2

Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

25 de janeiro a
8 de fevereiro de 2006

Equipe Edições Anteriores

TEXTO SEM PRETEXTO
Clássico da literatura beat nacional é relançado após anos fora da estante
por Luiz Rebinski Junior (jrrebinski@yahoo.com.br)

oão Guimarães Rosa, autor de clássicos da literatura nacional, apontado por muitos como um dos maiores escritores brasileiros, é conhecido por sua escrita engenhosa e pela inventividade de seus experimentos lingüísticos. Assim como Joyce, Rosa criou uma literatura própria, que foge a todas as regras da prosa convencional. Reinaldo Moraes, autor de um livrinho chamado Tanto Faz , agora reeditado pela Azougue Editora, aparentemente não tem nada a ver com o mineiro Guimarães Rosa e muito menos com o irlandês Joyce. Aparentemente. O leitor mais atento verá que, logo nas primeiras páginas do romance em questão, a influência da escrita dos grandes mestres acima citados – de forma intencional ou não, pouco importa –, é notória. Mais do que isto, Moraes pratica um tipo de literatura que vai ao encontro do experimentalismo de Rosa, mesmo que às avessas.

Abdicando de um enredo engenhoso, Moraes opta por uma narrativa veloz, cheia de aliterações, onomatopéias e citações que remetem à cultura pop. Cinema na literatura. É verdade que do ponto de vista do conteúdo dos diálogos e da ambientação, Tanto Faz está muito mais para On the road do que para Ulisses .

O mote do romance é bastante simples: Ricardo (Moraes) é um economista que trabalha em um emprego tedioso em São Paulo. Certo dia a sorte lhe cai às mãos em forma de passagem aérea. Como que por obra do acaso, o protagonista é agraciado com uma bolsa de estudos na capital francesa paga pelo Instituto do qual é empregado. O acaso aí se justifica porque o escolhido para ingressar na pós-graduação não era Ricardo, e sim um colega que, na última hora, não pôde assumir o compromisso. Aí começa a trip .

A história poderia se tornar previsível se a narrativa enveredasse pela descrição fria da rotina de um estudante brasileiro em busca de conhecimento em um país de primeira grandeza. Não é o caso. Isto porque Ricardo simplesmente não dá as caras no curso de economia. A Paris dos anos 80 fervilha, é um caldeirão de boas e más oportunidades. Não há tempo para aulas modorrentas e professores pedantes. A vida está do lado de fora dos muros da universidade. E Ricardo quer a vida na sua plenitude. Junkie de primeira hora, o protagonista parece ter fogo nas ventas. A tríade sexo-drogas-rock n' roll dá a tônica na narrativa. Movido pelo espírito de aventura, Ricardo vai dando forma à sua própria personalidade de acordo com os acontecimentos que vão surgindo em sua vagabunda vida. Ricardim, Rica, Ricardinho, de Mello, não importa o nome, o que vale é a diversão.

Sem roteiro pré-estabelecido, o romance justifica a epígrafe. Em Tanto Faz , tanto faz mesmo. Pouco importa se há algumas linhas o intrépido Ricardo estava dando um giro na Rue Des Écoles e duas frases depois já podia ser encontrado do outro lado da Cidade Luz vagabundeando. O itinerário, tanto faz. O que realmente não pode faltar são diálogos, elucubrações, divagações e discussões calorosas sobre política, arte conceitual, Caetano Veloso e escatologia. Ah! E literatura. Afinal Rica é aspirante a escritor. Dos melhores. Fala muito, pelos cotovelos, e escreve pouco. Pouquíssimo. Mas é, com certeza, uma promessa da nova literatura. Como todo bom jovem escritor, tem um romance inacabado que provavelmente nunca terminará.

Tanto Faz é um pandemônio. Ás palavras inventadas por Moraes, juntam-se expressões em inglês, em francês e outras línguas ainda não catalogadas pelos filólogos. O autor vai juntando palavras e construindo uma narrativa descompromissada, sem amarras e completamente informal. As frases e os capítulos são curtos como nos livros de John Fante. A influência Beat é notória e escancarada – anos depois Reinaldo Moraes traduziria livros de Bukowski e Burroughs. O personagem central é, ele mesmo, um beat que chegou atrasado no sarau dos anos 50. Um jovem escritor que descobre a poesia de Baudelaire, a narrativa veloz e louca de Kerouac, o pouco caso de Bukowski e pira na vida. Quer ser como seus heróis.

Assim como o bardo americano, o velho Buk, Rica quer o mundo sem sair da cama. O sexo é o elixir da vida, o tônico que massageia o ego de um rapaz latino-americano que procura um grande amor em Paris. Há muitos personagens ao longo da narração. Mas somente um, além de Ricardo, ganha destaque. Chico é o melhor amigo do protagonista e confidente de primeira hora. É do bate-papo entre os dois que saem os melhores trechos do romance.

O sexo e as referências ao modo de vida alternativo, remetem de imediato à literatura de Bukowski e dos escritores beats. Moraes aproveita a abundância de diálogos para falar de tudo um pouco – do homossexualismo ao rock.

Em uma época em que o feminismo tomou conta do debate sobre a sexualidade e o papel da mulher na sociedade, Ricardinho falava o seguinte ao fiel escudeiro Chico: “Tô começando achar que o feminismo é o novo cristianismo, cara. A gente acaba se culpabilizando só por desejar uma mulher. Como é que as feministas acham que a humanidade vai se reproduzir se cortarem o nosso barato? ”. A este diálogo seguem muitos outros não menos hilários e impagáveis. O autor consegue falar sério de modo despretensioso, exatamente como em uma conversa entre amigos politicamente incorretos.

Não há tempo ruim para Ricardinho, que vai disparando as mais inusitadas frases a cada página. Convivendo com camundongos e pessoas das mais diferentes espécies, o protagonista tenta aproveitar ao máximo a vida boa que um dia, sabe, acabará.

Tanto Faz foi lançado originalmente em 1981 pela editora Brasiliense. Saiu em uma coleção, hoje célebre, que editava autores que estavam despontando na cena literária brasileira. Nomes como o da poeta Ana Cristina César e dos prosadores Caio Fernando Abreu e Marcelo Rubens Paiva. A Cantadas Literárias colocou na praça livros como Morangos Mofados e Feliz Ano Velho . Títulos que caíram na graça de leitores ávidos por aventura, curtição e boa literatura. É neste contexto que o nome de Reinaldo Moraes ganha visibilidade. Mesmo sem ter uma história linear, com personagens bem definidos e um final surpreendente, Tanto Faz conseguiu dar o seu recado de modo contundente. Na época do lançamento do livro o país ainda vivia chafurdado em uma ditadura escrota que ajudava a manter muitos tabus. Idéias atrasadas e retrógradas ainda persistiam entre a sociedade. O romance de Moraes chegou com tudo para falar abertamente de sexo, drogas, viadagem, punheta e diversão. Sem esquecer das questões políticas, inevitáveis naquele momento.

Assim como o livro de Moraes é claramente influenciado pela onda Beatnik, a prosa de Tanto Faz influenciou muita gente que viveu ou não os anos 1980. Um dos entusiastas da obra é Mário Bortolotto, que assina o posfácio da última edição.

Quem conhece pelo menos algum trabalho do dramaturgo paranaense, visualiza com bastante nitidez a influência da prosa de Moraes no texto de Bortolotto. Afinal, os personagens de Moraes poderiam facilmente figurar nas peças de Bortolotto, e vice-versa. É claro que comparar Moraes, ainda que com ressalvas, a Guimarães Rosa e Joyce é um exagero. Um exagero permitido apenas quando se comenta um livro como Tanto Faz . O que não é exagerado é dizer que, assim como Verdes vales do fim do mundo , outro clássico da nossa literatura pé-na-estrada, Tanto Faz fez mais do que encorajar jovens a viajar com mochilas nas costas, o romance de Moares formou leitores e, como se sabe, bons escritores. Daí seu mérito. O restante não importa, tanto faz.