação da Orquestra Sinfônica da Paraíba.
A segunda metade da apresentação da penúltima noite do festival trouxe Hugh Sung no piano, acompanhado da Orquestra Sinfônica, para mostrar, ao público o Concerto para piano e orquestra n.1 em mi bemol maior , de Franz Liszt. Como era de se esperar, por quem viu o dia anterior do festival, Sung mais uma vez impressionou o público.
O fim da penúltima noite do evento foi coroado com uma tradicional obra de Tchaikovsky: a Abertura Solene 1812 Op.49 . Esta obra foi composta para a inauguração da Catedral de Cristo, O Salvador , construída por Alexandre I, em 1812, para homenagear o exército Russo, que deteve as tropas de Napoleão. Um detalhe interessante é que em um trecho da obra existem tiros de canhões, e por isso, muitas vezes, ela é executada ao ar livre.
Na apresentação do Teatro Santa Isabel, não haveria a possibilidade de executar a obra com tiros de canhão, então a organização do evento decidiu repetir, em Recife, uma experiência que foi feita em São Paulo, e substituiu os canhões por um pelotão do exército que disparou tiros de pólvora seca com fuzis, coordenados por um regente que estava situado atrás da orquestra. O resultado fez o público aplaudir a performance da Orquestra Sinfônica Virtuosi, em pé, durante bastante tempo.
18.12 – A Musica Erudita de Compositores Populares Pernambucanos
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| Tuca Siqueira |
A última noite do festival trouxe uma segunda oportunidade de ouvir obras eruditas de compositores populares de Pernambuco. Desta vez, representadors pelos maestros Duda e Clóvis Pereira e por Capiba. Quem conhece as canções populares de Capiba, como “Madeira do Rosarinho” e cantarola suas melodias pelo carnaval recifense, não imagina que são de sua autoria as Duas peças para flauta solo dedicadas a Esteban Eitler , de 1951; o Dueto para flauta e clarinete , de 1952; e a Suíte Nordestina , escrita em 1949, orquestrada pelo maestro Guerra Peixe, no mesmo ano, e que foi revisada por Clóvis Pereira, este ano, para a apresentação no Santa Isabel. As três peças são belíssimas. As compostas para flauta foram executadas por Rogério Wolf, que foi acompanhado pelo argentino Carlos Rieiro, no clarinete, durante a execução do Dueto.
Além de Capiba, o público presenciou, no último dia do festival, a primeira audição mundial de Uma Visão Nordestina – Projeto 500 anos do Descobrimento do Brasil , do maestro José Ursicino da Silva, o “Duda”. Famoso pelos frevos de rua “Estação do Frevo”, “Cidadão Frevo”, “Marcella”, entre outros, o maestro Duda foi bastante aplaudido na última noite do VIII Virtuosi pela beleza de Uma Visão Nordestina .
O regente Rafael Garcia parou o espetáculo antes do final do intervalo para saudar José Ursicino, que estava nos camarotes do primeiro andar, bem próximo ao homenageado Clóvis Pereira. Emocionado, Garcia disse ao colega que nunca o viu se entristecer, mesmo diante das maiores dificuldades. É de se imaginar que ele estivesse pensando o mesmo que nós, desde o começo do festival: como é que estas obras fascinantes são desconhecidas da população? Como?
Após os aplausos a mestre “Duda”, apenas a orquestra de cordas ficou no palco para a execução de Três Peças Nordestinas , de Clóvis Pereira. Foi uma das performances mais sutis de todo o evento. Algumas pessoas em volta ficaram com os olhos lacrimejados durante toda a execução. A regência ficou por conta de Rafael Garcia. Pereira, desta vez, assistiu a apresentação de sua obra do camarote e foi chamado logo após o encerramento para receber a reverência da orquestra e do público.
Após o intervalo, o violista Rafael Altino subiu ao palco, junto a Orquestra Virtuosi para executar uma obra notável, produzida a partir dos esboços de Bela Bartók, que resultaram no Concerto para viola e orquestra Op. Post . Bartók havia construído todos as indicações de harmonia e ornamentações melódicas, mas faleceu antes de escrever a partitura, em 1945. A obra ficou pronta no final da década de 1940, depois que um de seus amigos, Tibor Sely, se empenhou na tarefa de transformar os rascunhos. A performance de Altino foi bastante elogiada pela platéia. A última noite do festival encerrou-se com a repetição da obra de Tchaikovsky que causou a mesma reação de catarse do dia anterior, fazendo a platéia gritar e aplaudir durante um bom tempo.
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