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25 de janeiro a
8 de fevereiro de 2006

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VOCAÇÃO OU OBSESSÃO?
Documentário de Eduardo Escorel e José Joffily mostra um panorama político da cidade do Rio de Janeiro abordando a origem e os desdobramentos da vocação política
por Thiago Vieira ( thiagojornalista@uol.com.br )

Foto: Eliane Coster

os últimos dias, os principais meios de comunicação têm noticiado a decisão do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), de deixar o cargo até o dia 30 de março - data limite para que políticos que pretendam se candidatar a outro posto público se afastem de suas atuais posições. O anúncio do tucano foi uma clara manobra para pressionar o partido a escolhê-lo nas convenções internas para disputar a Presidência, à qual seu mais forte candidato é o prefeito de São Paulo, José Serra, que tem uma vantagem sobre seu oponente: é mais conhecido em regiões fora do sudeste e sul do país, além de ser o único cotado nas pesquisas que venceria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apesar de suas afirmações vagas, porém, com ações de campanha, também deverá disputar o próximo pleito.

A atitude tomada pelo governador paulista, assim como o prefeito Serra - em calar-se -, é típica de políticos bem assessorados, ambiciosos e, claro, com larga experiência na carreira escolhida. Uma decisão que dificilmente seria tomada por alguém que esteja começando os primeiros passos nessa profissão tão bem remunerada no Brasil. Talvez, seja isso o que atrai tantos candidatos a cada ano eleitoral a disputar um cargo público, ou, quem sabe, o interessante seja o status. Mas será que o atrativo da política está realmente na vontade de ajudar a melhorar a cidade onde mora, o estado de origem, ou mesmo o país, como vem declarando o governador de São Paulo, nos dias em que tem ganhado tanta atenção da mídia?

Qual o atrativo de uma carreira política é justamente uma das questões feitas por dois dos maiores diretores brasileiros, Eduardo Escorel e José Joffily, no documentário Vocação do Poder , que está em cartaz nos principais cinemas do país dedicados à exibição de montagens deste tipo, que vem ganhando cada vez mais espaço no circuito cinematográfico.

O documentário nasceu de uma conversa entre os amigos Thomaz Saavedra e Joffily, durante a gravação de outro trabalho do diretor, O Chamado de Deus , que tem a mesma linha de conduta do Vocação do Poder . A idéia inicial era começar a rodar o filme ainda durante as eleições municipais de 2000, no Rio de Janeiro, a mesma cidade em que foi filmado, no último pleito, em 2004. Como a intenção deste trabalho era documentar a origem e tentar entender o sentido da vocação política, a equipe acabou incluindo apenas aqueles que estavam se candidatando pela primeira vez a vereador do Rio e que, de preferência, fossem jovens. De acordo com José Joffily, a decisão por candidatos novatos veio da experiência com O Chamado de Deus.

Foto: Eliane Coster

“No documentário anterior, tínhamos gravado diversas coisas com bispos , que apesar de serem pessoas muito interessantes, se mostraram reservadas e se preservavam ao falar. Achamos, por isso, que obteríamos depoimentos mais sinceros de pessoas que estivessem no início de uma carreira política. Seria mais revelador para esse painel fazer o filme a partir de jovens políticos. Isso projetaria o que seria a Câmara dos Vereadores dali para frente. Não uma retrospectiva, mas sim aquilo que estava por vir.”

Para que se chegasse aos candidatos, foi disposto um formulário on-line, para que os interessados em participar do projeto respondessem 16 questões sobre sua orientação política, partidária e às condições da campanha, e com isso foi possível escolher os candidatos que representassem diversas alternativas da conjuntura política do Rio de Janeiro.

Foto: Eliane Coster

Finalmente, após análise de 70 questionários, foram escolhidos seis personagens para o documentário, que seriam seguidos por equipes de gravação das convenções partidárias (PT - 25/04/04 -, PL - 26/06/04 -, PFL-PSDB - 27/06/04 -, e PMDB - 29/06/04) até a comemoração de alguns e a decepção da derrota de outros, ao final das eleições. Gravado em 42 dias, Vocação do Poder teve como resultado um material extenso de 89 horas de filmagens.

O filme mostra, entre outras coisas, as dificuldades de campanha de cada candidato, bem como as diferenças existentes entre elas. Enquanto um fazia seu corpo-a-corpo subindo os morros, outros se focavam nas comunidades em que seu nome já era conhecido de alguma forma, por ser herdeiro político de outros dois representantes da cidade no estado e no Congresso Nacional.

Além disso, o documentário retrata muito bem o painel político da cidade e como essa se mostra fria e distante da campanha eleitoral ao Legislativo municipal, como se este não fosse assim tão importante. Esse distanciamento da cidade com o processo eleitoral é evidente quando as equipes mostram as campanhas em áreas que não dependem tanto dos políticos, zonas mais nobres do Rio, ou durante um debate entre candidatos ao Legislativo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), em que apenas alguns gatos pingados aparecem para questionar aqueles que buscam os votos da população.

Sem dúvida alguma, Vocação do Poder é belo trabalho desses dois grandes diretores brasileiros e que consegue traduzir o significado da vocação política. “Eu acho que a política pode ser uma vocação e poder ser uma obsessão. Em geral, quando é uma obsessão é mau sinal. Mais do que uma vocação, acho que o filme permite perceber que para fazer uma carreira política são necessários fatores que independem das aptidões e dos desejos pessoais dos candidatos”, afirma Escorel.

Foto: Eliane Coster

“Você nunca vai se candidatar por um motivo só. Sem obsessão, a vocação não se completa. Tem de haver uma dose de obsessão para se praticar essa vocação. Nesta campanha eram 1.100 candidatos para 50 vagas. Era preciso ser obsessivo, ter vocação e ter recursos”, conta Joffily.

Vale a pena conferir o documentário, para entender a origem de políticos experientes e suas ações, como a do governador de São Paulo, e a de mais de 80 deputados e senadores que desistiram ou doaram a entidades carentes seus salários da convocação extraordinária do Congresso Nacional - uma manobra obviamente eleitoreira, afinal estamos em ano de votação.