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15 a 30 de março de 2006

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FICÇÃO É POSSÍVEL
História de amor é imagem central de história espírita em E Se Fosse Verdade...
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

os últimos tempos as obras de ficção atingiram horizontes impensados até tempos atrás, ao trazer aspectos da religiosidade e do imponderável para dentro de suas páginas. Claro, por se tratar de uma história ficcional, toda e qualquer situação, em tese, é permitida e aceita. No entanto, dentro desse balaio pseudo-religioso, mais próximo da auto-ajuda, obras de cunho espírita tem ganhado espaço cada vez mais cativo nos leitores brasileiros: como exemplo, é só prestar a atenção nos vagões do metrô de São Paulo que, em cada cinco livros carregados pelos passageiros, quatro são da leva de Zíbia Gasparetto e companhia.

Uma possibilidade para compreender o crescimento dessa forma de escrever pode estar justamente nesse flerte com o “tudo pode acontecer”, em que almas, espíritos, outras dimensões, planos superiores, convivem com vidas terrenas. Mas qual o interesse das pessoas nisso? Todos. Isso porque, a falta de explicação plausível para a existência humana, divina e a busca eterna por uma vida após a morte – já que ninguém quer achar que a morte encerra tudo – faz com que o desejo dos humanos em encontrar o seu lugar num mundo além da possibilidade física atual se conecte, senão com a realidade, pelo menos com a urgência das pessoas em acreditar em algo do gênero. Afinal, os argumentos (como em qualquer religião ou teoria) são carregados de lógica e de apelos emocionais para o medo do fim da humanidade após os sinais vitais se esvaírem.

Esse contexto do “tudo é possível” e “há vida depois da morte”, aliado a uma história de amor bem escrita e que se aproxime de um cotidiano de classe média, sem as preocupações de emprego, renda e eteceteras, que enchem a paciência das pessoas e dos abastados, compõe um cardápio ideal para consumo. Dentro desse contexto, o livro E Se Fosse Verdade... (Bertrand Brasil), do autor Marc Levy, obtém um bom conceito, pois se trata de uma narrativa muito bem elaborada, que leva o leitor a devorar cada página com voracidade e rapidez. A história se dá em São Francisco, Estados Unidos, em que uma mulher (Lauren), após um acidente de automóvel, fica entre a vida e a morte num hospital, e aparece para um arquiteto (Arthur) como se fosse uma alma penada, que tenta convencer o jovem homem de que ele não ficou louco, e que precisa ajudar a moça a sair do coma.

Apesar de toda essa ligação com o “além”, Marc Levy é arquiteto (para a narrativa parecer ainda mais real) e começou a escrever somente aos 39 anos, mas com extremo sucesso, tendo este livro ficado em primeiro lugar em todas as listas de mais vendidos na França durante um ano. Entre os outros títulos escritos por ele estão Onde Você Está? , Sete Dias Para Uma Eternidade... e Da Próxima Vez . Só pelos nomes já é possível perceber suas temáticas. Sem precisar ser espírita, Levy trata da questão da alma humana com rara delicadeza, sem a necessidade de apelar tanto para elementos do além, já que ele foca suas narrativas em romances simples e saborosos, na visão dos apaixonados, como no caso de E Se Fosse Verdade , que acabou até virando inspiração para a sua transposição às telas do cinema no ano passado.

A trama avança nessa busca frenética contra o tempo, para que os aparelhos que mantém Lauren viva não sejam desligados e ela consiga sobreviver. O envolvimento é tão grande que ambos se apaixonam e vivem um amor carnal e espiritual, entre corpo e alma se entrelaçando como na capa do álbum Sleeping With Ghosts, do Placebo, em que um homem abraça algo como se fosse uma espécie de fantasminha camarada, assim como no clipe da música de mesmo nome, em que homem e mulher fazem amor, mesmo estando em locais diferentes e distantes, sentindo os corpos como se estivessem lado a lado, representado pelas suas almas que se “tocam”.

Para aprofundar ainda o romance temperado com pitadas espíritas, a cada tentativa de Arthur para explicar a outras pessoas sobre esse imbróglio, ele se sai com uma longa frase que começa assim: “O que eu vou te contar não é fácil de entender, é impossível de aceitar...”. Ou seja, o autor deixa totalmente em aberto a possibilidade ao interlocutor na história de aceitar ou não tal “loucura”, como é para seu melhor amigo, Paul. Mas isso não acontece com o leitor, pois uma frase como essa já impõe, para quem lê, a obrigatoriedade de crer numa situação como essa, pois, caso contrário, não faria sentido deglutir as folhas do livro.

Trata-se de uma bela armadilha para um desavisado que abre o texto e não se apercebe da quimera em que é levado. Já para quem é fã declarado desse tipo de obra acaba por se identificar sobremaneira ao fato de que o amor perfeito que os poetas sonharam no passado e a eternidade, pelo menos em espírito, são palpáveis para um simples humano. Levando-se em conta tais aspectos, como peça literária em si destinada para tal fim, é um bom instrumento para consumo imediato. Nada mais normal, afinal, hoje, qualquer livro que quebre a cabeça é visto como chato e “fora de moda”. Fugindo disso e, dentro de seus propósitos, E Se Fosse Verdade... funciona tanto como um romance bem construído como matéria de propaganda espírita.