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8 a 22 de abril de 2006

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A PÁTRIA DE BOMBACHAS
Há meio século, a Seleção Gaúcha conquistava o Pan no México
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

um 18 de março, há exatos 50 anos, o futebol gaúcho teve uma de suas maiores vitórias. Neste dia, a Seleção Brasileira, formada por jogadores gaúchos, empatou em 2 a 2 com a Argentina, no Estádio Olímpico, no México, e conquistou o Pan-Americano de 1956.

A vitória significou o salto definitivo do futebol sulino em direção à maturidade, além da enorme projeção nacional. A equipe titular foi treinada por Francisco Duarte Júnior, o Teté, então técnico do Internacional de Porto Alegre.

Era fim de 1955 quando a notícia chegou: um selecionado gaúcho iria representar o escrete canarinho no 2 o Campeonato Pan-Americano . Pouca gente acreditava que essa decisão da CBD (hoje CBF) teria algum futuro. A imprensa carioca dava frouxos de riso. Diziam eles que se um selecionado paulista que também representara o Brasil num certame sul-americano um pouco antes havia naufragado, qual seria o galardão de um bando de gaúchos, senão a pior das derrotas? Do meio desse pessimismo, um homem, Aneron Corrêa de Oliveira, resolveu defender a decisão da Confederação: fiasco maior que o paulista não iria acontecer. E a guerra começou. Mário Morais, cronista paulistano, defendia aos quatro ventos que o fiasco era eminente:

- Temeridade! Temeridade! Incompetência da CBD! - diziam. Nunca uma desgraça fora tão cantada aos quatro ventos como essa.

No Sul, começavam as providências: alheio a estas polêmicas, o cargo de treinador da Seleção foi dado a Teté. Tido como treinador turrão (virtude que lhe fora herdada dos tempos de caserna) e folclórico (já que ele era famoso por lidar com toda a espécie de macumba), ele sabia como poucos tirar o máximo de seus atletas e trabalhava com um inusitado esquema tático calcado na movimentação dos jogadores de ala, num 4-2-4 que seria futuramente entronizado pelo Brasil na Copa da Suécia.

Porém, mais inusitada foi a expressa determinação de Teté: ao escalar o grupo para o Pan , ele decidiu prescindir de atletas do centro do país. Mesmo com toda a pressão, ele manteve convicto em seus interesses. Para o certame, ele convocou oito de seus jogadores no Inter, mais Raul Klein, do Floriano (hoje Novo Hamburgo) Aírton Pavilhão, Ênio Rodrigues, Sérgio Moacir, Ortunho e Juarez, do Grêmio, e Duarte, do Brasil de Pelotas. O ‘Marechal das Vitórias', como era conhecido, também foi o criador do terceiro goleiro na seleção. Ele solicitou à CBD a inscrição de um atleta a mais para a defesa, para a disputa. O terceiro homem dos arcos foi Valdir Morais, do extinto Renner de Porto Alegre.

O Brasil estreou num 1 o de março. Enquanto todos os países eram representados por suas forças máximas, nossa Seleção era a pátria de bombachas. O Chile, que meses antes, havia goleado a Seleção Paulista com a camisa da CBD acabou perdendo por dois a um, gols de Luizinho e Raul.

Na época, o Peru era considerada uma das maiores forças sul-americanas, o México apresentava um futebol considerada razoável porém consistente, a Costa Rica entrou no Pan como a sensação da temporada mas, como sempre, a mais temida era a Argentina de Dominguez, Cuchiaroni, Sivoru, Macchio, Corbata e Ratín. ‘Foi uma exibição fantástica da Seleção Gaúcha, embora Teté fosse pressionado a levar jogadores de Rio e São Paulo, e ele não quis. Disse: ‘eu não vou levar'. E levou só jogadores gaúchos', relembra Larri, que integrava a equipe campeã.

Florindo, beque colorado que participou da conquista no México, se recorda do time:

- No gol saiu jogando o Sérgio, depois entrou o Valdir. Na lateral direita foi o Oreco, que foi um jogador sensacional, eu como zagueiro central, como quarto-zagueiro foi o Ênio Rodrigues, lateral esquerdo Duarte, o meio de campo era formado pelo Ênio Andrade e Odorico. A linha de ataque foi formada por Luizinho, Larri, Bodinho, Ênio e na ponta-esquerda Raul Klein e depois o Chinesinho. Além destes, o banco de reservas era formado por excelentes atletas, como o zagueiro Aírton e o centroavante Juarez, o ‘Leão do Olímpico': - o Juarez jogou todas as partidas no segundo tempo, no lugar do Larri - relembra Florindo.

Mas o comandante daquele escrete era o próprio Teté que, com seu ímpeto e seu estilo de psicólogo do sobrenatural, conseguiu aliciar a todos com seu empirismo de encruzilhada e resolvia qualquer problema, até os que não tivessem muito a ver com o futebol. Se algum jogador aparecesse com alguma dor, ele sempre tinha uma mandinga para curá-lo. Um deles, Juarez, reclamava da canela esquerda. Então o técnico escalou Moura, o massagista, para tratá-lo. Arranjou um vidro com um líquido que, dizia ele, servia para evitar qualquer problema. E aplicava no local machucado, com arruda. Um dia, antes do jogo, o ‘precioso' líquido acabou:

- Seu Teté! Seu Teté! A água aquela acabou! - dizia Moura, em pânico, no intervalo do jogo. - O que eu eu faço?

- Não te preocupa - disse Teté, disfarçando. - Coloca água da pia mesmo, e diz que é a benzida, que vai dar o mesmo resultado.

E as vitórias se seguiam. O segundo jogo foi contra o Peru, com um ataque perigoso. Vitória de um a zero, com o lateral Oreco e Florindo frustrando as investidas andinas. Contra o México, o Brasil ganhou por dois a um, gols de Bodinho e Bravo contra. No dia 13, chegava a hora de enfrentar a sensação, Costa Rica. O selecionado gaúcho deu um baile e meteu sete na “sensação”, com três gols de Larri e três de Chinesinho.

Aliás, Chinesinho foi um caso à parte. Foi convocado por Teté para a ponta-esquerda, que preferiu deixá-lo no banco, em favor de Raul Klein. O treinador alegava que o jogador colorado não mantinha o desempenho ideal. Na verdade, blefava. Foi quando sacou Klein, e foi enfático com o reserva: ‘o Raul tá jogando que é uma beleza, eu vou te colocar, mas se tu não jogar a partida da tua vida eu não te coloco mais'. E lá foi o ponta colorado defender a sua titularidade. Jogou muito. No fim da partida, Teté disse, em tom de bravata: ‘o Raul tá jogando muito melhor que tu. Mas eu vou te dar mais uma chance porque tu é do Inter'.

O jogo de fundo era México e Argentina. Se o México vencesse a Argentina, o Brasil já seria campeão, independente do último jogo, porque nós havíamos vencido as quatro partidas, e a Argentina havia empatado uma, e se eles perdessem, ficariam com apenas três pontos. Sabendo disso, Teté fez de tudo para que o México liquidasse os argentinos. Aproveitando a amizade com o treinador do México, o comandante brasileiro chegou perto do homem e confidenciou:

- A gente é tudo vizinho deles, o Rio Grande é fronteira com a Argentina - argumentava. - O negócio é o seguinte: eles são covardes, eles não agüentam, tem que dar pau neles, que eles se entregam, vocês ganham fácil. Mas tem que dar duro, dar pau neles!

E não deu outra: o jogo foi um verdadeiro entrudo. Tanto que o número de expulsões do lado ‘fronteiriço' ao Brasil acabou beneficiando o escrete. O treinador mandou seus atletas baterem e os dois times terminaram o jogo quase sem plantel...

De repente, veio uma confusão do lado do campo. Gama Moucher, árbitro brasileiro, começou a expulsar gente dos dois times, e dado momento, a Argentina estava com sete jogadores e o México com nove. Mesmo em vantagem, os mexicanos puxaram o carro. Indignado com tamanha indolência, Teté foi reclamar do técnico dos anfitriões:

- Tem que ganhar esse jogo! Tem que ganhar, e não empatar!

E o homem nem bolacha para o brasileiro. Foi quando Teté, mesmo sem voz (ele sofria de asma), foi para a lateral do campo, e ele começou a berrar em castelhano aos atletas mexicanos:

- Arriba , pessoal! Arriba! Arranca! Atire no golo!

Não contente, mandou Moura mandar os atacantes do México matarem o jogo. A cena era surreal: os jogadores mexicanos, ao longe, na ponta do campo, gesticulando furiosamente em direção ao gol:

- Arriba! Arriba!

Moura, aliás, como braço-esquerdo de Teté, foi o protagonista do episódio mais antológico e pitoresco de todo o Pan . O Brasil jogava contra o Peru que, à época, tinha um ataque fenomenal — Moschera, Félix Castillo, Draco, era um timaço que disputava cada jogada palmo a palmo do campo. Depois do gol de Larri, aos vinte do primeiro tempo, a pressão peruana se tornava sufocante. Castillo, driblador e veloz, batia Duarte com facilidade a cada ataque. Qualquer descuido do lateral brasileiro poderia ser fatal.

Em determinado lance, pelo fundo do campo, Odorico acabou lesionado, e ficou estirado na linha de fundo, sendo atendido por Moura, com sua maleta de madeira. Foi quando tudo aconteceu: enquanto verificava as condições do meio-campista colorado, o massagista sentiu a inexorável aproximação de Félix, que dribla Duarte, depois Ênio Rodrigues e corre sozinho pela linha de fundo com a bola, pronto para fuzilar Sérgio Moacir. Moura não pensa duas vezes, e atirando a pesada maleta aos pés do ponta peruano, fazendo o atleta cair estrepitosamente no gramado.

- Foi uma coisa, queriam prender o Moura - lembra Larri. - Foi uma coisa horrível, os jogadores do Peru queriam matar ele, e nós tivemos que entrar no bolo para afastar. Foi uma coisa terrível.

Já Florindo entende que, mesmo que a atitude do massagista foi mais do que fundamental:

- Foi um bafafá, expulsaram o Moura, e ele, naquele instante, ele teve uma coisa que eu posso dizer o seguinte: se não fosse ele, o jogador da Argentina iria fazer o gol.

Na final, contra a temida Argentina, Chinesinho fez 1 a 0, e Yaudica empatou, no primeiro tempo. Aos 13 minutos do segundo, de falta, Ênio Andrade fez 2 a 1. Cinco minutos antes do fim, Sívori empatou. Como o resultado garantia o título, os gaúchos só tocaram a bola até a festa. O time campeão teve Valdir; Florindo e Figueiró (Duarte); Odorico, Oreco e Ênio Rodrigues; Luisinho, Bodinho, Larry, Ênio Andrade e Chinesinho. Na volta, Porto Alegre parou para receber os campeões. Simbolicamente ou não, a epopéia gaúcha com a camisa amarela da Seleção, além de calar os céticos, de certa forma também abriu caminho para que o Brasil amealhasse o seu primeiro título mundial, dois anos depois.