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10 a 24 de janeiro de 2006

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JORNALISMO EM XEQUE
Padrões de manipulação na grande imprensa analisa as formas de distorção da informação que trazem uma realidade irreal do cotidiano para o leitor
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

m dos temas que mais tem ocupado a mente dos estudiosos da área do jornalismo diz respeito à produção e a veiculação de seu conteúdo, no sentido de manter uma aproximação da informação sob a forma de notícia à realidade dos fatos ocorridos. Essa preocupação fez diversos pesquisadores enveredarem pelos caminhos que levam à manipulação da informação pela imprensa. Isso mesmo. Enquanto há jornalistas que apuram informações, escrevem textos, se submetem as maiores atrocidades editoriais, tudo para caber num espaço determinado ou para não desagradar algum diretor ou anunciante, também existem pessoas preocupadas com os rumos desse tipo de jornalismo que, cada vez mais, infesta a grande imprensa, onde os interesses têm sido sobrepostos à função do jornalismo que seria ou deveria ser de informar de forma correta seu público dos acontecimentos do cotidiano.

Foi pensando nisso que o jornalista e sociólogo Perseu Abramo (1929-1996) realizou um trabalho de pesquisa entre 1991 e 1995 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que buscou identificar os padrões utilizados pela imprensa para distorcer a informação e deturpar a realidade para mais próxima dos interesses da empresa de comunicação. Afinal, não é a toa a existência do célebre termo conhecido como “liberdade de empresa” ao invés de “liberdade de imprensa”, para tratar de como a notícia é trabalhada e a (falta de) flexibilidade que o funcionário tem para executar sua função. Infelizmente, Perseu Abramo – que trabalhou em quase todos os grandes jornais diários e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores – não teve tempo de encerrar sua pesquisa da forma completa que ele desejava.

Apesar disso, a Editora Fundação Perseu Abramo, criada para homenagear o profissional, lançou em 2003 um pequeno livro intitulado Padrões de manipulação na grande imprensa , com um ensaio até então inédito dele a respeito do tema, além de um posfácio do jornalista de economia Aloysio Biondi (1936-2000), publicado originalmente no Anuário de Jornalismo – 1999 da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, que trata da ausência de uma cobertura jornalística correta durante os governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), pois, segundo ele, as empresas preferiram proteger o governo tucano que foi viabilizado para a classe conservadora implantar seu projeto neoliberal no Brasil.

Esse livro foi possível, pois Abramo deixou relatórios e textos que “formam um conjunto de observações, constatações e análises do comportamento da imprensa comercial-burguesa, especialmente dos grandes jornais de São Paulo, raramente desvendados por outros pesquisadores”, como explica no prefácio o jornalista e professor universitário Hamilton Octavio Souza, que ocupou a chefia do Departamento de Jornalismo da PUC-SP no período que Abramo realizou tais estudos. A obra também conta com uma breve apresentação escrita pelo jornalista e professor universitário José Arbex Jr., um dos fundadores do jornal Brasil de Fato.

Padrões de manipulação

O pequeno ensaio de 28 páginas dá a mostra da extensão e profundidade da análise crítica que Perseu Abramo teve ao fazer essa pesquisa. De cara e sem rodeios ele aponta que uma das principais características da chamada grande imprensa hoje em dia é a manipulação da informação. “O principal efeito dessa manipulação é que os órgãos de imprensa não refletem a realidade”, dispara, ainda no segundo parágrafo. Portanto, partindo dessa premissa e da formação de uma “outra realidade, irreal” feita a partir dessa manipulação e distorção, ele passa a destacar quais são os padrões que evidenciam essa situação.

Entre eles estão os “padrões de ocultação”, em que não são inseridos os fatos reais do ocorrido; “padrão de fragmentação”, em que o real é dividido em várias partes e descontextualizado, perdendo o foco do real na cobertura; “padrões de inversão”, que são diversos e, em síntese, são formas de tirar importância da informação relevante, colocando-a no fim da matéria ou sem nenhum destaque, e, em seu lugar, destacando algo menos vital do fato. Há também o “padrão de indução”, aquele em que o público é induzido a enxergar uma outra realidade a partir do órgão de imprensa, excluindo a população de conhecer a “realidade real”: “O leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim como querem que ele o veja”, explica Abramo no ensaio.

Por último, existe o que ele chama de “padrão global ou o padrão específico do jornalismo de televisão e rádio”, que, por si só, já demonstra ser mais focado no que tange aos veículos de comunicação e refere-se a um modelo de jornalismo que o coloca como o centro das atenções e desmobiliza as massas, ao trabalhar com três aspectos: exposição do fato ou problema, a sociedade fala e reclama seus interesses e, por fim, a autoridade comenta o assunto e dá prazos para resolver a situação, etc. Tudo isso, na opinião do autor, tira o poder de questionamento e participação próprio das massas, dando tal função para o jornalismo que, como vemos nessa crítica, não tem interesse de fazer uma transformação da sociedade.

Partidos políticos

O fato de Perseu Abramo colocar que a manipulação é deliberada, ou seja, tem um propósito, no fundo evidencia seu desejo de almejar entender o porquê desse processo. O que lhe vem a mente primeiro é o campo econômico, através da pressão do anunciante e da ambição do lucro pelo próprio dono da empresa. Porém, ele crê que isso faz parte do contexto, mas não é determinante para o fenômeno da manipulação. Segundo ele, a lógica política, de poder – amparada dentro do capitalismo – é que pode explicar, pois os meios de comunicação agiriam como verdadeiros partidos políticos.

Nesse ponto, Abramo separa vários itens para comparar os órgãos de comunicação com os partidos políticos, analisando que eles agem em busca de seus próprios interesses. “Recriando a realidade à sua maneira e de acordo com seus interesses político-partidários, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores nesse círculo de ferro da realidade irreal e sobre ele exercem todo o seu poder”, escreve em um momento do texto.

Objetividade x Subjetividade

Abramo também faz uma discussão a respeito do paradoxo entre objetividade e subjetividade, o grande entrave do jornalismo quanto a seu procedimento. Aqui, ele joga a neutralidade, imparcialidade e isenção para o campo da ação (opinião), enquanto considera ser possível buscar a objetividade, mas pelo “conhecimento”, apreendendo as questões que cercam o problema, e esse trabalho estaria nas reportagens, nas análises, nas notícias, devendo estar sempre separado uma coisa da outra e explicitado para o leitor.

A novidade nessa discussão é a admissão da separação da subjetividade para a opinião e da objetividade para o campo do trabalho jornalístico de campo, de apuração da notícia. Nesse espaço, segundo ele, não deve haver uma tomada de posição no sentido de opinar sobre algo, deixando isso para a parte opinativa do jornal, pois ser isento, neutro ou imparcial em relação aos problemas do cotidiano acaba por ser impossível, já que sempre há lados de um mesmo problema e não há essa possibilidade de opinar sem se posicionar.

Apesar de não parecer nada de novo na discussão sobre o jornalismo, é interessante um pesquisador admitir a possibilidade de não haver neutralidade, isenção ou imparcialidade quando se participa diretamente de uma ação, que é como muitas empresas de comunicação ainda vendem seu peixe, fingindo se colocarem como seres acima do fato. Entretanto, no dia-a-dia, percebe-se seu ferrenho posicionamento sobre os problemas do país, ainda mais nas reportagens e notícias.

Isso é visto com muita crítica por Abramo, já que, na visão dele, a observação e o conhecimento devem ser a base da busca da objetividade na construção jornalística e que não deve ser afetada pela opinião, que é um dos tais mecanismos que comprometem a realidade do que está sendo noticiado. Tudo isso mostra que a dialética a respeito da função do jornalismo, se ele deve ser um meio de transformação da sociedade ou apenas mero mediador entre o cotidiano e o leitor, está longe de terminar.