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15 a 30 de março de 2006

Equipe Ediηυes Anteriores

AS PEDRAS AINDA ROLAM
Em entrevista inédita – e fictícia – Mick Jagger e Keith Richards falam sobre a longevidade do Stones e as quatro décadas de muita loucura, safadezas e... música
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

terceira visita dos Rolling Stones – para tocar – ao Brasil tem tudo para ser a última. É verdade que esta frase é dita desde 1995, quando pela primeira vez os já velhinhos roqueiros aportaram por aqui para fazer um som. Mesmo assim, é melhor não confiar na sorte; afinal, Mick e Keith têm 62, Charlie 64 e o caçula Ronnie, singelos 58 aninhos.

Foi justamente a idade dos integrantes da banda, o tipo de vida levado por eles em 40 anos de atividade musical, somado à temerária idéia de nunca mais ter a oportunidade de conversar com os integrantes da maior banda do planeta (sim, Bob Dylan e os Beatles que me desculpem, mas eles são os maiores), que surgiu a idéia de entrevistar a dupla mais notória do rock'n'roll: Richards e Jagger.

Aqui guardo o direito de não revelar quais foram os artifícios que desprendi para conseguir pôr em prática a magnífica empreitada. Utilizo-me de superlativos para descrever a trip porque não trabalho em suplemento cultural de nenhum grande jornal do esquema Rio-São Paulo; não sou nenhum artista plástico do terceiro mundo que ganhou fama em Nova Iorque e é admirado pela banda; e também não sou escritor maldito que esteve com Mick Jagger no verão do amor em São Francisco. Pelo contrário, conheci o som da banda quando seus integrantes já tinham algumas décadas de estrada – e drogas – no currículo. Por isso enfatizo que a entrevista é, sim, um feito.

O fato é ainda mais esplendido porque não falo inglês, nem o dos Estados Unidos nem o da Inglaterra, terra dos ilustres visitantes. Para minha sorte, meu entrevistado é um poliglota de primeira. Bem humorado e solícito, Jagger falou sobre o novo álbum, A bigger bang , sobre a terceira passagem dos Stones no Brasil e de seu relacionamento, duvidoso e passional, com o principal parceiro, o indestrutível Keith Richards, que no começo da conversa apareceu inesperadamente com seu inseparável copo de Hi-Fi. Só aí a entrevista começou de verdade.

- Olá Mr. Jagger, é um imenso prazer conversar com uma lenda do rock, estou lisonjeando.

Mick Jagger - O que é isso jovem, sempre gostei de conhecer pessoas diferentes; pode ter certeza que terei o maior prazer em conversar durante 15 minutos, não mais do que isso, com você.

- Os Stones demoraram mais de três décadas para tocarem no Brasil e agora, de 1995 para cá, já vieram ao nosso país em três oportunidades. Gostaram do público ?

Mick Jagger - Já estivemos no Brasil antes de 1995, fizemos inclusive duas músicas aqui, mas nunca conseguimos fazer um show até então no seu país. Sempre quisemos tocar aqui. Quando chamarem, estaremos prontos.

Richards - As mulheres do Brasil são muito bonitas, não dá para deixar de tocar aqui (risos).

– Participe da conversa senhor Richards, será um grande prazer falar com os dois juntos.

- Os críticos costumam dizer que o período mais fértil dos Stones foi entre 1968 e 1974, quando vocês lançaram grandes discos – Let it Bleed (1969), Sticky Fingers (1971), Exile on Man St . (1972). O que acham disso ? Os Stones ainda podem produzir álbuns tão bons quanto os mencionados ?

Richards - Os críticos em geral não sabem de nada. Pegue o exemplo de Exile on Man St.. Quando o disco saiu, ninguém deu muita importância, falou-se pouco ou quase nada. Hoje é um álbum considerado fundamental na história do rock. Assim aconteceu com outros discos e bandas hoje vistos como clássicos. Você é crítico de música ?

– Não, mas às vezes dou meus pitacos.

Richards - Não deveria, garoto. Fique longe de confusão. Escute o que um homem que já se meteu com este pessoal está lhe falando.

– O que vocês têm a dizer para os que acham que os Stones deveriam, há muito tempo, ter pendurado os instrumentos?

Jagger - Desde o começo dos anos 90 é sempre a mesma coisa: quando anunciamos uma turnê, os críticos se apressam em dizer que é a nossa derradeira excursão. Mas sempre voltamos. E com qualidade. Os Stones estão na estrada porque ainda têm algo a dizer. Durante 40 anos de música vimos vários artistas surgirem. Muitos deles desapareceram da mesma forma efêmera com que apareceram. Não estaríamos neste negócio se não tivéssemos qualidade. Sempre que lançamos um disco, ficamos entre os melhores do ano. Com A bigger bang não foi diferente. Mas não preciso ficar explicando isso. É só você ler os jornais.

Richards - Como você fala bem Mick! Estou impressionado (risos).

– Na última passagem dos Rolling Stones pelo Brasil vocês tocaram com Bob Dylan. Fizeram uma jam com ele em Like a Rolling Stone . Qual a opinião de vocês a respeito do artista Bob Dylan?

Richards - Dylan é um dos pilares do rock. Lembro-me da apresentação que eu e Ronnie fizemos no “Live Aid” ao lado de Dylan [Ronnie Wood e Keith Richards fizeram uma apresentação catastrófica ao lado de Dylan em 1985 no show beneficente do Live Aid]. Com ele até situações embaraçosas ficam divertidas.

Jagger - Dylan influenciou boa parte da nossa geração e ainda hoje continua sendo um artista muito respeitado. O documentário de Scorsese é primoroso.

– A bigger bang World Tour já é a mais lucrativa turnê de toda história da música. Os Stones hoje tocam apenas pelo dinheiro e ego?

Jagger - (irritado) Já respondi essa pergunta agora pouco. É claro que não tocamos só pelo dinheiro.

– Durante os anos 60 os Rolling Stones duelaram com os Beatles para ver quem era a maior – e melhor – banda de rock de todos os tempos. Ainda hoje há esse tipo de comparação. Afinal, quem foi melhor?

Jagger - Não gosto desse tipo de comparação. Durante muito tempo fiquei irritado com tal situação. Acho que não tem nada a ver. Mas os Beatles acabaram cedo. Tiveram pouco tempo de estrada. Nós temos quatro décadas de rock. Realmente fomos mais longe em termos de banda. O que não quer dizer que somos melhores – nem piores. Ficar comparando não acabe a mim. Isso é coisa para pessoas como você. Gente que acha que pode decretar o que é bom ou não na música e na arte.

Richards - (risos alcoólicos) Eu lhe falei garoto, saia disso. E olha que Mick é um cara tranqüilo!

– Jagger, é verdade que você queria escrever letras parecidas com as que Lennon fazia nos anos 70? Tentou imitá-lo?

Jagger - Lennon foi um grande poeta. Sempre admirei as coisas que ele fazia, mas nunca quis fazer igual. Nossa banda é autêntica o suficiente para fazer suas próprias canções. Nunca, eu e Richards, tentamos imitar ninguém [olha para os lados com cara de poucos amigos].

- Mick, o senhor tem fama de mulherengo. Tem, inclusive, um filho com uma brasileira. Mas ao mesmo tempo há boatos históricos que dão conta que o senhor é homossexual? Os senhores já tiveram alguma experiência juntos neste sentido?

Richards - Eu e Mick somos amantes desde que nos conhecemos. Mas, como bons namorados, brigamos de vez em quando.

Jagger - Acho que seu tempo esgotou, menino. Vamos ter que ir embora.

– Tenho mais uma pergunta. A década de 70 é a mais festejada da carreira dos Stones na opinião da crítica. Qual o melhor disco de vocês nos anos 80, uma década de menos agitação no cenário rock'n'roll?

Jagger - Fizemos bons discos em todas os períodos da nossa carreira. Acontece que a crítica sempre precisa escolher alguma coisa para eternizar, tornar mito. Sinceramente acho que todos os nossos discos são geniais!

•  Senhor Richards, posso saber o que é esta bebida azul que está tomando ?

Richards - Não, mas posso pedir para a Martha [faz um sinal para uma mulher que está próxima] fazer um igual para você.

– Seria muita gentileza.