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15 a 30 de março de 2006

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CRIMES CAPITAIS
Jogos Mortais aposta no óbvio e mais parece um videoclipe ruim de rock pesado
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

ogos Mortais é um filme doentio. E isso não é elogio. A história até parte de uma premissa interessante ao jogar o espectador sem concessões no meio de uma trama macabra sobre os limites éticos do ser humano diante da possibilidade da morte. Duas pessoas acordam acorrentadas em um banheiro imundo. Elas não se conhecem e nem sabem por que estão lá. A condição para que uma delas saia dali com vida é que ela mate sem culpa o companheiro de infortúnio. A originalidade de Jogos Mortais acaba nessa primeira cena e o que poderia render um bom filme escorre pelo ralo graças a uma direção amadora e um roteiro mais preocupado em pregar peças no espectador.

Seguindo a cartilha dos videoclipes de rock pesado, o diretor James Wan (que também assina o roteiro) se perde em maneirismos gratuitos. A fotografia é escura demais e mal dá para ver o que acontece. A montagem é acelerada e recheada de flashbacks que tentam esconder a narrativa linear e quadrada do filme. A direção de arte suja segue a escola iniciada por O Silêncio dos Inocentes e Seven , duas produções que reinventaram o subgênero dos serial killers nos anos noventa e geraram uma verdadeira leva de filhotes de todos os orçamentos. Já a trilha sonora aposta no óbvio: o rock alternativo de bandas desconhecidas e ruins. Querendo dar ao filme uma aura “modernosa”, o diretor limita sua produção aos fãs dos videoclipes do Marilyn Manson e do Korn.

Se esteticamente falando o filme é um fracasso, cinematograficamente as coisas não são diferentes. Jogos Mortais é um amontoado de clichês e segue a risca a fórmula dos filmes de suspense com uma penca de reviravoltas sem sentido. Até daria para perdoar alguns furos do roteiro de James Wan e Leigh Whannell (que também atua no longa) se as reviravoltas fossem melhor estruturadas e conduzidas pela direção. Mas não é isso que acontece e a profusão de flashbacks só piora tudo. Na verdade, falta a Wan o talento de Jonathan Demme ou David Fincher para sugerir ao invés de simplesmente mostrar cenas bizarras e desconexas. Outro problema grave são as personagens, mal desenvolvidas e esquemáticas.

O elenco também deixa a desejar. Carl Elwes (que já foi o serial killer da vez em Beijos que Matam ) nem parece que teve sua mulher (Monica Potter) e filha seqüestradas e passa o filme todo com um semblante de tranqüilidade que não convence. Danny Glover, que interpreta um policial obcecado pela prisão do assassino, afunda solenemente e nos faz ter saudade da época em que era um policial de respeito na série Máquina Mortífera . No quesito atuação quem se sai melhor é o co-roteirista Leigh Whannell, que pode não saber escrever, mas passa o desespero necessário da personagem.

Como se tudo isso não fosse o bastante, o filme ainda é moralmente discutível ao fazer o espectador sentir prazer com as atrocidades mostradas na tela. Por mais incrível que pareça, Jogos Mortais foi um sucesso, agradando inclusive parte da crítica com seu final em aberto ridículo. A continuação do filme estreou no ano passado e fez mais sucesso ainda e um terceiro já está a caminho. Apesar de toda a publicidade em torno do filme, vendido como o “novo” Seven , a única coisa que assusta na produção é sua ruindade. Gosto realmente não se discute, mas mau gosto por mau gosto, eu fico com os videoclipes do Marilyn Manson, que pelo menos são mais honestos com seu público.