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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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MERCELEZA REVÊ MARCELO NOVA
Autoral, existencialista e autobiográfico, o último disco de Marcelo Nova é um acerto de contas do artista com ele mesmo
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

pós 13 anos Marcelo Nova está de volta com um disco de músicas inéditas. O Galope do tempo , nome de seu último rebento, traz de volta o rock'n' roll visceral e pulsante do ex-líder da lendária banda Camisa de Vênus.

Totalmente autoral e autobiográfico, o disco traz boas doses de melancolia e saudosismo ao rock básico e clássico de Nova. Tudo isso, é claro, regado a muitos solos de guitarra e piano. Sem abdicar da pegada rock'n'roll que caracteriza sua carreira solo, em O galope do tempo o artista se empenha em escrever letras densas, com conteúdo e lirismo. Exatamente como Bob Dylan, herói maior do cantor baiano – Marceleza é um dos maiores colecionadores de discos do norte-americano no Brasil. Marcelo dá ênfase às letras quilométricas, que contam, cada uma em separado, um pouco de sua história na música e fora dela. Gerado com esmero e sacrifício, conforme o próprio autor relata no encarte do CD, o disco a todo o momento traz referências sobre a difícil tarefa de enfrentar o tempo e entender a complexidade da vida.

Em “Outubro de 65”, uma das melhores músicas do álbum, Marceleza relembra a infância na Bahia, repleta de DKVs e sonhos pueris. Já a faixa-título, entre muitas metáforas, fala sobre a trajetória de alguém que insiste em desafiar o tempo sem, no entanto, compreender sua lógica. Algumas canções têm letras bastante poéticas que, parece, foram primeiramente pensadas como poemas em prosa e só mais tarde transformadas em canções. “A torre escura” é um exemplo. Nela o cantor esquece que ao fundo de sua voz rola uma melodia e vai simplesmente despejando as letras para fora, declamando os versos à sua frente.

O galope do tempo é, de certa maneira, um acerto de contas de Marcelo Nova consigo mesmo. Os acertos e erros de uma carreira longínqua e cheia de altos e baixos estão ali, em forma de texto, solos de guitarra e letras que resumem o sentimento de um homem perante o próprio destino e trabalho.

Ainda que algumas canções tragam pitadas de irreverência que lembram músicas da época do Camisa de Vênus, este é o disco mais sério de Marcelo Nova. As sacanagens contidas em faixas como “Silvia” e “Eu não matei Joana D'arc” ficaram para traz. Aqui o compositor prefere revisar sua trajetória como artista, rever seus atos e olhar para o futuro com serenidade. O Galope do Tempo é também o álbum mais maduro de Marceleza. O garoto porra-louca ficou nos anos 1980, agora é hora de exercitar o cérebro.

Desde que se lançou em carreira solo, em 1988, logo após o fim do Camisa, o artista sempre consegui produzir bons discos. Ainda que ignorado pela grande mídia, salvo raras aparições na MTv brasileira, o ex-parceiro de Raul Seixas, a cada novo projeto, compunha músicas que viravam clássicos aos olhos do seu seleto séqüito de fãs. “Estranho no ninho”, “A garota da motocicleta” e “Coração satânico”, do disco A sessão sem fim , lançado em 1994, foram alguns dos petardos que viraram essenciais nas apresentações de Marcelo Nova. Já em O Galope do Tempo são poucas as músicas com tal apelo pop e, por conseqüência, com chances de virar hit – é sempre difícil falar em hit quando se comenta um trabalho de Marcelo Nova, já que todos os seus clássicos são, digamos, anti-comerciais. Isto porque Nova opta por textos longos, sem refrões fáceis e apelativos. Não há concessões. Marceleza prefere homenagear artistas impopulares como o cineasta Luis Buñuel, em “O fantasma de Luis Buñuel”, e o escritor inglês Aldous Huxley, na dançante “Ninguém vai sair vivo daqui”. Nesta última o cantor narra o momento em que é apresentado, pela primeira vez, ao livro “As portas da percepção”, obra-prima de Huxley.

É claro que nem todas as músicas mantém o mesmo nível de excelência. Algumas podem soar um pouco enfadonhas na primeira audição – a sempre perigosa primeira audição. Este é o risco de se realizar um disco com muitas canções – 16, no caso. Mas com certeza Marceleza sai ileso dos pequenos e inevitáveis equívocos. Auxiliado pelo multiinstrumentista e fiel escudeiro Johnny Boy – a banda conta ainda com Denis Mendes na bateria e Lu Stopa no baixo (ex-Magazine) –, em O Galope... o artista baiano constrói uma obra coerente com sua história, idéias e ideais.

Se Marcelo Nova fosse um realizador da sétima arte e não um cantor de rock, certamente seria considerado um diretor afinado com o que a crítica chama de cinema de autor. Depois de experimentar, ainda que de modo fugaz, a exposição na grande mídia, no começo dos anos 1980, quando o Camisa explodiu nas rádios com hits pouco ortodoxos, Marceleza sempre correu por fora no mercado fonográfico. É, sob este aspecto, um artista maldito. Um maldito que, assim como Walter Franco, outro titã do submundo, nunca perdeu a noção de seu talento e sempre acreditou, acima de tudo, na arte.

O disco termina exatamente como começa, ou seja, falando do passado e do futuro que virá. Existencialista até o cerne, o álbum fecha com uma canção que lembra muito “Quando eu morri”, clássico do disco Panela do diabo , último registro fonográfico de Raul Seixas. “A canção da morte” é a música certa para o disco certo. Nela Marceleza parece se despedir de seus entes ao dizer: Hei vizinha morte, sinto o seu ruído / Irmã morte, doce o seu gemido / Hei pássaro morte, bata as suas asas / A mante morte, sua cova é rasa/ Amiga morte eu vou para casa/ Velho avô morte/ Seu cheiro não esqueço/ Professora morte, eu lhe agradeço/ Por me mostrar, tudo tem preço/ Hei pai morte, mais um adeus/ Você fez, então, meu Deus/ Seus traços agora... são meus. A balada é de arrepiar. Ao som de uma guitarra tocada bem baixinha e dedilhada, Marcelo fala do fim que um dia, com certeza, virá para todos.

Em poucas palavras, O g alope do tempo é um álbum de impacto. É o trabalho da maturidade de um rocker já veterano. No qual o artista revê o homem por meio de sua obra. Com um disco tão bom, o que se espera é que todas as referências e alusões à morte não passem de pura retórica. Que o velho Marceleza não esmoreça e nos brinde com belas canções por mais tempo.