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2 a 16 de maio de 2006

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BRILHO ETERNO DE UMA MENTE COM LEMBRANÇAS
2046 é mais uma prova do talento do diretor Wong Kar-Wai para compor belas imagens
por Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

cinema nasceu com um caráter documental, preocupado, inicialmente, em retratar cenas banais do cotidiano. Depois, na esperança de atingir um público maior e mais elitizado, ele se rendeu às convenções literárias e assumiu uma postura narrativa por excelência. Como conseqüência, o cinema formalista, que se desenvolvia em paralelo e tinha como principal interesse descobrir os potenciais da linguagem cinematográfica, ficou relegado a algumas vanguardas e ao restrito circuito de arte. Mas, felizmente, ainda existem, hoje em dia, cineastas que vêem no cinema uma forma de expressão que não está, necessariamente, ligada às amarras de se contar uma história. O chinês Wong Kar-Wai é um deles.

Diretor competente de ótimos exemplares do “novo cinema vindo do Oriente” ( Amores Expressos , Felizes Juntos e Anjos Caídos ), Kar-Wai desenvolveu um estilo próprio de contar uma história que está longe das fórmulas difundidas pelo cinemão hollwoodiano. Convenções como apresentação das personagens e desenvolvimento de um clímax quase inexistem em seus filmes. As narrativas são entrelaçadas e permeadas por uma profusão de câmeras lentas. A fotografia e direção de arte são expressivas e cada filme tem um ritmo próprio, ora acelerado, ora quase contemplativo. Já a música sempre exerce um papel fundamental, emoldurando a ação e dando uma unidade às produções. O universo das personagens pode ser diferente, mas elas são pessoas comuns e perdidas entre tarefas rotineiras e grandes dilemas existenciais.

2046 – Segredos de Amor , mais recente produção do diretor, não é diferente. Kar-Wai usa e abusa de seu estilo característico, dando mais um passo para sua consagração internacional. O filme é uma espécie de continuação de Amor à Flor da Pele , trabalho anterior que fez sucesso em festivais e ampliou seu público. Dividido em duas linhas narrativas, uma no presente (a Hong Kong da década de 1960) e outra no futuro, em 2046, o filme ousa ao deixar o espectador confuso e apostar na não-linearidade. Lógico que narrativas não-lineares não são novidades, principalmente depois que Quentin Tarantino adotou o recurso e foi copiado à exaustão. Mas, em 2046 , Kar-Wai não usa a estratégia em função da narrativa, e sim como mais um elemento de sua estética peculiar. A história fica em segundo plano e o mais interessante não é apenas entendê-la, mas sim experimentá-la. Se, por um lado, a fragmentação da trama pode incomodar o público mais tradicional, por outro, dá ao filme uma aura de “obra de arte”.

O cuidado extremo com as imagens também contribui para que 2046 não saia tão facilmente da cabeça do público. Não só a história é picotada, como as próprias imagens são apresentadas em enquadramentos estilhaçados. Objetos, mãos, pescoços aparecem em detalhe, uma característica comum à obra do diretor. O filme tem uma plasticidade singular e o senso visual de Wong Kar-Wai (movimentações precisas de câmera, por exemplo) remete diretamente ao cinema de Stanley Kubrick (principalmente em Laranja Mecânica , 2001 – Uma odisséia no Espaço e O Iluminado).

Mas 2046 não sobrevive apenas em virtude de seu apuro estético, agradando, também, pela melancolia de suas personagens. No “presente”, acompanhamos o envolvimento de um escritor (Tony Leung, de Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele ) com três diferentes mulheres (as ótimas e belas Gong Li, Takuya Kimura e Zhang Ziyi) enquanto escreve um livro de ficção científica. Já, no futuro, vemos um alter-ego desse escritor apaixonado por uma andróide de reflexos retardados em uma viagem metafísica rumo às memórias de seu passado. Além de ser um belo exercício estilístico, ainda que em alguns momentos pareça longo e pretensioso, 2046 é o atestado do talento de Wong Kar-Wai. Pode não agradar a gregos e troianos, mas, com certeza, satisfaz àquela fatia do público mais interessada em apreciar novas experiências ao invés de simplesmente acompanhar o desenrolar de uma história.

PS: Wong Kar-Wai, claro, já carimbou seu passaporte para Hollywood e o próximo trabalho do diretor ( My Blueberry Nights ) vai nos mostrar se sua marca autoral consegue sobreviver ao esquema industrial dos grandes estúdios.