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25 de janeiro a
8 de fevereiro de 2006

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MINHA AMADA IMORTAL
A paixão por um revólver e a obsessão americana por armas de fogo estão no alegórico Querida Wendy
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

o mundo inteiro, a problemática relacionada à posse de armas de fogo pela população civil vem causando grandes controvérsias, principalmente em nações cujo culto pela indústria bélica é tão forte como os Estados Unidos. No Brasil já tivemos o plebiscito que decidiu que todo cidadão poderá manter o direito de ter uma arma de fogo, desde que tenha autorização para portá-la. O dedo na ferida, na perigosa paixão dos americanos por essas armas, começou a ser posto em cheque com o escandaloso incidente na pequena cidade de Columbine onde, dois adolescentes, entraram na escola que estudavam matando vários amigos e professores, terminando por suicidarem-se.

Após várias manifestações que não deixavam a população esquecer do trágico acidente, o cineasta americano Michael Moore, doido por uma polêmica e grande crítico das instituições americanas, lança o documentário Tiros em Columbine, que desnuda o fascínio e a obsessão que as armas de fogo exercem nos americanos e, por tabela, humilha um ícone local, o eterno Ben-Hur, Charlton Heston, popular defensor do porte de armas. Escândalos e polêmicas à parte, Moore ganhou o Oscar de melhor documentário, falou mal de George Bush no discurso de agradecimento e abriu caminho para uma discussão maior sobre as armas de fogo no cinema.

Partindo do mesmo episódio, Columbine, o também americano Gus Van Sant, mostra o que leva típicos adolescentes da classe média de uma pequena cidade ao entrar na escola atirando em todos e, de uma forma quase neutra e sem julgamentos, faz também um retrato do vazio e da ociosidade das high schools americanas no premiado Elefante (Melhor Filme e Diretor no Festival de Cannes).

Em Querida Wendy (Dear Wendy, 2005) , o olhar sob esse episódio vem de fora, é o “estrangeiro” tentando (re)criar argumentos para tão grande fascínio. A dupla de dinamarqueses, Thomas Vinterberger e Lars Von Trier apimentam um pouco mais essa relação de amor e ódio que nutrem pelos Estados Unidos. Von Trier que já mostrou toda sua acidez contra a sociedade americana em Dogville e na continuação Manderlay , ainda promete uma terceira parte do que poderia ser chamada de uma “trilogia americana”, é o autor do roteiro de Querida Wendy , irônica alegoria sobre adolescentes que portam armas de fogo.

Dick (Jamie Bell, o garoto de Billy Elliot , agora crescido e em ótima atuação) é um jovem calado, que sempre passa despercebido, em uma empoeirada cidade do oeste americano. Por acaso compra uma arma em uma loja de brinquedos e afeiçoa-se a ela. Descobre que um amigo também tem um revólver de estimação e juntos resolvem fundar um clube, onde todos andam armados, no fundo de uma mina desativada.

A ironia do roteiro é mostrar que, mesmo sendo portadores dessas armas, todos são pacifistas, elas só podem ser usadas dentro da mina. Nesse momento as armas já ganharam sexo e nome, e a de Dick é a tal Wendy do título, para quem o rapaz está escrevendo uma carta que serve de narração para a história.

Essa inusitada paixão nunca deve extrapolar os limites da mina, o objeto amado deve ser mantido em segredo, e a clara alusão ao medo e à incapacidade em expressar a própria sexualidade é proposital. Wendy é um substituto ao contato humano, com ela Dick minimiza toda a carência afetiva sentida, a falta de auto-estima é compensada e conquistada pela arma. A paixão de Dick é levada aos extremos, o ciúme corrói sua alma com a entrada de um novo membro que parece se interessar por Wendy e, morrer ou viver, não interessa mais, desde que seja com ou por ela. A sublimação é feita em um objeto fálico que ganha sexo feminino e completa a confusão sexual de Dick. Seria o ciúmes referente à Wendy ou ao amigo? A ambigüidade entre os desejos e relacionamentos é palpável.

Esses jovens que antes não eram nada se sentem poderosos quando estão armados, as armas servem como objeto de poder, uma maneira deles se auto afirmarem perante os demais, pois mesmo que ninguém saiba que eles andam armados, elas podem ser sacadas a qualquer momento para resolver algum problema, mesmo que isso seja proibido dentro da filosofia do “clube”. Apenas o fato de possuí-las já é o suficiente para imaginar que a paz possa ser mantida.

Os jovens do clube, que se auto denominam dândis, mostram um microcosmo da sociedade americana, uma mulher, um negro, um aleijado, um valentão e um rapaz sensível que se sente deslocado no mundo, e fazem parte de estereótipos comuns quando se fala em exclusão social. Von Trier poderia ter sido um pouco menos óbvio nesse tratamento dado aos personagens que os limita um pouco na caracterização, com exceção de Dick, que por ser o protagonista, ganha um pouco mais de nuances e complexidade. Mas isso não é algo que atrapalhe o desenvolvimento da crítica contra a intolerância e o abuso de poder que o filme permeia.

A pequena cidade, feita com recursos econômicos bem ao estilo Dogville , mas sem a radicalidade desse, lembra, propositalmente, as cidades dos filmes de faroeste, gênero por excelência americano, e remete a um lugar no meio do nada, perdido, um não-lugar, onde as pessoas sempre estão de passagem, onde as ruas são desertas e apenas o tédio e o mofo sobrevivem.

Se a direção de Thomas Vinterberger, do excelente Festa de Família e do chatíssimo Dogma do Amor , é apenas correta é no roteiro que reside a força motriz e criativa do longa, mostrando mais uma vez que Lars Von Trier é um excelente contador de histórias. Se muitos teimam em odiá-lo por considerá-lo um embuste ou um marketeiro, não importa. Von Trier é assim mesmo, adora causar polêmica e meter o nariz onde não é chamado.