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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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CORPO SANTO
Sanguinolenta e radical, a obra de David Cronenberg realiza a fusão entre o sublime e o grotesco, mostrando que nada é mais sagrado que a carne
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

avid Cronenberg é um diretor que não poupa o público da violência e de cenas nojentas. O filme que o colocou no mapa do cinema mundial, Scanners – Sua Mente Pode Destruir já mostrava cabeças explodindo. A Mosca, seu maior sucesso comercial, transformou o clássico camp A Mosca da Cabeça Branca em uma versão de A Metamorfose, de Kafka, através de efeitos especiais de revirar o estômago. E em seu mais recente filme, Marcas da Violência, mais impressionante que a explosão da violência são as suas consequências: Cronenberg mostra detalhes dos cadáveres e de suas mortes.

Mas toda esta violência e sangue não tem a função catártica que tem em outros filmes, como Dirty Harry ou Kill Bill. O mais importante para Cronenberg não é a violência em si, mas suas origens, e principalmente, seus efeitos. Mais importante que a força do soco, do tiro, da punhalada, é a marca que eles deixam no corpo – e, por conseguinte, na alma.

Os personagens principais de Cronenberg são sempre seres que descobrem, da pior maneira, a fragilidade de sua carne. Para o diretor canadense, não existe nada mais trágico para o ser humano que estar preso num invólucro (o corpo) que, mais cedo ou mais tarde, vai perecer. Se o esforço cotidiano da raça humana é no sentido de sobreviver (comer, trabalhar, fazer sexo) então o que David Cronenberg nos mostra é o martírio daqueles que não conseguiram, que ficaram para trás, presos em suas entranhas imperfeitas. A obra de Cronenberg é cheia de “Santos da Carne”.

De fato, nada é mais sagrado para Cronenberg que o corpo humano. Tanto que no final de Gêmeos – Mórbida Semelhança , a separação de almas entre os irmãos ginecologistas da história é sacramentada no consultório deles, como uma missa fúnebre, através da mutilação da carne. Beverly e Elliot querem voltar ao útero, onde não tinham que agir como dois; mas a impossibilidade deste desejo os mata. Na agonia de se tornar um, ambos perecem.

Este é o maior desejo de todos os personagens de Cronenberg: voltar a ser uma só entidade, inteiro, único, um. A filmografia de Cronenberg é feita de personagens marcados pela divisão: o cientista-cobaia de A Mosca; o junkie dividido entre dois planos da realidade em Almoço Nu, e o pacato dono de restaurante com um passado mafioso em Marcas da Violência. Todos seres cindidos que procuram a sua reconstituição, com ou sem sucesso: o cientista de A Mosca, no auge do filme, quer fundir a si mesmo com a mulher que carrega seu filho, versão macabra de Cronenberg para a Santíssima Trindade.

Este culto à carne não significa em suas histórias o desprezo da alma e das emoções. Não é porque lutam contra a destruição de seus corpos que os personagens de Cronenberg deixam de ter sentimentos, e isso é o mais pungente de suas histórias. A moral age dentro do personagem vencido pelo corpo, e, aos nossos olhos, ele se torna ainda mais humano. Não existe tragédia mais sublime do que o final de Gêmeos – Mórbida Semelhança, em que Beverly acorda sozinho gritando por seu irmão morto. Para Cronenberg, o homem pode mutilar seu corpo, mas não consegue aplacar sua consciência e sua fome emocional.