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2 a 16 de maio de 2006

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CEM ANOS DE DESILUSÃO
No centenário de seu nascimento, o irlandês Samuel Beckett volta à cena e suscita discussões a cerca de sua enigmática obra
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

amuel Beckett (1906-1989) foi um autor que produziu com intensidade enquanto esteve ativo na literatura. Escreveu romances, peças de teatro e deixou uma copiosa correspondência que supera as 15 mil cartas – as missivas do escritor começam a ser publicadas a partir de 2007 em quatro volumes.

Além disso, outros detalhes da biografia do escritor, como a parceria que manteve com James Joyce e seu engajamento na Resistência francesa, em 1941, serão lembrados em 2006, ano em que se comemora seu centenário de nascimento.

Porém, será sua visão de mundo – e seu pessimismo sombrio – que permeará as discussões acerca de seu trabalho como dramaturgo e romancista? Niilista convicto, Beckett não foi somente precursor de um tipo diferente de dramaturgia, mas um pensador de esquerda realmente preocupado com a condição humana e, sobretudo, com a liberdade plena do homem.

Tais características, presentes em toda a obra do irlandês, atuam de modo ainda mais decisivo em Esperando Godot , texto mais conhecido de Beckett no Brasil e uma das obras-primas do teatro mundial.

Escrita entre o período de outubro de 1948 e janeiro de 1949, após a Segunda Grande Guerra, a peça foi inicialmente incompreendida pelo público. O próprio diretor Roger Blin, que a montou pela primeira vez na França, no mitológico Teatro Babilônia, confessou não tê-la entendido na primeira leitura.

Diz a lenda que, em princípio, metade das pessoas que ocupavam os 200 lugares do teatro iam embora nos primeiros 30 minutos do espetáculo; a outra metade, que ficava até o final, saia chutando pedras sem saber o que tinha acontecido ali. Não agüentavam olhar dois atores representando vagabundos que só sabiam falar que não podiam ir embora antes do Sr. Godot chegar. No Brasil não foi muito diferente. A primeira montagem profissional do texto, em 1969, dirigida por Flavio Rangel, causou muito estranhamento no público.

Esperando Godot é um dos textos teatrais mais instigantes e perturbadores já escritos. Porém, o mote, aparentemente banal e bobo, provou ao longo das décadas ser genial. Mas o que pode ser tão genial em uma peça em que se tem apenas quatro personagens, sendo um figurante, e cujo cenário apresenta só uma árvore em frangalhos? Nada, diria o leitor menos atento.

E realmente é difícil, sem explicação prévia, para o leitor e/ou espectador, digerir o aparentemente repetitivo e elíptico texto de Beckett. Os dois personagens centrais da trama, Estragon e Vladimir, ficam o espetáculo inteiro conversando sobre a possível vinda de um tal Godot. Os dois estão a postos, como sentinelas, a esperar por Godot. Nada ou quase nada de surpreendente acontece durante toda a trama – se é que existe trama. Ninguém é avisado de quem seja o Sr. Godot. Nem mesmo Vladimir e Estragon sabem ao certo quem é o tal visitante, mas o esperam com empenho.

Mas quem é Godot? Todos querem imediatamente saber. Para essa elementar pergunta, muitas respostas e nenhuma certeza. E é justamente o caráter enigmático do texto que surpreende. É o que gera as discussões intermináveis. Muitos supõem que a peça trata do desespero do homem diante da morte anunciada; outros delegam ao texto um caráter religioso, no qual os personagens estão, na verdade, à espera de uma divindade que virá salvá-los – Godot seria uma corruptela da palavra God (Deus em inglês).

Intitulado criador do Teatro do Absurdo , ao lado de nomes como Eugene Ionesco e Jean-Paul Sartre, Beckett propôs uma radical mudança nas artes cênicas da época. As montagens de suas peças, em que o texto tem grande peso, representou uma verdadeira ruptura com o teatro vigente. Os textos curtos, as frases rápidas, os personagens monologantes e os diálogos terminados quase sempre com reticências, de maneira incompleta, faziam de sua literatura algo novo. Perfeita sinergia entre a forma e a idéia.

Ainda que grandes nomes da literatura, como o próprio Sartre e Albert Camus, viessem usando o teatro para colocar idéias filosóficas sobre a questão do absurdo da vida com bastante freqüência, foi Beckett que, de uma maneira imensamente original, rompeu com o formalismo cênico da época – tanto estética quanto lingüisticamente.

Além disso, outra questão curiosa ilustra a trajetória literária de Beckett. O autor, que era irlandês, decidiu desenvolver sua produção em língua francesa e não em inglês. Detalhe que valoriza ainda mais seu trabalho como escritor.

Morte e absurdo

Beckett, acima de tudo, tratou tanto em romances quanto em peças teatrais, da angústia do homem frente à monstruosidade sufocante e enigmática da vida. Seus textos falam da morte, com certeza, mas também da vida. Ao tratar do fim, Beckett conseqüentemente disserta sobre a trajetória que leva até o momento capital, com todos os percalços e desafios que se postam. Ou seja, o autor nos faz ver o que é a existência, refletir sobre ela.

Em sua obra romanesca, tais questionamentos estão explícitos. Na trilogia escrita por Beckett entre 1948 e 1949 – Molloy, Malone Morre e O Inominável –, os personagens, todos misteriosamente com nomes começados com a letra M, são velhos decrépitos, em geral octogenários, que estão enclausurados em cubículos esperando pela morte que se aproxima. O medo do fim bate de frente com a sensação de tempo perdido; de ter chegado até ali e ainda não saber por que chegou.

A obsessão do escritor pelo tema é visível em toda sua produção. Esperando Godot foi escrita em uma fase delicada da vida de Beckett. Época em que o irlandês se encontrava em profunda depressão, desencadeada pela frenética ingestão de álcool. Tinha renunciado ao romance e achava que “o maior delito do homem é o de haver nascido”.

Assim, Esperando Godot é uma peça que provoca. O leitor/espectador fica inquieto frente a um texto curto, elíptico, onde o diálogo aparentemente é desnecessário e confuso. O espectador sente-se instigado, mexe-se na cadeira, impaciente para ver se alguma coisa “acontece”. Mas nada muda, nada vai acontecer. Tudo é levado por um diálogo insosso. Mas ao falar do nada, o autor fala de tudo, essa parece ser a lição. A condição humana é que está em questão.

A relação conflituosa dos personagens Estragon e Vladimir, ora pautada na amizade e necessidade mútua; ora no ódio, também originou muitas hipóteses. Uma delas diz que os dois representavam a incestuosa ligação que França e Inglaterra tinham na época do conflito mundial.

Colaborador e amigo pessoal de James Joyce, Beckett representou, no final da década de 1950, o pensamento negativo de um povo – assolado por uma recente guerra – frente ao futuro da humanidade, seu destino e papel em um mundo desumano e pouco gentil.

No Brasil a peça teve uma conotação apocalíptica. Durante uma apresentação do espetáculo, a atriz Cacilda Becker sofre um aneurisma cerebral, morrendo depois de 38 dias em coma. O fato só fez aumentar ainda mais o mito que cerca o texto.

Mais do que uma nova estética teatral, Esperando Godot forjou um momento de ruptura, com significações e conotações inéditas para a dramaturgia. Seu caráter aberto em novas leituras faz dela uma grande obra. Uma peça que, parece, a cada dia fica mais atual. Sempre à espera de um leitor que tente desvendá-la.