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15 a 30 de março de 2006

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SEXO CRIMINOSO
Traumas do passado associados à pedofilia são retratados no tocante e assustador Mistérios da Carne
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

onsiderada um desvio sexual, a pedofilia, é um assunto que vem ganhando mais visibilidade pelos escândalos que estão ocorrendo com diversos integrantes do clero da Igreja Católica. De acordo com O Livro de Ouro do Sexo , de Regina Navarro Lins e Flávio Braga, a pedofilia consiste em sentir atração sexual por crianças e pré-adolescentes. As conseqüências dessa atração podem se configurar em  abusos, geralmente praticados por homens pelo menos seis anos mais velhos que a vítima (em casos de jovens com até 18 anos) e  ocorrem em todas as classes sociais, sem distinção de cor, raça ou credo.

Quando mais velhos, com idade que variam entre 35 e 45 anos, esses adultos molestam seus próprios filhos, de amigos ou de vizinhos, e a diferença de idade passa a ser muito maior. É crime, mesmo quando praticado com o consentimento da vítima , pois envolve crianças em formação que ainda não possuem experiência para que saibam o que estão fazendo e, na maioria das vezes, são forçadas a atos que, subseqüentemente, criam muitos traumas e confusões emocionais.

Por ser uma condição estigmatizada e criminosa a pedofilia é extremamente ocultada, mas ao longo da história, diversos episódios, inclusive envolvendo gente famosa, foram descobertos. Lewis Carroll, autor do clássico Alice no país das maravilhas , tem seu nome associado à essa pratica, pois adorava fotografar meninas em poses sensuais, mas nunca ouve queixa de que tenha tentado algum contato sexual com elas. O diretor polonês Roman Polanski é proibido de pisar nos Estados Unidos por conta de um escândalo, que ocorreu nos anos 70, quando foi acusado de manter relações sexuais com uma adolescente.

Assunto polêmico por natureza, a pedofilia pode se tornar um terreno perigoso e complexo para que alguns diretores se aventurem por ele, pois, por melhores que sejam as intenções, o menor deslize pode resvalar na pieguice ou em uma abordagem simplista do tema. Além de Lolita - a mais famosa ninfeta da literatura mundial, e grande exemplo de pedofilia e paixão, que já foi adaptada duas vezes para o cinema (em 1962 por Stanley Kubrick e em 1996 por Adrian Lyne) -, outros filmes tentam lançar alguma luz sobre esse universo.

O primeiro a abordar o assunto de uma forma forte e contundente foi Pretty Baby – Menina Bonita , em 1978, dirigido pelo francês Louis Malle, que mostrava o universo da prostituição infantil em um bordel do começo do século e lançava, a então ninfeta, Brooke Shields ao estrelato. Recentemente o tema tem recebido olhares mais atentos e diversificados. Todd Solondz, diretor americano independente, mostra a relação de um pai pedófilo e o filho pré-adolescente que começa a perguntar sobre sexo no triste e irônico Felicidade (1998).

A visão de um pedófilo que sai da cadeia e tenta restabelecer a vida e precisa conter os seus desejos está no sensível e honesto O Lenhador (2004). Pedro Almodóvar, habitué em temas polêmicos, põe a sociedade em alerta ao mostrar a paixão de um padre por um de seus alunos em um colégio interno católico em A Má Educação (2004). Não poderia faltar também um cineasta que mais mostra adolescentes em cenas sensuais e de sexo do que discute a relação de pedofilia presente em seus filmes: Larry Clak, que pode ser visto como um "pseudo-pedófilo", que se "diverte" em mostrar atos sexuais com jovens, que parecem ser bem mais novos do que realmente são, em Kids (1995), Bully (2001) e Ken Park (2002).

Mas quem consegue a proeza de retratar crianças que sofreram abusos sexuais na infância, sem ser piegas, melodramático e maniqueísta é Gregg Araki no tocante e sensível Mistérios da Carne (Mysterious Skin, 2004) . Araki foge das lições de moral tão propícias a esse tipo de história e traça um perfil de uma juventude carente, apática e abandonada aos cuidados de pais omissos e fracos. Além disso, o diretor aborda também o outro lado da história: quando há consentimento da vítima.

Com roteiro do próprio diretor, baseado no livro de Scott Heim, Mysterious Skin , o filme narra a história de dois garotos que aos oito anos de idade sofreram abuso sexual. Brian (Brady Corbet) cresce tendo desmaios e lapsos de memória que faz com que ele apague da mente e negue a si mesmo o que aconteceu. Neil (Joseph Gordon-Levitt, o magrelo adolescente da série 3rd. Rock From the Sun , em uma interpretação corajosa e visceral), narrador da história, diz sentir desejos sexuais desde tenra idade e se faz desejado para que o treinador de beisebol da escola se interesse por ele.

Ambos encontram maneiras diferentes de absorver a experiência: Brian prefere a negação e se torna um jovem tímido e assexuado que acredita ter sido abduzido por extraterrestres na infância nos intervalos de tempo que as lacunas na memória são manifestadas, enquanto Neil se torna um garoto de programa que faz michê com homens mais velhos no playground da cidade. Ele se esforça para ser forte e independente e manter as pessoas que lhe interessam ao seu redor, mesmo que para isso tenha que ignorar a paixão de seus dois únicos amigos .

Se Neil exala sexualidade e faz do corpo sustento para a vida, Brian, por sua vez, recolhe-se em um mundo de fantasia, onde acreditar em óvnis e abdução é muito mais coerente que crer até onde o desejo humano pode se manifestar. O relacionamento que Brian tem com uma menina que também acredita ter sido abduzida é extremamente desconcertante, mostrando até onde as pessoas podem ir para fugir de uma lembrança dolorosa.

Com dois personagens afetados pelo mesmo problema e de personalidades tão desiguais entre si, Araki permite discutir até onde os dois se tornaram o que são por causa dos traumas do passado. Sem respostas fáceis ou prontas Araki tece um painel de conflitos que resulta em tentar entender até que ponto Brian ser assexuado e Neil ser gay e garoto de programa são ou não decorrentes do abuso sofrido.

Egresso do cinema independente americano Araki teve uma carreira singular iniciada com filmes de temática forte e de alta carga sexual. Seus trabalhos mais conhecidos são The Living End (1992), Totally Fuckeed up (1993), ambos inéditos no Brasil, seguidos de Geração Maldita (The Doom Generation, 1995), Nowhere (1997) e Splendor (1999). Mas, com Mistérios da carne , parece que Gregg Araki atingiu sua maturidade, apresentando um filme ora cruel, ora poético, com um final que surpreende ao colocar ambos os personagens buscando conforto entre si para elucidar seus traumas e ainda achar lugar para a esperança e a honestidade.

Em um mundo em que a internet se tornou uma moradia segura para a pedofilia anônima, Mistérios da Carne lança uma pequena luz no fim do túnel de um problema complexo e aparentemente sem fim, fato que por si só já eleva a obra a um patamar digno de atenção. Assusta, enoja, surpreende e emociona.