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10 a 24 de janeiro de 2006

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A BELEZA DA FERA
Em King Kong , Peter Jackson sai da Terra Média direto para um conto de fadas trágico, onde o Humano se revela animal, e vice versa
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

uem é mais selvagem? O caçador ou a caça? Onde é mais cruel a lei da sobrevivência? Na selva onde o gorila reina ou na Nova York da Grande Depressão? E principalmente: por que refazer um filme de 1933, feito em stop motion e com efeitos especiais do tempo do onça?

O King Kong de Peter Jackson tenta responder a todas estas perguntas. Em alguns momentos, consegue de modo triunfal; em outros, sucumbe ante o peso da lenda do filme original e da expectativa que o público tem em relação ao filme de Jackson após a odisséia dos Anéis – ganhar o Oscar nem sempre significa que você vai ser amado para sempre. Perguntem ao James Cameron, que até hoje não lançou nenhum filme que pudesse se chamar de sucessor de Titanic.

O que mais chama a atenção em King Kong é como ele é rico em detalhes. Jackson não mostra a cidade em longos planos para introduzir a história. Simplesmente vemos o relance da recriação da cidade enquanto Carl Denham, o diretor de cinema vivido por Jack Black, passa pela rua. Aliás, o filme começa no Zoológico de Nova York, para depois passar à “selva” do vaudeville americano da década de 30 do século passado.

É lá que encontramos Ann Darrow (a sublime Naomi Watts), uma atriz desesperada que pensa em se apresentar em shows eróticos para matar a fome. Carl Denham a conhece e propõe fazerem um filme numa longínqua ilha fora dos mapas de navegação. A partir daí, seguimos os personagens na viagem. A unidade de tempo na ação de Peter Jackson é o que mais sobressai da estrutura do roteiro; Nova York – Viagem - Selva – Nova York. Quatro momentos distintos, que podem ser reduzidos a três: Preparação e Viagem, Selva e Nova York. Parece pouco? Experimente passar por estes três instantes dentro de uma sala escura com dezenas de outras pessoas.

Os detalhes têm a função de encher a tela. Peter Jackson não dá fôlego aos nossos sentidos. Depois de uma cena, vem outra, e mais outra, e mais outra, e mais outra… Lembra o melhor de Spielberg, a trilogia Indiana Jones , com seu ritmo frenético e viciante. Mas por outro lado, três horas é simplesmente um exagero. Muitas cenas poderiam ser mais efetivas se fossem mais editadas (e algumas, como os insetos, poderiam ser simplesmente cortadas). O pior da opção da unidade de tempo que Peter Jackson escolheu para recontar a história de King Kong é que vários personagens e situações são desenvolvidos brilhantemente para chegar a lugar nenhum. A relação de camaradagem entre o tripulante negro e o personagem adolescente de Jimmy não vai a lugar algum assim que chegamos a Nova York. E o romance entre o intelectual Adrien Brody e a atriz de Naomi Watts nunca pega fogo.

Mas, como dizia Truffaut, o cinema é a arte do sacrifício. Todo diretor tem que sacrificar algo, e Jackson sacrificou a história bem contada para privilegiar o conto de fadas. King Kong é sobre um macaco gigante e sua obsessão por Naomi Watts, e de como este amor o mata. Ou, como o texto do original garante: “Foi a Bela que matou a Fera” (“ it was Beauty killed the Beast ”). E que um diretor tenha a ousadia de fazer um conto de fadas de 200 milhões de dólares é algo raro no atual estado de coisas em que se encontra o cinema mundial. Como disse o crítico americano David Thomson, filmes pequenos e “independentes” como O segredo de Brokeback Mountain são necessários, mas o cinema foi feito para o espetáculo, para a grandiosidade, para encher uma parede inteira, e é isso que King Kong tenta proporcionar, um espetáculo de pura emoção, onde um olhar de um gorila pode ter tanta importância quanto uma luta envolvendo dinossauros.

King Kong é um épico no sentido literal do termo. Carl Denham junta uma nau dos insensatos para procurar um sentido para a vida absurda e louca da selva de Nova York. Uma viagem da qual ele vai emergir como o maior diretor do mundo. Este diretor e sua equipe (o roteirista enjaulado, a estrela que quer brilhar) quer se redimir pela Arte, pela Cultura, pela Civilização. Mas tudo o que eles encontram é a Barbárie. E longe de conseguir seu intento (as preciosas filmagens são todas perdidas) de fazer um épico, tudo o que a equipe faz é trazer a Barbárie para destruir a Civilização. King Kong é todo construído sobre a natureza animal do Homem. Quem é o verdadeiro selvagem, Kong ou os pilotos que tentam derrubá-lo do Empire State? O gorila é redimido pelo amor, e sua morte é toda a tragédia do filme. O Rei Kong é o único personagem do filme que se ergue acima de sua condição animal.

King Kong já está pagando o preço de sua ousadia nas bilheterias. Nunca perdoaram Coppola por fazer espetáculos de histórias comuns. A simplicidade da estrutura de Kong pode fazer as pessoas perguntarem se três horas não é um tempo muito grande para ficar numa sala escura. Portanto, se você ainda valoriza o Cinema como experiência coletiva, assista King Kong no cinema. Porque épico não precisa acontecer em outras terras, não precisamos passar por um armário para encontrar o encantamento como em As Crônicas de Nárnia (aliás, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é nome de saga que se preze? Mais parece nome de fantasia luxo de Clóvis Bornay.) King Kong traz um épico dos olhares e das sensações e mostra que até os animais podem ser heróis, nesta selva de imagens em que vivemos.