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8 a 22 de abril de 2006

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O RETORNO
Ponto final traz Woody Allen a sua “melhor forma” e se firma como o grande injustiçado do Oscar 2006
por Ricardo Stabolito ( ricardostabolito@bol.com.br )

oody Allen é um cineasta diferente. Em um mercado repleto de grandes produções, efeitos especiais e idéias recicladas como o cinematográfico americano, ele prefere trabalhar com filmes simples e idéias originais, o que lhe confere o título de “o mais europeu dos cineastas americanos”. Além de dirigir, escreve o roteiro de todos os seus filmes e foi indicado 14 vezes ao Oscar de melhor roteiro original, tendo ganhado duas vezes por Noivo neurótico, noiva nervosa (1978) e Hannah e suas irmãs (1987). Ainda foi indicado seis vezes para melhor diretor (ganhou um por Noivo neurótico, noiva nervosa ) e uma vez para melhor ator. Foram 21 indicações ao prêmio da Academia em cerca de 40 anos de carreira.

Se tudo isso não bastasse, Allen é um dos únicos cineastas da atualidade que tem o poder de transformar o cenário em um personagem de seus filmes. Nova York ganhou vida e importância nas obras do diretor, que sempre a adotou como “lar cinematográfico”. O cineasta ainda é marcado pelos personagens de seus roteiros: em contraponto aos “super-heróis” criados na maioria dos filmes norte-americanos, ele utiliza pessoas comuns que, por um motivo ou outro, passam por uma estafa psicológica ou são extremamente complicados, quase psicóticos.

No entanto, nos últimos anos, Woody Allen foi quase execrado pela indústria cinematográfica americana. Uma fase ruim do diretor fez com que críticos escorraçassem sua figura que já estava riscada após a revelação do caso que mantinha com a, na época, enteada – agora esposa – Soon Yi Previn.

E então Ponto final apareceu. Grande sucesso de crítica no Festival de Cannes, o filme anuncia para muitos o retorno de Woody Allen “a velha forma”. Mas, para aqueles que captaram a mensagem do seu filme anterior Melinda e Melinda , esse retorno em Ponto final não é surpresa. O que impressiona e realmente coloca em evidência Woody Allen em seu atual filme são as mudanças que o cineasta realizou em seu próprio fazer cinematográfico, apesar de não ter radicalizado nessas mudanças como muitos chegam a dizer.

O filme se inicia com um monólogo sobre a sorte ambientado em uma quadra de tênis da qual só visualizamos a rede e uma bola atravessando os dois lados. Sua tese: a sorte pode ser até mais importante do que a competência e o talento. Quando a bola toca a rede, a imagem é frisada e o espectador não fica sabendo para qual lado da rede ela cairá. O que aparenta ser um exemplo avulso será utilizado como uma sensacional metáfora pelo cineasta no decorrer do filme.

A estória se centra em Chris Wilton, um ex-tenista que abandonou o circuito profissional por estar consciente de que nunca será um grande campeão e estar cansado das incessantes viagens – no entanto, o segundo motivo funciona muito mais como uma desculpa para os outros, com o intuito de que ele não tenha de admitir seu fracasso no circuito. Então resolve se fixar em Londres e começa a dar aulas em um clube da alta sociedade. Conhece lá o rico Tom Hewett (Matthew Goode) que o apresenta a sua irmã Chloe (Emily Mortimer). Chloe fica atraída por Chris e eles emplacam um namoro que não chega a empolgar.

É nesse momento que Chris conhece a americana Nola (Scarlett Johansson), uma aspirante atriz desacreditada e a atração física entre ambos é imediata. Por ela, Chris parece disposto a jogar tudo para o alto. Após um rápido relacionamento, ambos se separam. Quando os seus caminhos voltam a se cruzar mais na frente é que a trama se encaminha para o seu verdadeiro dilema.

A primeira mudança de Allen no seu fazer cinematográfico está no cenário. A troca de sua amada Nova York por Londres não afeta a habilidade quase única do cineasta em transformar a cidade em um personagem. A Londres que vemos na tela é uma cidade com um visual clássico: a casa de campo dos Hewett, o clube da alta sociedade e suas famílias tradicionais. Além disso, a cidade é sempre mostrada em um tom excessivamente escuro que evidencia o teor angustiante que o filme possui.

A marca dos filmes de Woody Allen sempre foi o humor inteligente e a ironia, e não é por Ponto final ter um tom angustiante e ser impregnado por uma atmosfera de pessimismo que o cineasta larga mão dessas duas características. Elas aparecem bem mais suprimidas, mas ainda estão lá. Atenção para a fabulosa tentativa de diálogo entre Chloe e Chris durante o café da manhã, onde nos é apresentado a típica ironia a la Allen.

Em Ponto Final , o cineasta faz uma releitura assumida de outro filme seu: Crimes e pecados (1989 – pelo qual também foi indicado ao Oscar de roteiro original) e este, por sua vez, deriva do livro de Dostoievski Crime e castigo .

Allen também mantém outra grande característica dele, o cuidado na construção dos personagens e a delicadeza da “teia” que os prendem entre si. Aparentemente comuns, os personagens são construídos com admirável complexidade e não são interligados ao acaso. Podemos imaginar que Chris e Nola estejam unidos apenas pela atração física, mas se avaliarmos bem eles são personagens muito parecidos quanto ao momento que atravessam na vida – ele desistiu de ser tenista profissional por não ter talento o suficiente, ela é a aspirante a atriz muito próxima de desistir da carreira pelos outros (entenda-se a mãe de Tom) julga-la sem talento. Chris e Chloe possuem uma relação que se baseia no benefício duplo – ele tem uma vida boa com um bom emprego garantido, ela se casa com o homem dos seus sonhos.

Quanto à trilha sonora, o cineasta abandona o tradicional jazz que sempre acompanhou seus filmes nova-iorquinos e se entrega a um gênero musical muito mais apropriado ao caráter da produção: a ópera. Nos momentos de clímax da estória, a música se eleva como se fosse o clímax de um dos atos de uma ópera. E, sendo esta um gênero melancólico, se encaixa com maestria na trama potencialmente pessimista de Ponto Final .

O cuidado de Allen em apresentar seus personagens ao público se mostra na estrutura do filme. Ele passa mais de uma hora em um processo de “introdução” delas ao público antes de apresentar uma profunda reviravolta que leva ao dilema principal. Aliás, as reviravoltas são outro show a parte do roteiro Allen. Elas chegam a beirar o cinismo, mergulhadas em uma medida perfeita de ironia.

A atuação de Jonathan Rhys-Meyers é boa, mas não chega a ser excelente. Mesmo muito bem e em sua melhor atuação no cinema, ele não consegue empolgar totalmente. Assim sobra a Scarlett Johansson (Nola) e a Emily Mortimer (Chloe) o papel de brilhar e assumir as rédeas do filme. Aliás, é necessário ressaltar o trabalho excelente de Emily Mortimer, que foi ofuscada pela sensacional atuação de Johansson. Matthew Goode (Tom Hewitt) segura com firmeza um coadjuvante importante, embora não tão expressivo.

Conter o sorriso no rosto após a exibição é quase impossível. E existem dois motivos para isso: o prazer de ver e pensar na obra refinada e surpreendente que assistiu no cinema, ou o alívio e felicidade de ter novamente um cineasta e roteirista soberbo como Woody Allen em sua “melhor forma”.

Para aqueles que pensarem mais um pouco, conter a indignação também é quase impossível ao lembrar que este filme foi praticamente ignorado pela Academia na edição desse ano do Oscar. Ponto Final entrou muito forte na Award Season (notadamente no Globo de Ouro) e acabou tendo apenas uma indicação ao prêmio da Academia para o roteiro original de Allen.

Scarlett Johansson e Emily Mortimer mereciam indicações como melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, respectivamente. O roteiro de Woody Allen foi subjugado uma vez que competia contra o grande vencedor da noite Crash – No limite . A direção do cineasta também poderia ter sido lembrada com uma indicação. Isso sem contar que o filme em si era um grande merecedor de uma indicação a melhor filme e, se indicado, seria um páreo duro para os favoritos.

Ponto Final mostrou ao mundo que, na altura de seus 70 anos, o veterano Woody Allen continua basicamente o mesmo: o cineasta que não se rende às fórmulas comerciais para fazer sucesso, não tem medo de mexer com temas polêmicos, ironiza cinematograficamente como ninguém e é um dos artistas mais geniais do cinema americano em todos os tempos. A única coisa que mudou é que, nessa idade, ele já não pode ser o “galã” de seus filmes como tanto fez nos anos 70 e 80.