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25 de janeiro a
8 de fevereiro de 2006

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CALDEIRÃO CARIOCA
Catete-488 mistura música dançante, engajamento cultural e letra reflexiva na busca de espaço no cenário local
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

rocure imaginar o Rio de Janeiro. O que vem à sua cabeça? Praia, mar, pessoas bonitas, montanhas, favelas, violência... Normalmente, é esse o quadro montado em nossa mente, vindo da imprensa, e que compõe um cenário heterogêneo, de uma cidade que convive entre o caos e a fantasia, a alegria e a miséria. E na busca de ferver ainda mais o caldo dos opostos dessa cidade maravilhosa, a banda Catete-488, formada e ensaiada na zona sul “com cara de zona norte”, traz sua proposta de um som dançante e “pra cima”, calcado nas mais diversas influências, desde funk, soul e Clara Nunes, até Led Zepellin e manguebeat, com letras que procuram retratar a realidade de seu povo que luta e sofre. “ Queremos mostrar que a música é uma terapia pra tudo”, diz o guitarrista Alexandre Carola, em entrevista feita por correio eletrônico ao Rabisco.

A banda foi fundada em 2003, mas, percorreu sua germinação nos anos anteriores, de encontros e desencontros dentro do cenário musical carioca, até levar a formação atual que conta também com Fábio Maracutaia (voz e violão), Sergio Granha (Baixo) e Danielzinho Batera. O quarteto possui um CD demo sem nome, com apenas três músicas (“Dia à Dia”, “Perfume da Nega” e “Billy Holiday”), feito para o lançamento de um videoclipe que chegou a ser divulgado no circuito independente carioca. Mas a concepção musical é bastante profícua, com outras canções compostas, inclusive para curtas-metragens, que é o caso da película Consciente Irracional (dirigida em 2004 por Erick Maximiniano Oliveira, da produtora, ainda em processo de incubação, Favela Filmes), que também dá nome ao tema, e narra a história de uma garota (Carol Castro) que sofre na praia, com os amigos, enquanto seu namorado (Cauã Reymond) vive em casa cheirando cocaína. Quem quiser conferir o curta é só clicar aqui.

Essa ligação cinema-música não é à toa. Faz parte de uma idéia que o Catete-488 toca com outras bandas, para conseguir mais espaços culturais para divulgação de arte no Rio de Janeiro. O projeto é conhecido como Movimento Universal Brasileiro (MUB). É o eterno filme do engajamento de músicos no sentido de conseguir mais notoriedade governamental, além de unir a categoria para ajudar uns aos outros a ampliarem suas vozes no cenário. “ O projeto tem como finalidade seguir qualquer outra banda do nosso circuito que queira levar o nome não só do projeto e sim das bandas que fazem acontecer, que fazem o projeto ir adiante. Hoje em dia temos uma visão de que uma andorinha só não faz verão”, atesta Carola. Leia a seguir os principais trechos da entrevista e conheça um pouco mais sobre o som e as idéias da banda.

– Fale um pouco como surgiu a banda, como tudo começou, etc.

Alexandre Carola – A banda surgiu no final de 2003, depois do Fábio Maracutaia ter participado como ator em 2000 na peça de teatro "O Incrível Encontro" com a direção de Antonio Pedro e Anselmo Vasconcelos  ambos diretores do projeto Centro Experimental Teatro Escola (CETE). Neste mesmo ano, Fábio conheceu o compositor Gabriel Moura que levou o Fábio e sua música para uma galera de uma banda chamada Farofa Carioca, que tocou a música "Criança de Rua" em ritmo de reggae. Essa composição é do Fábio Maracutaia. A partir disso, nós nos conhecemos dentro do Farofa, já que naquela época eu era guitarrista na banda. Juntos começamos a tocar e compor, viramos amigos de fé e de trampo. Foi daí que surgiu a idéia de montar uma banda, isso por volta de 2001.

– Gostaria que você falasse um pouco mais sobre a idéia do nome Catete 448.

Alexandre Carola – A questão do nome da banda Catete saiu do estúdio que nós ensaiávamos e o endereço era Pedro Américo 448 – Catete-RJ. Foi daí que surgiu o nome: de uma brincadeira de endereço. Nós falamos do Rio de Janeiro na questão do bairro Catete por estar na zona sul e ter cara de zona norte, centro com suas praias e morros em volta, daí vem a mistura de ritmos e por ter essa diversidade de pessoas, gringos, pessoas de outros estados, etc... E quem olhar no mapa do Rio de Janeiro vai notar que o Catete é apenas um bairro, como poderia ser um outro nome qualquer e para aquelas pessoas de outros estados do Brasil para conhecer realmente o Catete bairro só vindo ao Rio de Janeiro. Mesmo assim, todos nós somos de regiões diferente do Rio: por exemplo, o Fábio Maracutaia é do bairro de Ramos (zona Norte) e eu sou de  São Gonçalo (zona Oeste).

– Quais são as principais influências do Catete-488?

Alexandre Carola – As principais influências são: Clara Nunes, Djavan, Led Zeppelin, Deep Purple, Tito Puente, Buena Vista Social Club, Elis Regina, Rock dos anos 80 nacional e internacional, Ciranda (Lia de Itamaracá) o pessoal do Samba, bossa, Jamiroquai, Bob Marley, movimento manguebeat, Billy Holiday, Blues, funk e soul.

– A que se deve o fato do som da banda ser mais dançante, temperado com diversas influências musicais?

Alexandre Carola – É natural quando se ouve muita música, as composições vêm naturalmente e por sermos brasileiros, e ainda nascidos na cidade maravilhosa, já temos o samba no sangue! E daí, se dermos um rolé pelo Brasil vemos que temos muito a mostrar, desde o maracatu, passamos pelo baião, xote, caboclinho,  o congo de Vitória (Espírito Santo), o reggae do Maranhão e o tambor de crioula, axé, afoxé, timbalada, a macumba e os toques Africanos da Bahia. É por isso que temos swing , por não estarmos só ligados na nossa cultura e sim em todas as culturas brasileiras.

– Como é o processo de criação do Catete-488?

Alexandre Carola – O processo de composição também, na maioria das vezes, vem natural como se fosse dada por alguém que não está neste plano material, sabe aquela soprada no ouvido? Mas também compomos por encomendas como, por exemplo, fizemos uma para o Vavá, do Karametade, chamada: "Caso de Amor" um hit babinha, sabe né?

– Qual é a mensagem que a banda procura passar, não só com as letras, mas também com as músicas?

Alexandre Carola – A mensagem que queremos passar como banda é que no mundo de hoje ter união é o primeiro obstáculo que todo músico passa, fora às necessidades, portas se fechando, mas a insistência de querer vencer é o mais importante nesta hora, levar a música como trabalho. Com as letras tentamos passar a nossa realidade e de todo povo, os nossos karmas, as cobranças da sociedade o peso do mundo. Queremos mostrar que a música é uma terapia para tudo. E com a música tentamos mostrar o que ouvimos, a nossa própria música tem muita riqueza tanto no lado harmônico, rítmico e melódico. Não precisamos ir muito longe para se fazer um bom som, procuramos respeitar dentro da banda todas as opiniões dos integrantes, somos uma banda democrática.

– Como tem sido o alcance do Catete-488 dentro do Rio de Janeiro? Vocês fazem planos de tocar em outras cidades?

Alexandre Carola – Hoje em dia eu vejo o Rio de Janeiro investindo apenas em quem já tem e faz sucesso, os contratantes não querem investir em bandas independentes, não se tem muitos espaços independentes e aí fica complicado. Com muita luta conseguimos tocar em vários lugares importantes do estado como: Circo Voador fechando Jorge Ben, Teatro Rival BR juntos com o Farofa Carioca, Boite Melt, antigo Ballrrom, Dandi Brasil, Lapa e etc. Quanto a tocar em outra cidade, estamos investindo nisso, queremos fazer um circuito dentro do projeto MUB onde as bandas (se tudo der certo, se conseguirmos o apoio dos nossos governantes) terão um ônibus para rodarmos todo o estado e daí ter uma liberação  para tocarmos em qualquer outro estado ou território nacional e chamar as bandas locais, projetar, essa galera do anonimato para o mercado de trabalho. Queremos fazer um movimento cultural que o Rio nunca teve, onde todos terão o espaço, falo em poder ter não só um espaço, mas vários outros espaços funcionando simultaneamente em todo o estado, projeto MUB na praia, no shopping, bares, boites e etc. Com várias atrações por semana.

– Nos primeiros contatos por correio eletrônico você havia comentado sobre esta idéia de movimentar a cena cultural carioca por meio do Movimento Universal Brasileiro. Gostaria que você explicasse como tem sido o contato com outros artistas da cena independente carioca, inclusive, com outros segmentos culturais, como teatro, cinema, etc.?

Alexandre Carola – O Catete-448 já vem fazendo contatos com produtoras de cinema e teatro, fazemos músicas para filmes como, por exemplo, o filme Consciente Irracional . O projeto MUB foi idealizado pela galera da banda O BAQUE, que nos cedeu o mesmo. O projeto tem como finalidade seguir qualquer outra banda do nosso circuito que queira levar o nome não só do projeto e sim das bandas que fazem acontecer, que fazem o projeto ir adiante. Hoje em dia temos uma visão de que uma andorinha só não faz verão. Precisamos de tudo e de todos que possam nos apoiar, mas ainda não temos o apoio que o projeto precisa para poder andar sozinho.

- Quais são os planos da banda? O pensamento é lançar alguma nova Demo, um EP, um álbum?

Alexandre Carola – Estamos pensando em gravar e fazer um novo vídeo clipe e aí sim lançar uma nova demo, com nome, etc. Estávamos pensando em colocar o nome de “Dia a Dia” que é o nome da música do primeiro clipe que também significa o dia a dia de todo o povo brasileiro, que é um dos pontos que nós nos preocupamos  mais. É de como vivemos no nosso país, como a vida do povo daqui é sofrida, por que tanta pressão pra ser alguém na vida? Por que temos que viver sonhando? Não podíamos apenas viver e ser feliz? Estou fazendo estas perguntas, pois é assim que vejo todo o povo lutando por um dia melhor, poder dar de melhor para os seus filhos... Por que não conseguimos respeitar mais o próximo? Vivemos assim e compomos assim, pensando neste povo lindo e sofrido. Mas é lógico: cada um tem que fazer o melhor para si mesmo e não ficar só reclamando da vida, mas as coisas têm que ser mudadas urgentemente, senão irmão, não vai sobrar nem música para contar história.