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8 a 22 de abril de 2006

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O CRIME PERFEITO DE TRUMAN CAPOTE
Com uma atuação perfeita de Philip Seymour Hoffman, Capote, recupera uma das grandes personalidades do século 20
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

ntre os muitos escritores revelados pela geração do novo jornalismo – ou jornalismo literário, como o estilo ficou conhecido no Brasil –, Truman Capote (1924-1984) foi sem dúvida nenhuma um dos mais exóticos e polêmicos. Homossexual em uma época de pouca liberdade comportamental – os festejados anos 70 ainda estavam longe de chegar –, os trejeitos efeminados do autor de Bonequinha de Luxo (1958) causavam furor até mesmo no liberal meio artístico hollywoodiano da época.

São exatamente essas características do egocêntrico Truman que dão brilho à interpretação de Philip Seymour Hoffman em Capote , película de estréia de Bennett Miller. O filme narra de forma bastante competente o período em que Truman Capote, então jornalista de prestígio na imprensa norte-americana, se dedica à elaboração de A Sangue Frio , livro que viraria best-seller e tornaria o escritor famoso mundialmente.

Em 1959 Capote lê no The New York Times uma notícia sobre o assassinato de uma família de agricultores, os Clutters, em Holcomb, Kansas (EUA). Chocado com a brutalidade do crime, Truman logo percebe que a história renderia mais do que uma simples matéria de jornal. Começa aí uma empreitada que se arrastaria por seis longos anos, até a execução dos assassinos e a tão aguardada edição do livro.

Acompanhado pela também jornalista Harper Lee, que um ano depois ganharia o prêmio “Pulitzer” com O Sol é Para Todos , o escritor resolve ir pessoalmente até Holcomb investigar a chacina. É aí, segundo a historiografia oficial, que se dá início a um tipo de escrita singular, até então inédita, que imprime características literárias a textos jornalísticos. Nasce o new journalism.

Os modos pouco ortodoxos de Capote causam estranheza na população da cidade, ainda sob o impacto dos assassinatos. A voz efeminada, os trejeitos exóticos e o figurino impecável do jornalista chocam, o que obriga Harper, e não Truman, fazer o primeiro contato com os habitantes do local.

A partir daí o autor iria viver quase que exclusivamente em função de A Sangue Frio . Bancado pela revista The New Yorker, famosa pela publicação de grandes reportagens como Hiroshima , de John Hersey – o periódico foi durante muitos anos o porto seguro do jornalismo literário –, Capote realizou um trabalho de investigação tão poderoso que pode ser comparado ao modo inventivo com que escreveu a obra.

Mas o que mais chama a atenção é que o filme de Bennett Miller se confunde com o livro de Truman Capote. O diretor filmou de tal maneira que a história, que conta como foi a realização e feitura do livro, seja tão fascinante quanto a própria trama contada pelo jornalista em A Sangue Frio . Ou seja, o modus operandi é tão interessante quanto o resultado. Isso porque o ator Philip Seymour Hoffman encarna com tanta intensidade a persona exótica do jornalista, que é difícil saber o que é mais surpreendente: a figura de Truman Capote ou a simples história das páginas policiais que ganha contornos astronômicos e fica conhecida no mundo todo.

Realmente o que pega pelo pé o espectador é o jeito dissimulado do personagem. O escritor era tão bom mentindo e se fingindo quanto escrevendo. Soa irônico dizer que uma das características mais interessantes de um jornalista é seu poder de enganar. Mas é verídico, uma das qualidades de Truman, do jornalista e do homem, era justamente a de fazer com que as pessoas acreditassem piamente no que ele dizia, ainda que nem tudo fosse verdade. Foi assim que conseguiu realizar uma obra-prima da literatura. Dono de uma ironia feroz, que usava como autodefesa contra àqueles que o atacavam, Capote, porém, nunca perdeu a elegância, mesmo nos momentos mais críticos.

No prefácio de Música para Camaleões , seu último livro, o escritor dá uma mostra de seu veneno mordaz e elegante ao comentar as críticas que o também jornalista Norman Mailer fez por conta do lançamento de A Sangue Frio . Dizia ele: “Muita gente pensou que eu estava doido ao passar seis anos perambulando pelas planícies do Kansas; outros repudiaram categoricamente meu conceito de ‘romance verídico', classificando-o como indigno de um escritor sério. Norman Mailer o definiu como ‘fracasso da imaginação' – pretendendo, a meu ver, que o romancista deve preferir a imaginação à realidade... Mas houve quem pensasse de maneira diversa, outros escritores que compreenderam o alcance de minha experiência e se apressaram a pôr a receita em prática – nenhum com mais rapidez do que Norman Mailer, que ganhou uma porção de prêmios escrevendo romances verídicos, embora sempre fizesse questão de jamais classificá-los como ‘romances verídicos'. Não vem ao caso: ele é bom escritor, ótimo sujeito e me sinto feliz por lhe ter prestado algum serviço”.

Jornalismo e ética

Após a prisão dos acusados, Richard Eugene Hickcok e Perry Edward Smith, Truman colou neles. Conseguiu autorização especial junto à polícia para visitar, a hora que bem entendesse, os criminosos. Colocando em prática seu infalível modo de persuasão, ganhou a confiança de Perry, o mais emotivo dos bandidos. Assaltante, filho de um irlandês com uma índia cherokee, Perry foi o autor dos quatro tiros que mataram a família Clutter. Vendo em Truman a possibilidade de fugir da pena de morte, o rapaz abre o jogo e revela seus segredos mais íntimos, recheando com curiosidades peculiares A Sangue Frio . Mas se por um lado o filme de Bennett Miller passa a impressão de que Truman Capote se aproximava dos criminosos apenas porque queria uma descrição detalhada do crime, por outro fica claro que o escritor se deixou influenciar pelo intenso contato com Richard e Perry. Mesmo valendo-se de estratagemas repudiados pelos teóricos do jornalismo. Sim, Truman mentiu e enganou suas fontes durante boa parte do período em que esteve com elas. E mesmo assim foi aclamado como um grande jornalista.

Algumas tiradas do diretor, como quando Truman paga para que o elogiem na frente de Harper Lee, são realmente muito boas. Mostram que o jornalista não se contentava com o imenso talento que tinha. Sempre queria mais. Boêmio, gostava de ser a atração das rodas que freqüentava. Sempre com uma garrafa de J&B na mão, não gostava de passar despercebido. Entrava em polvorosa quando não era notado.

Quem não leu A Sangue Frio e assistiu ao filme de Miller ficou, certamente, com muita vontade de ao menos folhar as páginas do livro. Já aqueles que tiveram o prazer de chegar ao final da obra antes de ver a película, ficaram ainda mais convencidos de que se trata de um grande trabalho. Truman dispensava a figura do gravador de voz nas entrevistas que fazia. Gabava-se que conseguia lembrar de 93 % daquilo que escutava. E foi assim de deu vida à sua obra maior. Sendo um exímio ouvinte. Escutava para depois falar (escrever), em dobro.

O escritor marcou a ferro quente seu nome na história da literatura e do jornalismo. É ainda é referência, juntamente com todos aqueles que fizeram carreira nas páginas da legendária The New Yorker. Se o filme não é nem uma obra-prima do ponto de vista da linguagem cinematográfica, pelo menos tem o mérito de trazer à tona, com bastante competência, uma figura singular do século 20 que morreu no limbo, asfixiado pelo próprio vício. Tudo o que o exibicionista e egocêntrico Truman Capote sempre abominou. Sair de cena sem ser aplaudido, como um mero figurante. Capote , o filme, coloca novamente o figurão em primeiro plano, de onde o excêntrico jornalista nunca desejou ter saído. Truman agradece.