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8 a 22 de abril de 2006

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COMO TODO MUNDO
Garota da Vitrine ganha pontos por espelhar a rotina sem artifícios
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

irabelle tem nome de protagonista de novela mexicana e é uma garota comum, nem muito bonita, nem muito alta. Ela ganha a vida vendendo luvas em uma loja de departamento enquanto não se torna artista plástica. Entre uma tarefa rotineira e outra, como alimentar a gata Sylvia, ela faz alguns desenhos e sonha que algo mude a sua vidinha besta. Enfim, não muito diferente de mim, de você e de grande parte da população desse planeta chamado Terra. Mas Mirabelle não é protagonista de nenhuma novela, e sim de Garota da Vitrine , filme vendido como comédia romântica, mas que vai além do esquema simplista “garota encontra garoto e vive feliz para sempre”.

Garota da Vitrine poderia, na verdade, ser considerado uma produção para jovens adultos, um quase “gênero” que segue regras bem próprias. A história não se prende apenas a um gênero cinematográfico e a narrativa se divide harmoniosamente entre a comédia, o romance e o drama. A trama gira em torno de personagens perdidas em algum lugar no limbo da vida, com problemas existenciais ou amorosos e questionamentos bem parecidos com aqueles do público com 20 e muitos anos, ou seja, eu, você e parte do resto do mundo. São pessoas insatisfeitas com o rumo que tomaram, com a monotonia, a rotina e o comodismo que as assola, mas que, por alguma razão, são incapazes de agir. Resta a elas, então, esperar.

Os cenários desse tipo de filme são os mais variados. Da frieza de Tóquio ao calor de Los Angeles. Os temas são, sobretudo, sobre o descontentamento e a inadequação, seja a uma cidade estrangeira, ao trabalho burocrático ou a um relacionamento que merece ser deletado da memória. A melancolia domina a trilha sonora bacana e a fotografia acinzentada. O elenco é composto por uma mistura de caras novas buscando reconhecimento e de atores veteranos tentando revigorar suas carreiras. Mas quem se importa com convenções quando a “receita” já nos deu maravilhas como Encontros e Desencontros , Por um Sentido na Vida , Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças , Hora de Voltar , Elizabethtown , Closer , Flores Partidas , etc.

Voltando a Mirabelle, a sua vida muda quando ela cruza com dois caras bastante diferentes. Jeremy é um nerd de carteirinha e sem grandes perspectivas, apesar de se considerar um artista. Uma espécie de alívio cômico para os adolescentes não abandonarem o cinema no meio da sessão. Já Ray é um cinquentão bem sucedido, mas que ainda não aprendeu a se envolver emocionalmente. Três personagens que, de acordo com a cartilha do cinemão hollywoodiano, seriam chamadas de fracassadas. Mirabelle toma antidepressivos para suportar o vazio. Jeremy é apenas o cara engraçado que não tem direito à garota no final. E Ray usa a suposta maturidade e experiência como desculpa para a infelicidade.

A sorte de Garota da Vitrine é que a fórmula na qual se baseia é apenas o pontapé para o desenrolar de uma história que não se prende a chavões, nem limita as personagens a amarras intransponíveis. Mirabelle é acomodada, mas nunca deixa a depressão roubar-lhe a esperança de uma vida melhor. Jeremy é um carinha engraçado e bobalhão, mas ele tem tanto direito de amar e ser amado como qualquer outro. E Ray, apesar da fortuna e vivência, é o mais perdido dos três ao fingir não se envolver para evitar o sofrimento, mas sofrendo mesmo assim. A sorte do espectador é que Garota da Vitrine possui um roteiro sensível que trata as personagens com carinho e como pessoas reais, não joguetes para fazer a história funcionar.

A direção do desconhecido Anand Tucker privilegia o texto e abre espaço para a interpretação dos atores. Claire Daines ganha o espectador desde a primeira cena, quando sua cara de tédio atrás do balcão da loja onde trabalha já demonstra toda a carga emocional de Mirabelle. A atriz, que de promessa no modernoso Romeu + Julieta virou atriz coadjuvante de luxo ( As Horas ), entrega a interpretação de uma vida e rouba o filme inteiro para si. Steven Martin também se destaca ao dar toda a dimensão de insegurança vivida por Ray. Além de atuar, Martin também é responsável pelo roteiro do longa, baseado em um best-seller de sua própria autoria. Jason Schwartzman interpreta Jeremy com leveza, mas pode ser considerado o elo perdido do filme ao repetir a mesma cara de nerd de Três é demais ( Rushmore ) e A Vida é uma Comédia ( Huckabees ).

Mirabelle, Jeremy e Ray são, sim, pessoas comuns e carentes que têm que lidar com momentos alegres, tristes e de solidão. Os três vivem, sim, uma vidinha besta e sem graça. Eles estão, sim, a espera de alguma coisa que os faça acreditar. Mais do que se poderia supor, o filme nos mostra que o tédio e a monotonia fazem parte, sim, do pacote da vida. Assim como a esperança em algo melhor. Garota de Vitrine cai como uma luva. E quando a fatídica redenção final chega, nem mesmo incomoda.