2

Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

10 a 24 de janeiro de 2006

Equipe Edições Anteriores

DILEMA GENÉTICO
Código 46 traz uma fábula futurista sobre relacionamentos amorosos
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

m um futuro não muito distante, a genética, o mapeamento de DNA e a clonagem humana estão cada vez mais avançados, ao ponto de ser necessário a criação de um código que proíbe a relação entre seres humanos que possuem seqüências genéticas idênticas. Esse é o Código 46 (Code 46), título do filme de Michael Winterbottom e do código em questão, que é uma fábula futurista sobre relacionamentos amorosos conturbados em um mundo frio e apático, onde as novas tecnologias dominam a vida de todos os habitantes.

O mundo está dividido entre os que estão “dentro” (a classe privilegiada que vive no conforto das grandes metrópoles) e os que estão “fora” (os excluídos que vivem na aridez do deserto). Qualquer diferença que possa desestruturar a aparente ordem reinante é excluída para o bem estar da sociedade. Com um argumento, a primeira vista semelhante a 1984 (clássico de George Orwell) como a falta de privacidade e a vida sendo controlada por uma grande empresa, o roteiro consegue enveredar por outros caminhos que, a princípio, nos deixa desnorteado, até que consigamos compreender as verdadeiras intenções por trás dele.

Código 46 não pretende ser uma ficção-científica sobre novas tecnologias, superpopulação, futuro imperfeito ou miscigenação genética (que pode ser percebido na mistura de palavras do inglês com o francês, o italiano, o espanhol e outras línguas) e sim sobre o destino, a inevitabilidade de acontecimentos que, sem mais nem menos, acabam nos jogando em um espiral de descobertas e emoções. E é isso o que acontece com William (Tim Robbins), um investigador “intuitivo”, ao ser chamado para descobrir o responsável por uma fraude em uma grande corporação na cidade de Xangai (a China parece que se tornou a grande potência do futuro). Ele descobre que o responsável pela falsificação dos vistos de entrada e saída é a funcionária Maria (Samantha Morton), mas, sem saber porquê, resolve inocentá-la.

Ambos envolvem-se e, conseqüentemente, a violação ao código 46 é consumada. Neste instante que o filme ganha relevância ao apresentar dois contextos tão díspares em uma mesma história: uma variação moderna da mitologia edipiana e uma reflexão sobre apagamento da memória (algo parecido com o que já fora visto em Brilho eterno de uma mente sem lembranças ). Se não podemos controlar o destino é na memória, nas nossas lembranças, que reside o quanto sabemos de nós mesmos e das escolhas que queremos fazer.

Essa dualidade entre o esquecer e o lembrar que faz Código 46 sair do terreno da ficção científica para se tornar um romance de apelo universal. “Dá para sentir falta de alguém de quem não se lembra? Um momento ou uma experiência pode desaparecer completamente? Ou continua a existir em algum lugar, esperando ser descoberto?”. São esses questionamentos que a personagem de Maria faz e que todos nós também fazemos.

Com um ritmo lento e contemplativo, Winterbottom mostra em Código 46 o encontro de dois seres diferentes em uma metrópole extremamente controlada e vigiada. Em um mundo que parece asséptico, onde todas as coisas ruins ficaram do lado de fora das cidades, William, mesmo sendo intuitivo, não consegue prever o próprio destino e resolve contrariar todas as regras para viver esse grande amor.

A complexidade do amor, a crueldade destes tipos de relacionamentos e a solidão dos grandes centros urbanos, temas constantes na filmografia de Winterbottom, foram abordados, de maneira inusitada, durante a carreira desse cineasta inglês. Mostrou o amor doentio/, sadomasoquista e lésbico em O beijo da borboleta ( The butterfly kiss, 1995); o amor passional em Jude ( Jude , 1995), baseado na obra de Tomas Hardy; o amor de concessões em Com ou sem você ( With or without you , 1999); o amor desesperado e doloroso de Desejo você ( I want you , 1999); a solidão e a procura pelo par ideal em Wonderland – Encontros e desencontros ( Wonderland , 2000); e o amor fugaz e carnal de 9 canções ( Nine songs , 2004), que segue ao pé da letra a tríade sexo, drogas e rock'n roll.

Neste Código 46 , Winterbottom demonstra que entende de paixão e os (des)caminhos dos corações enamorados. Belo, cruel e despretensioso este trabalho conquista a cada cena, até o final inesquecível ao som de “Warning Sign”, do Coldplay, que parece ter sido composta especialmente para o filme.