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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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CRÔNICA DA INEVITABILIDADE
O Segredo de Brokeback Mountain trata com honestidade a trajetória do amor entre dois caubóis
por Fábio Freire ( fábio_fcosta@hotmail.com )

Segredo de Brokeback Mountain é um típico filme hollywoodiano. Com uma narrativa clássica, personagens bem definidos dentro da estrutura do roteiro, uma direção competente e atuações acima da média. Não é de se estranhar, então, que, mesmo abordando um tema polêmico, a homossexualidade, o filme venha obtendo uma carreira bem sucedida nos cinemas. Uma trajetória, inclusive, cheia de prêmios, como o Leão de Ouro no Festival de Veneza, o Globo de Ouro de melhor filme dramático, direção e roteiro, além de várias indicações ao Bafta e ao conservador Oscar, incluindo melhor filme, direção e roteiro adaptado.

Em um período no qual as produções brigam pela alcunha de inovadoras e revolucionárias, O Segredo de Brokeback Mountain se destaca justamente pela ausência de pretensão em termos narrativos. Aqui não vemos efeitos especiais de última geração, tramas embaralhadas, edição picotada e fotografia estilizada. A direção de Ang Lee ( Razão e Sensibilidade , O Tigre e O Dragão ) é quadrada e funcional, evitando que o espectador se perca em maneirismos. O que importa no filme é o desenrolar de uma boa história contada com esmero e paixão.

E paixão é a mola mestra deste trabalho de Ang Lee. O filme narra a história de amor entre dois caubóis no sul dos Estados Unidos. Ennis Del Mar (Heath Ledger, de O Patriota e indicado ao Oscar de melhor ator) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal, que concorre como ator coadjuvante e visto recentemente no ótimo Soldado Anônimo ) se conhecem durante um trabalho na montanha Brokeback. Os dois são designados para cuidar de um rebanho de ovelhas. Entre fazer tarefas rotineiras, como matar coiotes e preparar o jantar, eles acabam mantendo um relacionamento que para ambos serve, inicialmente, apenas para aplacar a solidão que os dois sentem. Relacionamento que entre idas e vindas vai durar mais de 20 anos.

Uma das razões para o sucesso do filme é que o diretor Ang Lee, que já havia demonstrado talento para tratar da homossexualidade no simpático O Banquete de Casamento , evita cair nas armadilhas de se abordar um tema controverso. O que poderia dar muito pano para manga e resultar em acaloradas discussões, afinal o filme mexe com um dos grandes ícones do imaginário norte-americano, o caubói , sempre representado de forma viril e máscula pelo cinema, é filmado com grande sutileza e sensibilidade. Questões como preconceito e a não aceitação deixam de ser o mote principal do filme e são apenas pinceladas, abrindo espaço para assuntos mais universais, como os desencontros amorosos de duas pessoas que pensam e agem de formas diferentes.

Dessa forma, O Segredo de Brokeback Mountain foge do rótulo de filme gay restrito apenas a um público específico. O que pode incomodar esse mesmo público, já que, apesar dos atores se beijarem e demonstrarem carinho sem ressalvas, falta à produção um olhar mais gay, coisa que Pedro Almodóvar sabe fazer como ninguém. Um exemplo é a própria aproximação entre os dois caubóis, filmada de forma rápida e seca, o que pode levar o público a questionar a autenticidade do relacionamento.

Mas esse porém é compensado pela sintonia entre os atores, que conseguem transmitir veracidade a seus papéis, tornando crível uma relação baseada em sentimentos reprimidos. Heath Ledger é o caubói não assumido que destrói sua vida, a da mulher (vivida por Michelle Williams, da extinta série Dawson's Creek e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e do próprio amante Jack, que não esconde do parceiro a insatisfação por eles não poderem se relacionar de forma completa. A química entre os atores é, assim, um dos destaques da produção, que em nenhum momento julga o comportamento reprimido de Ennis ou o amor incondicional de Jack.

O Segredo de Brokeback Mountain é, então, um filme triste e melancólico, contado de forma lenta, embalado em uma bela fotografia e trilha sonora e sem a menor pretensão de levantar bandeiras ou debater causas. Ele narra apenas uma história de amor verdadeiro entre duas pessoas independente de qual o sexo delas.

Veja também a matéria de Luiz Andreghetto sobre O Segredo de Brokeback Mountain