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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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POLÍTICAS DA INTIMIDADE
Com sua poesia afiada, Ani DiFranco rejeita rótulos e se firma como fenômeno da música independente contemporânea
por Conrado Falbo ( conradofalbo@yahoo.com.br )

ma independente incansável. Assim poderia ser definida em poucas palavras a cantora/compositora americana Ani DiFranco. Acontece que poucas palavras podem enganar, sobretudo quando se trata de uma artista complexa e completa como esta.

Quando começou a chamar atenção nos circuitos alternativos dos Estados Unidos, no início da década de 90, foi logo identificada com o que lá se costuma chamar de folk singer , na melhor tradição de Bob Dylan, Joan Baez, Joni Mitchell e Woody Guthrie. Talvez fosse pelo violão de aço sempre à mão. Ou, quem sabe, pela temática engajada de algumas de suas letras.

A militância política fora dos palcos também ajudou na construção da persona pública de uma “cantora de protesto”. A ponto de suas canções serem entoadas por vários grupos (organizados ou não) como palavras de ordem contra esta outra ordem: a estabelecida.

Ani é um raro exemplo de cantora que conseguiu conduzir a carreira em seus próprios termos, o que significou driblar as duras regras do mercado fonográfico para construir um trabalho verdadeiro e consistente. Dona do selo fonográfico Righteous Babe Records, que fundou após recusar várias ofertas de contrato com grandes gravadoras, ela atingiu um grau de independência singular, podendo responder pessoalmente pela totalidade do que produz. E a produção, no seu caso, engloba a composição das canções, elaboração dos arranjos e sua execução (tocando vários instrumentos), supervisão do processo de gravação, mixagem e escolha do trabalho de arte das capas. Em todas as etapas onde há criação, lá está DiFranco a se fazer ouvir, literalmente e em todos os outros sentidos.

Não sem certa relutância, Ani hoje confessa ser mesmo uma... folk singer . A declaração, feita em um show, longe de ser um “auto-diagnóstico”, significa mais uma forma de se livrar das tentativas de caber em um rótulo para passar a questões mais importantes, como simplesmente fazer música.

Sua obra - mais de dezessete discos entre gravações de estúdio e ao vivo, com uma média de pelo menos um novo lançamento por ano - reúne uma mistura interessante de sonoridades e facetas poéticas. Dos primeiros registros, simples e intimistas, aos mais recentes, experimentando com novas formações instrumentais, o núcleo musical sempre permaneceu na voz e no violão. Sem deixar de lado a inventiva instrumentista e melodista, não se pode esquecer a parcela essencial da identidade artística de seu trabalho que está no que ela escreve.

Num primeiro exame, é fácil notar que o cotidiano é seu principal motor de inspiração. É quase como se trechos de um diário pessoal fossem musicados, assim mesmo, em estado bruto, alinhavados apenas pela música. Essa característica lhe rendeu um público cativo e numeroso, plenamente identificado com seus dilemas íntimos. Aliás, Ani já disse se sentir incomodada ao ouvir suas confissões repetidas de cor pela platéia. Paradoxalmente, ou não, reclamações como esta também já foram transformadas em músicas, que continuam a ser cantadas por seu público fiel, shows afora.

Talvez o traço fundamental das letras de Ani DiFranco não deva ser buscado nos temas que escolhe, mas sim no tratamento que consegue dar a estas matérias primas. Em seus momentos mais combativos, nunca chega a ser panfletária, mas, mesmo quando se derrama em lirismo, não deixa de lado sua pena afiada. A verdade é que, quase sempre, fica difícil separar estes dois momentos nas canções: argumentos contundentes se misturam a segredos de pé-de-ouvido com uma facilidade surpreendente.

Ao reclamar de um relacionamento amoroso frustrado, ela termina por criticar todo o modo de vida de uma sociedade que cultiva a superficialidade e despreza laços mais profundos, complicados demais para o pragmatismo atual. É esse o salto prodigioso que a letrista arrisca sempre em suas canções, apagando os limites entre público e privado.

Mais que isso, ela transcende fronteiras expondo a inexistência das mesmas: somos forçados a encarar nossos espaços indeterminados, as áreas cinzentas que nos rodeiam. Esta é a razão pela qual nunca será suficiente classificar Ani DiFranco de acordo com sua posição política; sua condição feminina; sua (hetero/homo/bi) sexualidade ou o qualquer outro tipo de “bandeira”. Sua maneira de ser libertária não cabe em guetos. O verdadeiro manifesto político presente em seu trabalho é mesmo a grande ousadia de se reconhecer humana, num mundo cada vez mais afastado desta natureza.