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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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A ESTRATÉGIA DA ARANHA
Teia de Orides Fontela junta modernismo e tradição clássica num dos livros de poesia mais belos e menos lidos da literatura brasileira
por Eduardo Harau ( eduardoharau@hotmail.com )

onta o mito que um dia Aracna, a filha de um tintureiro grego, desafiou Palas Atena, deusa da tecitura e da razão, não por achar-se superior, mas entender que só a si devia o talento de tecer e bordar. Atenas a advertiu, que fosse modesta ou enfrentaria a sua cólera. Aracna insultou a deusa que, transformada em velha, apresentou-se para o desafio. Atena (não por acaso, deusa das artes e da literatura) representou numa tapeçaria doze majestosos deuses do Olimpo; acrescentando como advertência, em quatro cantos, episódios mostrando a derrota dos mortais que tinham ousado desafiar os deuses. Aracna desenhou os amores vergonhosos dos deuses com mortais. O seu trabalho era perfeito, mas Atena, furiosa, rasgou-o e feriu a sua rival com a naveta. Ultrajada, Aracna se enforcou. Mas Atena não a deixou morrer e a transformou em aranha, que continua a fiar e a tecer na ponta do seu fio.

É com este mito que dialoga Teia , último livro da poeta paulista Orides Fontela. Nascida em 1940, na cidade de São João da Boa Vista, sua obra não é muito extensa, se resume a outros cinco livros: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1983), Trevo (1988), suficiente para colocá-la entre os melhores poetas brasileiros. Sessenta e sete poemas compõem seu Teia , de 1996, recortado em cinco capítulos/cantos: Fala, Axiomas, Galos (Noturnos), Figuras e Vésper (Finais); poemas curtos, mais sutis que incisivos, mas capturam o leitor, mosca no fio, belos em sua precisão.

Contraditoriamente, os poemas de Teia parecem vazados, incompletos, suspensos em sua fina tecitura: “fio tenso entre o vazio e o pleno.” A voz enunciadora é lacônica, um estranho pessimismo que perpassa toda poética de Orides nele se alastra. Não é resignação, não é dor, e dói. Orides fala por vácuos, fragmentos sobre um mundo que não se deixa apreender. A teia mínima de Fontela tenta cobri-lo, atar o que se perde. Sua teia é arma e armadilha, arte e artifício da natureza. Teia mapeia o descontínuo do mundo, fazendo de sua forma vaga e fragmentada a sua fôrma. Nela, Orides retrabalha a sua sempre inquieta mitologia, reorganizando elementos recorrentes: pássaro, espelho, sangue, fala e pedra; tecendo na linguagem particularíssima, considerações sobre o fazer poético e a existência.

Da derrota de Aracne depreendemos o esforço da poeta na criação de um fio tenso, entre a plenitude (a palavra, sua carne) e o vazio existencial (seu mote, e alma) decorrente do "fracasso" humano e da sua inadaptação com um mundo deveras mortal. A poética de Orides Fontela é gerada pelo embate de seu eu transgressor que aspira o divino e a realidade árdua dos homens: não há como desprender-se, aranha, dessa sociedade mundana e bruta, indiferente aos poetas. Sem Arcádia, Parnaso ou qualquer outro paraíso artificial para abrigá-la, resta a ela tecer:

“ Culpados / ou / cúmplices / nunca temos / álibe: // por força, estamos /aqui”. (“Policial”)

O “aqui” final, sendo o espaço da poesia, espaço inabalável em que nós leitores atuamos também, preenchendo espaços possíveis da teia: cúmplices.

Teia expressa uma melancólica aspiração à arte pura, melíflua e contraditoriamente arisca; apresentando, além disso, uma nostalgia helênica, dos deuses, desse conflito entre o mortal e o divino, e até da harmonia entre esses dois pólos que, dada a atração, se querem tocar:

“Um deus / olho / ôlho no / ôlho”

Foi a intersecção destes pólos que gerou tudo que é caro ao livro de Orides Fontela: o pensamento, a arte e a filosofia clássica – presente em “Exemplos”:

“Platão / fixando as formas / Heráclito / cultuando o fogo // Sócrates / fiel ao seu Daimon.”

Mas, porque a razão não aplaca nem leva a soluções plausíveis, táteis para indagações de ordem metafísica, ela se anula como voz e é toda encarnação sobre-humana da palavra fundadora (mas permanece o questionamento):

“Vemos por espelho / e enigma / (mas haverá outra forma / de ver?)”

Podemos também observar em Teia a metáfora do fazer poético. Tecer é escrever, trabalho árduo; e a aranha: o poeta. A teia - o poema - entrelaçado de um mínimo fio/verso, resistente, atraente, cuja função é abrigar no seu centro a aranha; ocultando o objetivo real: seduzir o inseto (o leitor?) para devorá-lo. A teia antes de tudo é útil à aranha. É a natureza da aranha tecer, não uma opção; se é bela, se seduz, não é acaso. O belo é sua estratégia de sedução:

“A teia, não / mágica / mas arma, armadilha // a teia, não / morta / mas sensitiva, vivente // a teia, não / arte / mas trabalho, tensa // a teia, não / virgem / mas intensamente // prenhe: // no / centro/ a aranha espera.” (“Teia”)

A aranha assume então a face da esfinge. Dessa consciência de devoradora, Orides engendra seus enigmas:

“Adivinha // O que é impalpável / mas / pesa // o que é sem rosto / mas / fere // o que é invisível / mas / dói.” (“Adivinha”)

Teia se afina com o espírito do epigrama: a linguagem predominantemente breve se caracteriza por um tipo de expressão a um só tempo sentenciosa e econômica se ligando a uma tradição que remonta à Alta Antigüidade Clássica. Assim, os poemas mais se aproximam do provérbio e do aforismo, deles se extremando, porém, pelo tipo de tom adotado por Orides, mais pessoal e menos generalizante:

“A vida é que nos tem: nada mais / temos.”

Ao traduzir Paladas de Alexandria , o maravilhoso José Paulo Paes, assim explicou este tipo de composição poética: “epigrama (de epi + grafo , “escrevo sobre”) significava originariamente a inscrição perpetuadora do nome do autor de uma obra de arte ou do doador de uma oferenda votiva. Servia a palavra inicialmente para designar a inscrição feita numa lápide sepulcral. Como essas inscrições eram usualmente em verso, por razões de ordem mnemônica e cultual ¾ duas características que desde cedo serviram para distinguir a linguagem poética da prosaica, ¾ não tardou o epigrama a ganhar autonomia e, deixando de lado sua função pragmática, passar a ser cultivado por si mesmo como artefato puramente artístico. Nasce então o epigrama literário.

Assim, encontramos em teia dois bons exemplos de epigramas literários:

“Passamos (e o Sol / Fenece). // Jamais haverá volta.” e

Não sou um deus, Graças a todos / os deuses! / Sou carne viva e / sal. Posso morrer.” ( “Teologia”)

O livro traz uma sondagem do tempo subjetivo (que se estende, em alguns casos à vida social concreta) com a desarticulação dos ritmos da tradição do verso e drástica negação do discurso ideológico a partir da consciência da linguagem:

“Falo de agrestes/ pássaros de sóis / que não se apagam / de inamovíveis / pedras // de sangue / vivo de estrelas / que não cessam. // Falo do que impede / o sono.” (“Fala”)

por essa razão, o eu-poético está representado por uma fala autobiográfica aparada na expressão de desdém com a função emotiva da linguagem; tanto auto-irônica quanto melancólica:

“Hamlet // ... mais filosofias / que coisas!” e “Carta // Da / vida / não se espera resposta”

Ante homens e deuses a explosão é a língua sob as línguas, o ritmo sob os ritmos, o som sob os sons; reverbera em tudo a frase do filósofo Wittgenstein: "O que não se pode falar deve-se calar"; reafirmação da impossibilidade de "dizer a dor que se sente”:

“Ver / o avesso / do sol o / ventre / do caos os / ossos. // Ver. Ver-se. / Não dizer nada.” (“Ver”)

Orides Fontela, em Teia, se apresenta fiel à tríade dos grandes poetas brasileiros (Drummond, Cabral e Bandeira); prova disto são os poemas que ressaltam a importância do cânone brasileiro, usando como recurso a metalinguagem como para reafirmar que a inquietação drumondiana (“Para C.D.A” e “Perdi o Bonde”), a precisão geométrica cabralina (“João” e “O pássaro- operário”) e a reinvenção do cotidiano de Bandeira (dada em Teia através do dito popular e da constatação súbita de uma realidade lírica) são elementos chave para criação de uma poética singular.

A força da poética de Orides Fontela resulta justamente dessa reelaboração da fala/canto a partir de uma tradição forte , ¾ que engloba desde a poesia clássica, filosófica, metafísica até a grande tradição poética brasileira; sempre a alcançar novos e belos significados. Alguns dirão que ela se repete, ou repete o modelo alheio no seu traçado intertextual. Um equívoco: Orides é a aranha que não se deixa aprisionar, e que segue, para olhos incautos, a tecer sempre a mesma teia.