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8 a 22 de abril de 2006

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ASSIM SOU EU
O Papa do Brega ressurge no tributo Eu Vou Tirar Você Deste Lugar
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

ocê não gosta, mas a sua empregada gosta. A frase soa um tanto enigmática, mas pode servir para designar Odair José. Ou nem tanto. Pelo menos, é o que busca o disco tributo Vou Tirar Você Deste Lugar: Um Tributo a Odair José , que reúne dezoito artistas, entre eles Paulo Miklos (dos Titãs), Zeca Baleiro, Pato Fu e outros. O objetivo desses intrépidos e corajosos intérpretes foi tirar o cantor e compositor goiano de um quase ostracismo musical, num formato que não é novidade, mas que ganha uma dimensão peculiar quando se trata daquele que é, com todo o respeito, o maior cantor brega do Brasil. O resultado não ficou ruim; pelo contrário, ficou excelente.

Como se sabe, a idéia do disco-tributo não é novidade — eles existem aos borbotões. Mas o caso de Odair José é interessante. Depois de ser o papa do brega que surgiu nos escolhos da Jovem Guarda e fez sucesso em vozes tanto como a do eterno “cantor das empregadas” quanto a de outros, como Paulo Sérgio, Reginaldo Rossi, Benito di Paula, Cláudio Fontana, Márcio José, Paulo de Paula, Nílton César, entre outros, que marcaram época. Depois de sumirem nos porões e arquivos das grandes gravadoras, acabaram ressurgindo em coletâneas, em CD, nos últimos anos, entre elas uma que apresentava aqueles pitorescos intérpretes que desfilavam no finado Cassino do Chacrinha.

Anti-Herói - De longe, a história oficial transformou-os em cantores menores se comparados à estatura de artistas consagrados da MPB. Aliás, perguntado se ele se sentia como parte do movimento, ele responde: “minha música faz parte da história da música brasileira. MPB, para mim, é música popular brasileira. Agora, existe a música popular de Ipanema, e dessa eu não faço parte”. Por detrás da ostensiva ironia do compositor, parece existir uma crítica contra aqueles que, ao tentar contar a história, resolveu subtrair também todo um Brasil pobre, triste, feio, doente, desassistido e lírico, e que foi esteticamente relegado a um segundo plano sob o conceito de “menor” ou “inferior”, apresentado sob aqueles velhos e desgastados rótulos simplistas, como “música de corno”, “cafona”, entre outros (e que naturalmente vigoram até hoje para os artistas desse gênero).

De anti-herói, Odair foi guindado ao contraditório cantor perseguido e incompreendido do livro Eu Não Sou Cachorro Não , de Paulo César de Araújo. A obra, lançada em 2002, mostra o outro lado da kafkiana aventura que foi fazer música popular nos anos 60 e 70, e romper com certos tabus vigentes na sociedade de antanho, onde os “folclóricos” cantores brega subterraneamente eram submetidos à censura e à perseguição política. O próprio autor de “A Noite Mais Linda do Mundo”, por conta de sua pena audaz de cronista do cotidiano, foi enviado ao todo-poderoso chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) para ter uma conversa em particular com o general Golbery do Couto e Silva. Pior: Odair José teve que pedir perdão ao Papa, como o poeta da ópera wagneriana, por conta de O Filho de José e Maria , uma espécie de opereta onde o cantor recria o mito da Sagrada Família numa leitura diferente. Essa peça, ainda inédita em CD, chegou a vazar pela Internet afora, e até pode ser encontrada em fóruns de música.

O lado importante de um tributo como esse é que ele não revisita um autor conhecido, como Roberto Carlos ou Raul Seixas, mas um compositor de raiz popular, que se livrou da ditadura imposta pelo governo mas não do degredo cultural: como se sabe, é impossível separar Odair do rótulo a que ele e outros foram relegados. O próprio autor explica que não havia espaço para retratar o modo de vida das classes mais baixas, e mesmo conhecendo a Jovem Guarda e o rock, decidiu investir nesse novo gênero, e transformou isso numa espécie de missão pessoal: “Eu descobri que sou, na verdade, um repórter musical. A intenção de chegar no povão havia porque a intenção era fazer uma reportagem da vida das pessoas”, diz.

Curioso é que, para muitos — até mesmo os ouvintes “brega”, ele pode ressurgir inédito. Nesse sentido, no objetivo de recriar a sua obra, não houve interesse em fazer alguma paráfrase do que pudesse soar como uma visão particular do que é o cafona (como algo simplista, simplório) e que buscasse de alguma forma tender à mera caricaturização.

O Tributo - É visível (ou melhor, audível) que cada artista convidado procurou catalisar todo o potencial da música, inclusive no caso de números pouco conhecidos do compositor, como “Uma Lágrima”(cantada pelo Pato Fu) e “Vou Contar de Um a Três” (interpretada por Volver). A despeito de algumas variações de arranjo, o disco parece manter uma linha temática que o enfeixa com perfeição, mesmo partindo de idéias tão opostas. A versão de “Que Saudade de Você”, que ganhou uma roupagem garageira parece fazer um contrapeso à tropicalizada “Uma Vida Só” (Arthur de Faria), cujo arranjo é um verdadeiro achado, de fazer George Martin soltar uma risadinha ao dar uma escutadinha (se pudesse). Talvez Paulo Miklos (com o tema que dá nome ao álbum) ou Zeca Baleiro cantando “Eu, Você e a Praça” — certamente uma das mais belas e pungentes criações do mestre de Morrinhos — possam fazer o ouvinte preferir mil vezes a original (já que são gravações muito conhecidas), mas “Essa Noite Você Vai Ter Que Ser Minha” pode ser capaz de surpreender o mais roxo e empedernido fã.

Cabe ressaltar que, apesar do quase ostracismo de Odair, o próprio repertório do cantor há muito caiu na boca do povo (como não podia deixar de ser) e seus temas se diluíram no repertório popular: Leandro e Leonardo (e Roberta Miranda) já haviam regravado “Cadê Você” (no tributo, gravado por Sufrágio), por exemplo.

Mas fica a questão: Vou Tirar Você Deste Lugar reapresenta Odair, mas para qual público? Aquele que corrobora e faz o “jogo das elites culturais”, como se refere o escritor Paulo César de Araújo, ou ao “povão”, como se refere o cantor? O seu “verdadeiro” público é, via de regra, avesso justamente à sofisticações sonoras. Mesmo assim, o rótulo foi um fator que afastou sempre cantores como Odair de um público diverso ao seu, e a rejeição, de certa forma, nunca deixou de ser recíproca. Afinal, o “povo” não ouve Bossa Nova com os mesmos ouvidos dos nativos de Ipanema...

Recriadas, as canções perdem o ‘halo' cafona dos arranjos que sempre caracteriza o gênero mas, como tributo, é um ovo de colombo: fica perfeitamente em pé, descontando o fato de que Odair tem melodias muito interessantes, simples e diretas (ouça a belíssima versão de “Eu queria Ser John Lennon”, de Columbia) e letras que possam soar simplórias, mas sinceras, como “Ela Voltou Diferente”. Algumas até ensaiariam um certo impressionismo poético ( “encostei o meu carro na praça/e você/ um pouco sem graça/ sorriu prá mim/ Sem querer eu olhei em seus olhos/ Sem querer/ encostei sua mão/ e começou assim”).

Certo é que vale a pena a viagem ao mundo de Odair José, e isso passa por travar conhecimento com a sua obra, os seus discos originais, seus arranjos kitsch, (que são a marca registrada do gênero brega) suas letras e seu romantismo peculiar, seja qual for o público. Em tempos bicudos de pirataria, onde as gravadoras investem cada vez menos em relançamentos em favor de coletâneas baratas (em todos os sentidos), a Allegro (responsável pela revitalização da obra do cantor) ainda pretende lançar uma caixa intitulada: Assim Sou Eu com toda a obra do Odair da década de 70, com discos gravados pela CBS (Sony), Polydor (Universal), BMG/RCA (Sony). Essa homenagem já não viria sem tempo: afinal, como diria o Velho Guerreiro, ele merece.