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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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LUTAR OU ACEITAR?
Corrupção, sonhos e ideais são temas da comédia Operação Abafa , de Marcos Caruso e Jandira Martini
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

Fotos João Caldas


ano é 1968. Seis estudantes participam de uma passeata contra a ditadura militar que massacra o Brasil, impondo a censura e a violência a quem se levantasse contra o regime anárquico dos generais. Amigos idealistas, Henrique (Marcos Caruso), Elizinha (Tânia Bondezan), Edu (Miguel Magno), Maria Clara (Jandira Martini) e Ciça (Noemi Marinho) sonhavam com um Brasil melhor, livre dos militares e com mais justiça social. Passados quase 30 anos, os jovens envelheceram, arrumaram empregos burocráticos e deixaram de lado seus desejos de igualdade para enfrentarem a dura realidade de um país já sem a ditadura de farda, mas envolto em diversas outras formas de limitação ao ser humano. Tudo o que restou foi uma foto daquela passeata na sala do apartamento que um dia foi uma república daqueles estudantes. O país não melhorou e a miséria e a corrupção prosseguem no cenário midiático. Na pindaíba, eles recebem uma proposta milionária de um publicitário chamado Sandoval (Francarlos Reis) para fazerem uma propaganda pró-governo, aproveitando o gancho de jovens que lutaram pelo progresso e hoje estariam “satisfeitos” com os resultados alcançados. O que fazer?, diria um certo revolucionário russo. Ceder à chantagem governista por um trocado e desfazer de seus ideais pela janela, ou morrer com eles em troca da miséria?

Essa discussão é feita na comédia Operação Abafa , de Jandira Martini e Marcos Caruso, que estreou no último dia 18 de janeiro e ficará em cartaz até o dia 30 de abril no Teatro Vivo, na zona sul de São Paulo. O tema é tão recorrente que parece que o espetáculo foi concebido agora, em meio às ondas de denúncia de corrupção. Mas engana-se quem pensou isso. Sem citar nomes de partidos ou pessoas, o texto foi escrito em 2001, sob inspiração da investigação feita sobre a suposta compra de votos no Congresso Nacional para a aprovação da emenda constitucional que liberou a possibilidade do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, se reeleger em 1998. A “culpa” pela atualidade do espetáculo não está em si próprio e sim na recorrência da corrupção ao longo da história da política brasileira. “A peça só desatualiza se o país mudar, se as pessoas cobrarem e participarem ativamente da vida brasileira. Há tempos temos políticos corruptos e problemas no país”, afirma Jandira.

O texto ficou engavetado por cinco anos devido a participação de Jandira e Caruso em outros trabalhos, caso da primeira na novela América , encarnando a personagem Odaléia, e do segundo com a peça Intimidade Indecente , que ficou quatro anos em cartaz. Mas o momento atual da política no país deu um empurrãozinho para que essa peça fosse prioridade: “Apesar dela não tratar especificamente de ninguém, como estávamos vivendo essa onda de escândalos achamos que era hora de montar a peça”, diz Caruso.

A parceria entre os dois já dura 21 anos, com trabalhos feitos no teatro (como Porca Miséria e Os Reis do Improviso ), televisão (caso da novela Ana Raio e Zé Trovão ) e até cinema, com o filme Casamento de Romeu e Julieta . No teatro os temas são sempre políticos, mas também regados com muito humor. “É a melhor forma para as pessoas pensarem sobre, com bom humor. Pois se tratarmos como uma situação grave e trágica, como os jornais e a televisão, você apenas faz cópia da realidade, nós não queremos isso”, justifica Caruso. Jandira concorda: “Até porque tratar com seriedade vira tese e deixa de ser teatro, porque não apenas devemos nos divertir, as pessoas precisam refletir, e a comédia é o melhor meio para isso, porque ela é subversiva, corrosiva, anárquica. As pessoas que assistem a peça ficam felizes de alguém dizer aquilo que elas gostariam”.

O fato dos assuntos serem sempre políticos ocorre da necessidade de ambos dizerem aquilo que sentem como cidadãos, daí escolhe-se o tema a partir dessa prerrogativa para depois realizar a criação da história, dos personagens. Em dupla, há um componente diferente: “Uma vez criados esses personagens nós dividimos a estrutura da peça em cenas e cada um vai para a sua casa e escreve seu texto. Depois de um prazo juntamos os textos e pegamos os melhores momentos de cada um”, explica Caruso. “E como também somos atores usamos muita improvisação nos diálogos e é divertido porque podemos criar, brincamos muito”, acrescenta Jandira.

Os jovens e os sonhos

Fotos João Caldas

Esse cenário entre os ideais e sonhos do passado e a triste realidade do presente; entre o que você conseguiu fazer para alcançar seus objetivos, as barreiras que foram colocadas na sua frente e a adesão ao que a sociedade é atualmente, indo contra seus pensamentos mais firmes, é um conflito interessante que necessita de um debate maior nos dias de hoje - e que o espetáculo o faz muito bem -, em que a ética e o idealismo parecem crimes, ao passo que a corrupção e a promiscuidade são vistas como algo normal. “Eu acho que a peça pode ser transposta para qualquer profissão ou situação. Todo mundo se depara com o jeitinho brasileiro, mas nós compactuamos isso, somos coniventes. Todos sabem que há coisas aqui que só funcionam com propina, mas ninguém se rebela”, critica Jandira. “A idéia é ter a reflexão não apenas na hora ou depois do espetáculo, enquanto se come uma pizza. Mas sim no dia a dia das pessoas, quando enfrentam uma realidade de você abrir mão de um sonho para ganhar mais dinheiro, aí você pensa na peça e até que ponto vale a pena lutar”, diz Caruso.

Caruso analisa esse paradoxo entre o jovem idealista e o adulto descrente ao colocar que os jovens possuem dois sonhos, um individual e outro coletivo. No caso de Operação Abafa , os personagens possuem como sonho pessoal vencer na vida, conseguir uma profissão. Já o coletivo está num país mais justo e menos violento, como era na ditadura militar. Muitos anos depois eles se deparam com o país que não idealizaram e seus desejos individuais desfeitos, sem profissão, sem dinheiro, sem perspectiva de vida. O fato de o espetáculo ser atemporal fica claro no paralelo que Caruso traça entre os jovens dos anos 60 com os caras-pintadas dos anos 90, que ajudaram a conseguir o impeachment o ex-presidente Fernando Collor de Melo e também vivem esse problema. “Quando em 1992 eles saíram às ruas para depor o presidente, imaginavam um país melhor. E hoje, eles têm um mercado de trabalho digno e conseguiram ter seus sonhos de país melhor realizados? O pano de fundo é dos anos 60, mas poderia ser dos anos 90 e qualquer outra época”, atesta.

Até por isso os jovens se tornam um de seus melhores públicos, pois eles têm se emocionado e refletido bastante, segundo Caruso, enquanto o público acima dos 60 anos ri muito porque já viveu essa experiência, e aqueles entre 30 e 50 se emocionam porque ainda vivem aquela dificuldade toda. “Quando as pessoas comentam depois da peça que os jovens, quem está na faculdade, precisam ver o espetáculo, e que está nas mãos dos jovens o futuro, pode parecer óbvio, até uma frase feita, mas quando é dito por um jovem valeu a pena nosso trabalho”, comemora.

Fotos João Caldas

O espetáculo mostra ser possível manter seus sonhos mesmo depois de adulto e mesmo sem ter mais toda a condição de buscá-los. “Eu acho que mesmo depois de deixar de ser jovem, dentro de si o sonho ainda existe, você não mata o sonho, você esconde, mesmo quando você tem que esquecer dele, e por isso as pessoas se emocionam com a peça”, acredita Jandira. Ela avalia que abandonar seus sonhos é um “suicídio em vida” e crê que as pessoas devem continuar tentando, mesmo nesses casos complicados como corrupção, mau governo, que são causa difíceis de enfrentar. “O que queremos passar com a peça é que não se deve desistir. Muitas pessoas dizem estar indignadas, pasmas, mas só isso não basta, precisa haver uma reação, algo precisa ser feito contra isso”, finaliza Jandira.

Serviço
Operação Abafa. 70 minutos. Livre.
Até 30 de abril de 2006
Preço: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia)
Quinta e sexta às 21h30. Sábados às 21h e domingos às 18h
Teatro Vivo – Av. Chucri Zaidan, 860 – Morumbi – São Paulo
Telefone: (11) 3188-4147