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10 a 24 de janeiro de 2006

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CORPOS MODIFICADOS
A volta da body modification reacende o debate sobre padrões estéticos e limites do corpo
por Ronzi Zacchi ( ronzi.zacchi@gmail.com )

ínguas bifurcadas, chifres saindo da testa, corpos pendurados em fios de aço com ganchos presos à própria pele. Não, isso não é nenhuma representação cinematográfica do inferno dantesco, é apenas uma cena comum em uma convenção de body modification , ou bod-mod , para os praticantes mais íntimos desse termo em inglês. Ele define e engloba um número enorme de procedimentos cirúrgicos voluntários que  deixam marcas no corpo, na maioria das vezes dolorosas e irreversíveis, causando como o nome já diz, uma modificação na estética corporal.

Os motivos que levam as pessoas a transformar definitivamente sua aparência podem ser bastante diversificados, indo desde estética até uma alegada superação dos limites do corpo. Mas o que todos praticantes têm em comum é a certeza que são donos do próprio corpo, e por isso, dele fazem o que bem entender e lhes parecer correto. E não se engane, a maioria dos bod-moders tem rotinas e vidas tão normais quanto a sua, são lojistas, programadores e bancários, que fizeram a opção de alterar de uma forma radical sua aparência.

Não, isso também não é um sinal  dos tempos, ou uma degradação dos conceitos morais da sociedade contemporânea. As práticas de modificação corporal datam de antes de Cristo, com as suspensões na índia, as tatuagens na Oceania, as perfurações na Ásia e América, e escarificações  na África. Esses costumes tribais foram "descobertos" pelos marinheiros europeus na época das navegações e conquistas de novas terras lá pelo século XVI, mas ficaram na obscuridade, marginalizados durante muito  tempo.

Até a década de 60, a prática da modificação corporal era vista como coisa de marginais, bandidos e prostitutas que freqüentavam as áreas portuárias das cidades costeiras. A partir dessa época, com o advento do flower power , houve uma valorização da cultura oriental e a tatuagem passou a ter uma  maior aceitação na sociedade. Em meados da década de 70, foram os punks que introduziram as primeiras técnicas de perfuração e aplicação de piercings.

Chegamos na década de 1980 e os antigos hippies, agora yuppies decretaram que tudo aquilo era obra do tinhoso e assim, por mais de uma década, a body modification caiu no esquecimento, só voltando à tona no fim da década de 1990. Nessa década, para a surpresa de muitos, a body art começou a ser praticada por pessoas de fora do círculo dos tatuadores e tatuados, e de maneiras que consternariam mesmo os mais radicais desse meio. Dos anos 90 até o começo do século XXI ocorreu uma explosão de estilos e práticas que deram origem ao movimento body modification .

Nele existem três tendências que tem maior destaque. Por exemplo, os gays e lésbicas, que usam a body art , procuram salientar sua opção sexual através de alterações como a bifurcação da língua; os modernos primitivos pretendem alcançar a purificação espiritual por meios das modificações e provações carnais, como a suspensão, e para isso usam de métodos semelhantes aos das civilizações antigas; e os cyberpunks buscam romper tabus e fronteiras usando do próprio corpo para isso, com implantes subcutâneos, nulificação e outras técnicas. Fora esses três grupos existem outras pequenas correntes no movimento, mas uma grande massa adere à body art , com o simples intuito da modificação estética, para sentir-se mais bonita, ou melhor adaptada com o próprio corpo.

Se um dia essas modificações serão aceitas por toda a população sem nenhuma forma de discriminação, é difícil dizer, embora, com o tempo, a sociedade absorva novos rumos culturais antes achados grotescos e bizarros. Mas há quem diga que alguns aspectos da body modification são radicais demais para serem completamente aceitas.

 

As técnicas da body modification :

Nulificação:
Remoção voluntária de partes do corpo, como dedos, dentes, orelhas, testículos ou membros inteiros.

Escarificação:
Fabricação de cicatrizes ( scar ) como forma de evolução espiritual ou puramente estética.

Suspensão:
Consiste em pendurar uma pessoa por ganchos perfurados na própria pele, está mais para um esporte dos bod-moders , do que para uma técnica.

Branding:
Processo de aplicação de ferro quente na pele (mais ou menos como se marca os bois), que após a queima da pele uma cicatriz forma um desenho.

Bifurcação da Língua:
Procedimento cirúrgico que divide a língua em duas partes como a de um réptil. Depois de certo tempo dá para mecher as duas partes separadamente.

Piercing:
Os mais delicados são até populares, mas há também as perfurações de pênis, clítoris, hímen, etc.

Implantes Subcutâneos:
Um objeto (pode ser de silicone, osso, aço cirúrgico, etc.) é literalmente implantado sobre a pele formando um alto relevo.