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25 de janeiro a
8 de fevereiro de 2006

Equipe Edições Anteriores

VIOLAÇÃO DE PRIVACIDADE
Cada momento da sua vida gravado. Você a viveria diferente?
por Paulo Gustavo Freire ( pgvarandas@yahoo.com.br )

ocê sempre sonhou em saber como era seu pai e sua mãe quando jovens? Ou quem sabe seus avós? Pois com um implante de memória agora isso é possível. Imagine gravar todas suas lembranças, armazená-las em um chip e depois de editadas ela são exibidas no seu funeral. Parece a sinopse de um episódio da antiga série televisiva Além da Imaginação, porém trata-se de Violação de Privacidade.

O diretor teve a idéia da história enquanto trabalhava em sua tese da faculdade: o documentário Grand Theater: A Tale of Beirut . “Eu estava editando meu filme e tive o privilégio de ser a única pessoa trabalhando no Avid (popular software de edição não-linear, utilizado em boa parte dos filmes) por seis ou sete meses”, explica Naïm ao site oficial do filme.

Somos introduzidos nesta narrativa através de um episódio entre dois garotos, no qual um deles morre. Seguimos alguns anos à frente e encontramos Robin Williams interpretando Alan W. Hakman, o garoto atormentado com o episódio da infância, trabalhando como “cutter”, ou seja, um editor de imagens gravadas em implantes orgânicos de memória, cuja proprietária é a empresa Zoe Tech.

Se em Amnésia e O Vingador do Futuro discutia-se o quanto o homem é fruto de suas lembranças, em Violação de Privacidade estamos diante de outros questionamentos: você deixaria de se apaixonar por alguém? Evitaria cometer atos ruins? Qualquer decisão sua a ser tomada seria baseada no final de sua vida a ser exibida em imagens editadas? Qual o direito de um cutter em editar sua de trajetória de forma estereotipada como um reality show ? “Nós não estamos tentando criar um futuro ou uma realidade alternativa. O que estamos tentando fazer é criar basicamente uma fábula”. Philip K. Dick, autor de livros de ficção-científica (que originaram Minority Report, O Pagamento, O Impostor , Blade Runner etc) ficaria orgulhoso.

O enredo ainda traz Mira Sorvino como Delila, uma bibliotecária com quem Alan desabafa ao editar imagens de pessoas com passados conturbados (ironicamente, a sua especialidade) e com quem vive relacionamento amoroso conflituoso devido a sua obsessão pela edição dos implantes, inclusive de um antigo namorado de Delila. Por sua vez, James Caviezel é Fletcher, um ex- cutter que agora apóia um grupo de rebeldes. A ideologia do grupo? As lembranças das pessoas devem ser armazenadas e revividas.

Quando um dos fundadores da Zoe Tech morre e Alan tem de editar sua memória, ele descobre duas informações que irão mudar sua vida. O comportamento politicamente incorreto do executivo e a imagem de uma pessoa ligada a seu trauma de infância. Está montado o emaranhado de histórias para se discutir os efeitos do implante no comportamento das pessoas. O diretor deixa claro isso em sua declaração sobre a concepção do filme: “Meus objetivos para o filme eram simples, mas eles se tornaram bem complicados. Eu gosto de filmes que fazem um questionamento. Eu acho que a habilidade para discutir esse filme é uma enorme parte da diversão de fazê-lo”. Violação de Privacidade é curto e reserva reviravoltas na trama. Estender-se em detalhes poderia estragar algumas surpresas.

A obra segue coesa nos dois primeiros atos e prendendo a atenção do espectador com suas interessantes tramas internas: o relacionamento de Alan com Delila, o fato dos cutters não serem ligados a Zoe Tech e trabalharem de forma independente em suas casas, ou mesmo as panes que os implantes possuem, gravando imagens de sonhos e pensamentos abstratos. Porém acaba por perde-se no último ato, quando tenta criar uma trama policial, na qual Fletcher começa uma perseguição para obter de Alan o implante do fundador da Zoe Tech e assim tentar fechar a empresa.

Uma minissérie de TV seria bem vinda para discutir tudo o que engloba o implante de memória e Omar não conseguiu nos contar. A ética da empresa Zoe Tech, os efeitos da gravação da memória nas ações do cotidiano, a edição forjada dos editores entre tantas outras possibilidades. Apesar de seu clímax ser irregular, até lá o filme cumpre de forma brilhante o seu poder de questionamento e inquietação. Após subirem os créditos a minha única vontade era ver as lembranças dos meus dois avôs.