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10 a 24 de janeiro de 2006

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AMARGA FAMA
Fiona Apple lança seu terceiro álbum, Extraordinary Machine, e consolida-se como prodígio na música pop atual
por Eduardo Carli de Moraes ( educmoraes@hotmail.com )

"Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. (...) Basta, no meu entender, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo."
Rainer Maria Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta.

"I'm underwater most of the time, and music is like
a tube to the surface I can breathe through."
Fiona Apple, entrevista à revista SPIN.

 

primeira vista, Fiona Apple parece ser somente mais uma dessas cantoras americanas que estouram nas paradas com um hit, são colocadas debaixo dos holofotes da imprensa por uns meses e são logo despejadas sem compaixão no moedor do esquecimento. Processo semelhante ocorre frequentemente com uma série de garotas, normalmente mais dotadas de qualidades sensuais do que de verdadeiro talento, que gozam de uma popularidade volátil. Lembram da Meredith Brooks (“Bitch”), da Natalie Imbruglia (“Torn”), da Joan Osbourne (“One Of Us”), da Jewel? Todas elas cravaram um hit pegajoso nas rádios, brilharam por alguns instantes no firmamento das semi-pop-stars e logo deslizaram pra longe das vistas de todos, num piscar de olhos, quando a amnésia coletiva induzida pela indústria cultural se apossou de nós...

O fato é que lá em 1996, após a explosão do fenômeno Alanis Morissete e os milhões e milhões de cópias vendidas por Jagged Little Pill , primeiro disco da canadense, as grandes gravadoras estavam à caça de novas cantoras "confessionais e adultas" para seu rol de artistas potencialmente lucrativas. Quando o mainstream foi tomado de assalto por uma Fiona Apple de 19 anos, ela apareceu aos olhos de muitos como mais uma one hit wonder pronta a ser rapidamente descartada. Puxado pelo mega-hit “Criminal”, estrondoso sucesso na MTV americana, o disco de estréia de Fiona, Tidal , subiu como um foguete para o topo das paradas e vendeu mais de três milhões de cópias só nos EUA.

A lei da indústria cultural, como se sabe, é forçar o esquecimento rápido dos artistas da moda para que venham os próximos na fila dos 15 minutos de fama... Fiona Apple parece ter sofrido um pouco com esse processo: passado seu período de pop-star, seus discos meio que pararam de ser comentados e ouvidos, a não ser pelo seu fiel séqüito de fãs... O lançamento de Extraordinary Machine , seu aguardadíssimo terceiro álbum, pode ser uma boa ocasião para colocá-la de volta debaixo dos holofotes e novamente chamar a atenção do mundo para uma menina que não, certamente não é só mais um rostinho bonito no pop americano.

Tidal e When The Pawn ..., seus dois primeiros álbuns, certamente, não merecem ser deixados pra trás como efêmeros fenômenos pop que, após seu brilho fugaz, não tem hoje mais nenhum interesse. Não, esses discos não foram somente passageiros rápidos no avião do hype ; vieram pra ficar. Essas duas pequenas pérolas têm qualidades suficientes pra que possam ser ouvidos daqui a 10 ou 15 anos sem que tenham perdido quase nada de seu vigor e interesse. Fiona Apple, além de ter uma voz abençoada, é uma compositora com o dom da perenidade, uma poetisa bem acima da média, uma artista genuína que parece realmente fazer música com suas próprias entranhas. Podemos considerá-la como uma Sylvia Plath ou uma Clarice Lispector da música pop. Um óasis miraculoso no deserto estéril do pop.

Se fosse preciso enquadrar Fiona Apple dentro de um estilo, dava para considerar colocá-la junto aos compositores-cantores que se costuma chamar de “confessionais e intimistas”, tipo Joni Mitchell, James Taylor, Aimee Mann, Eliott Smith; ou então em meio às cantoras de jazz-vocal mais pop, tipo Diana Krall, Norah Jones, Ella Fitzgerald, Nina Simone; ou até mesmo agraciá-la com a companhia das garotas indie mais queridas que temos hoje: Cat Power, P.J. Harvey, Carina Round, Mirah, Ani DiFranco. A UNCUT disse bem: quando Fiona apareceu "ela parecia encaixar-se perfeitamente no modelo-anos-90 de estranhas e problemáticas de garotas se despindo emocionalmente, ao estilo Bjork, PJ Harvey, Tori Amos e, claro, a própria Alanis".

Um retorno discreto

Foram longos seis anos de sumiço desde When The Pawn... , o segundo disco, e o trabalho de parto do disco novo, que parece ter sido complicadíssimo. Ao contrário do que alguns poderiam esperar, Fiona Apple, que entre 1996 e 1997 era uma das maiores pop-stars no firmamento da música pop americana, retornou sem grande espetáculo e fazendo pouco barulho. Discreta e quietinha, lançou seu Extraordinary Machine no fim de 2005 sem causar muita comoção pública, até porque não há nada no disco que tenha realmente cara de hit. Estranho? Sim, por um lado: seria de se esperar que uma artista que já tem cerca de 5 milhões de discos vendidos no currículo fosse atacar de novo o topo das paradas, e que o disco fosse restituir à Fiona o papel de porta-voz de toda uma geração de jovens inteligentes, desajustadas e melancólicas. Não foi exatamente o que ocorreu.

Por outro lado, isso não chega a surpreender quem conhece a trajetória dela e a relação constantemente problemática que ela sempre teve com a fama. Os exemplos não faltam. No passado, ao mesmo tempo em que era estampada na capa de quase todas as revistas de música e entretenimento dos EUA e da Inglaterra, parecia insistir em um discurso que dizia que o conteúdo é mais importante do que a embalagem, e as letras mais importantes do que o jogo de imagens. Desfilava nos tapetes vermelhos do showbussiness ao lado de namoradinhos famosos (o mágico David Blaine e o cineasta Paul Thomas Anderson), ao mesmo tempo que se mostrava bastante ofensiva, raivosa e desajeitada em relação ao mundo das celebridades e do sucesso popular.

Em uma série de entrevistas, acabava por se desfazer em lágrimas, demonstrando uma certa fobia de estar ali, à mostra, sendo continuamente julgada, criticada e acompanhada. Ao invés de se fingir de perfeitinha, como fazem tantas pop-stars, demonstrava sem nenhum pudor suas neuroses, seus traumas e suas fraquezas, inclusive contando abertamente o caso do estupro que sofreu aos 12 anos de idade e relatando, freqüentemente com humor negro, histórias sobre suas antigas sessões de psicoterapia. As críticas muitas vezes levianas que os críticos faziam à “atitude” dela também parecem ter enchido o saco da jovem cantora. O polêmico videoclipe de "Criminal", por exemplo, que ela depois não parou de xingar, parece ter dado muita dor de cabeça e arrependimento para a pequena Fiona. Houve quem acusasse o vídeo de conter conteúdo sexual que beirava a pedofilia, enquanto outros reprovavam Fiona por aparecer tão exageradamente magricela nas telas que a coisa parecia propaganda em favor da anorexia.

Em 1997, quando foi receber o seu MTV Music Award, fez um discurso que alguns interpretaram até mesmo como totalmente niilista (" This world is bullshit! ", cuspiu com raiva para milhões de telespectadores), quando era óbvio que ela estava reclamando não contra a vida em geral, mas contra o Mundo-MTV das celebridades de plástico. Em entrevista à SPIN, chegou mesmo a prometer seu suicídio, dizendo que tinha certeza que iria morrer jovem. Tudo isso mostra bem que Fiona Apple aparentemente se enfezasse com o mundo das celebridades, dos paparazzi e das fofocas, e talvez daí surgiu o desejo, agora quase concretizado, de deixar pra trás o status de pop-star e assumir um papel mais agradável como uma cantora mais “cult” e ”alternativa”.

T idal (1996), disco que a tornou mundialmente famosa aos 19 aninhos de idade, já tem indícios da ambivalência de Fiona em relação ao sucesso: por mais excelente que seja, o álbum soa um tanto heterogêneo e indeciso quanto aos rumos a tomar. O pop-rock radiofônico de "Sleep To Dream" e "Criminal" parece algo feito pra fazer sucesso e tocar no rádio comercial, enquanto que as lentas e doloridas baladas jazz como "Never is a Promise", "Sullen Girl" e "Pale September", por exemplo, são coisas totalmente inadequadas à rádio FM e que apelam muito mais para fãs de Billie Holliday do que para uma "audiência MTV".

Até hoje é difícil de acreditar que um disco desses possa ter saído da alma de uma garota tão jovem. Mas isso já se tornou um clichê sobre Fiona Apple: 90% dos textos escritos sobre o disco de estréia se mostram pasmos com a qualidade da música e da poesia dessa garota prodígio que, aos 19 anos, lançou um disco que tinha uma profundidade lírica, um carregamento de sentimento, uma performance tão madura e tão complexa, que parecia a todos realmente inacreditável que aquela garotinha magricela pudesse ter sido a criadora daquilo.

Aquelas canções melancólicas e amargas pareciam provir de uma mulher cansada e ferida, desiludida com a metade da humanidade que tem os cromossomos XY, como se já tivesse vivido uma vida inteira. As canções falavam sobre coisas como "viver este dia como se o próximo nunca fosse chegar" ("Criminal"), "sentimentos em decadência" como "a carcaça de uma presa assassinada" ("Carrion"), ou uma “febre que queima mais profundamente do que eu jamais mostrei” (“Never is a Promise)”, sobre "ter um inferno particular para erguer" ("Sleep To Dream"), treinar boxe com fantasmas para se preparar para a chegada do "amado" ("Shadowboxer"), ou "deixar-se afogar no silêncio que ecoa no interior" ("The Child Is Gone"), sobre "ter os pés no chão e não ir dormir pra sonhar" ("Sleep To Dream"). Só dezenove anos e já angustiada e durona desse jeito?

Tidal é, de longe, um dos discos mais extraordinários, pessoais e bem-realizados de uma cantora-compositora nos anos 90. Três anos depois do estrondoso sucesso, Fiona voltou à cena mais madura e soltou um álbum que não conquistou sucesso popular tão notável quanto o disco de estréia (vendeu cerca de um terço do que havia vendido o anterior, o que não deixa de ser significativo... um milhão de cópias), mas que pode ser considerado como uma obra de arte tão instigante e poderosa (se não for mais...). When The Pawn ... trazia mais 10 canções falando sobre relacionamentos fracassados, falta de fé, sofrimento existencial, conflitos emocionais, auto-comiseração, pedidos de perdão e catarses de ódio...

Depois disso, houve o sumiço de Fiona, que deve ter preocupado uma série de fãs, e eles muito provavelmente começaram a se perguntar: terá ela desistido da música? Entrou numa crise de inspiração incontornável? Vai parar de lançar discos? Se desiludiu com o sucesso e resolveu voltar à vida pacata?. A internet, principalmente a partir de 2004, começou a se encher de histórias e boatos a respeito de Extraordinary Machine : muitos garantiam que o álbum estava finalizado desde Maio de 2003, mas que a gravadora Sony havia se recusado a lançá-lo por falta de um single com potencial radiofônico, o que gerou uma onda violenta de protestos dos fãs.

Além de uma campanha internética chamada Free Fiona, que envolveu dezenas de sites e blogs, os fãs chegaram até mesmo a organizar protestos frente à sede da gravadora nos Estados Unidos exigindo que o álbum fosse posto no mercado imediatamente - o que a multinacional se recusou a fazer (pelo menos era o que se contava), aparentemente por um desejo de forçar Fiona a regravar o material ou ao menos tirar da cartola algum hit que repetisse o fenômeno "Criminal". Ocorreu com Extraordinary Machine algo bastante semelhante ao que houve com outro famoso álbum recusado pelo mercado fonográfico mainstream por ser anticomercial, o Yankee Hotel Foxtrot , do Wilco: o material proibido vazou para a Internet e fui ouvido por meses e meses a fio antes de seu lançamento oficial.

Foi somente em 2005, às vésperas da chegada ao mercado do álbum, que outra versão da história passou a circular: dizia-se que, na verdade, não era só a gravadora que estava insatisfeita com o material gravado, mas a própria Fiona não havia curtido muito as gravações feitas com o produtor Jon Brion (que trabalhou, por exemplo, com Aimee Mann), contratando Mark Elizondo para regravar Extraordinary Machine quase na íntegra. A "versão internet" do disco, dotada de uma musicalidade bem mais difícil e intrincada, acabou sendo substituída por um disco mais palpável, menos aventureiro, com a voz de Fiona trazida de volta para o primeiro plano e as experimentações mais vanguardistas deixadas um pouco mais no background. O fato é que a versão gravada com Jon Brion pareceu imensamente superior: mais ousada, revolucionária, genuína e com uma seqüência de faixas melhor pensada. Na dúvida, ouçam as duas versões.

Extraordinary Machine

As primeiras audições deixaram uma sensação de apatia, sem grandes entusiasmos: o álbum pareceu um tanto "sem sentimento", com pouca musicalidade e muito ritmo bruto, muitas vezes pouco musical, beirando às vezes o atonal. Fiona Apple tinha parado de fazer drama e tinha se tornado mais amarga, mais realista, mais pé-no-chão. É que Extraordinary Machine não é desses discos fáceis de gostar de cara: seus encantos estão velados, submersos, como que escondidos por uma névoa. Eis um disco que exige um "trabalho de mineração" para ter sua qualidade descoberta. Este é o Kid A de Fiona Apple. É mesmo o disco mais “esquisito e fora do padrão” que Fiona já lançou, especialmente o material de Jon Brion, e leva um certo tempo até que a familiaridade se constitua e a relação engrene.

Um disco um tanto amargo, sim, como amarga parece ser a vida para Fiona Apple. O refrão de "Not About Love" já chega proibindo o sentimentalismo: "This is not about love, cause i'm not in love!", nos certifica a pequena Apple, que realmente parece se apaixonar e se desapaixonar umas cinquenta vezes ao ano: "In fact, i can't stop falling out...". A música de Fiona, numa visão simplista, pode mesmo ser entendida como um reincidente protesto contra os homens e a impossibilidade de um amor satisfatório. Ela é o tipo de pessoa que poderia ter escrito frases como "É impossível amar e ser feliz ao mesmo tempo" ou "Il n'y a pas d'amour heureux". A melhor maneira para responder à questão "do que falam as canções de Fiona Apple?" é dizer: falam sobre relacionamentos humanos quase sempre fracassados e das reclamações e xingamentos que Fiona cospe fora como desabafo por suas decepções...

Suas letras sempre estiveram repletas de uma adorável rabugice. Desde reprovações contra a imaturidade do amado ("I tought he was a man but he was just a little boy"), contra a incapacidade de resistir a certas tentações ("Oh it's evil, babe, the way you let your grace enrapture me..."), contra as provocações que tentam suscitar a ira ("You wave the red flag, baby, you make it it run... You fondle my trigger than you blame my gun!"), contra a paixão que surge por uma pessoa sem méritos ("It doesn't make sense I should fall for the kingcraft of a meritless crown"), entre muitas outras, tornam a música de Fiona Apple uma galeria de numerosas reclamações contra esses seres abomináveis e sádicos que são os homens.

Fiona não entende nada sobre diamantes e porquê os homens os compram: "o que há de tão impressionante em um diamante?", canta ela em "Red Red Red", segunda música de Extraordinary Machine , e a gente percebe a evidência do desapontamento que ela sente por ser cumulada de presentes caros quando tudo o que queria, talvez, era um pouco de sentimento sincero e amor ofertado... A única coisa de impressionante que há num diamante é a mineração que leva até ele, "and it's dangerous work trying to get to you too / and i think that if I didn't have to kill, kill, kill, KILL MYSELF doing it / I wouldn't think so much of you". Também a confiança perdida no amado e confidente é lastimada: em "Not About Love", ela reclama contra uma certa pessoa que lhe retirou confidências e depois as utilizou para piadinhas, desprezo e munição para a artilharia: "It doesn't seem right to take information given at close range / For the gag, the bind and the ammunition round!".

Na belíssima balada "Oh Well", a que mais faz relembrar os tempos de Tidal , reclama que recebe como pagamento por sua "calma afeição" um olhar que perscruta as imperfeições e julga com olhar severo: "When I was watching you with calm affection / You were searching out my imperfections...". E depois completa com um refrão ao mesmo tempo doloroso de decepção e banhado em raiva: "What wasted unconditional love on somebody who doesn't believe in this stuff!".

O bom é que uma certa dose de bom-humor vem salvar a música de Fiona de ser piegas, sentimentalóide ou choramingas. Em "Get Him Back", por exemplo, ela narra suas desventuras com uma série de sujeitos que demole com expressões cáusticas e desdenhosas, até cometer um verso adorável, talvez o mais “applesco” dos versos de Fiona Apple, o que melhor define sua música e seus sentimentos: "I think he let me down when he didn't disappoint me!"...Tão acostumada às frustrações que, já esperando por elas, se frustra ao não encontrá-las...

"I'm good at being uncomfortable", canta na faixa-título, num verso ao mesmo tempo divertido e melancólico, "so I can't stop changing all the time". Fiona Apple é isso: uma garota que parece sempre insatisfeita e que, exatamente por isso, está sempre se mexendo e se transformando e tentando se auto-superar. Em "Please Please Please", canta com uma certa ironia que "nós podemos ouvir nosso triste cérebro gritando: 'Nos dê algo familiar, algo similar ao que já conhecemos! Algo que vá nos deixar estagnados! Parados, parados, indo a lugar nenhum...". Com Extraordinary Machine , ela não atendeu ao desejo desse triste cérebro coletivo: nos deu um disco aventureiro, ousado, maduro, diferente de tudo o que se pode ouvir hoje em dia, inclassificável e inimitável, e que consolida Fiona Apple como uma das artistas mais extraordinárias da música americana das últimas duas décadas. É um disco “difícil”, certamente, e que possui uma beleza sem pompa e sem fogos de artifício; mas cresce com o tempo e acaba tendo a capacidade de durar bem mais do que as belezas espetaculares... Pouco o pouco, ele vai penetrando pelos nossos poros, e quando você vê há Fiona Apple correndo no seu sangue.

A arte de Fiona Apple também tem uma característica essencial: é extremamente pessoal. O que está em jogo aqui não é nem nunca foi uma tentativa de fazer sucesso, ganhar rios de dinheiro, agradar o público a qualquer preço: o que Fiona parece querer é expressar tudo o que vai dentro de sua alma, como grande artista que é, inclusive (e sobretudo...) as melancolias, as frustrações, os segredos íntimos, as feridas abertas. Rilke dizia que somente uma obra de arte que nasce por necessidade vital é realmente boa. Fiona Apple me parece ser um bom exemplo: tudo que ela canta parece ser de extrema importância, de modo que ela nunca solta um verso sequer que não tenha um significado pessoal ou um impacto emocional. Essa música, que Fiona faz mais pra si mesma do que para os outros, parece ser mesmo como um tubo de oxigênio que ela, submersa a maior parte do tempo, usa para conseguir continuar respirando - e que nos ajuda, também, a lançar ar puro para nossos pulmões.