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2 a 16 de maio de 2006

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O GUARDIÃO
Orange de Itamaracá revela a trajetória do ex-presidiário que virou símbolo da preservação patrimonial no Brasil
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )

é Amaro anda manso e tem um sorriso claro, quase sempre escondido no meio da barba comprida. No meio das quase três mil pessoas que circularam, diariamente, no Cine PE, o guardião do Forte Orange se destacava pela singularidade de suas feições e pela vestimenta em algodão cru branco, que contrastava com a moda hiper colorida da juventude que freqüentou o festival. Nos intervalos, era comum ver as pessoas se aproximando, pedindo para tirar fotos ou para que ele contasse mais detalhes de sua vida.

A trajetória de José Amaro de Sousa Filho foi relatada no documentário Orange de Itamaracá , de Franklin Jr. e Marcio Câmara. Nascido em Pernambuco, Amaro foi preso no começo da década de 1970, quando estava com pouco mais de vinte anos, e levado para a Casa de Detenção do Recife, que hoje abriga a Casa da Cultura. Condenado a passar 16 anos na prisão por matar uma pessoa, ele decidiu utilizar o tempo na cadeia para construir uma nova vida. Aprendeu a ler e a escrever com um colega de detenção e procurou lutar para melhorar o cotidiano dos demais internos.

Quando houve o anúncio de que a Casa de Detenção do Recife seria fechada, Zé Amaro fez de tudo para ser transferido para a Penitenciária Agrícola (P.A.I) de Itamaracá, que havia sido construída recentemente. Na P.A.I, ele integrou a equipe responsável pela coleta de cocos verdes e limpeza do Forte Orange. Foi quando se apaixonou pelo monumento de origem holandesa. “Eu dizia a todo mundo que quando deixasse a cadeia eu ia morar no Forte e tomar conta dele”, conta.

ARTE - Os encontros de José Amaro com o Forte foram interrompidos quando ele cometeu uma falta na penitenciária e foi transferido para o presídio Barreto Campelo, na época também localizado na Ilha de Itamaracá. Privado do contato com o monumento e com a natureza, ele procurou desenvolver a veia artística que notou ter desde a infância. “Eu nasci com o dom porque quando criança eu não tive presente, os meus brinquedos eu sempre fiz. Eu construía brinquedos e vendia para outros meninos. Já era artesanato, eu acredito nisso. E na cadeia quando fui tirar minha sentença eu desenvolvi o trabalho de esculturas, de entalhe”, diz.

O trabalho com artesanato, o senso de cooperação e o bom comportamento renderam a Zé Amaro referências positivas entre as autoridades policiais. “Quando eu estava na cadeia, eu fiz uma viagem. Eu fui o primeiro preso a sair do Brasil sem escolta”. Amaro se refere à exposição que foi convidado a participar no Paraguai, ainda na década de 1970. A iniciativa de viajar sem acompanhamento gerou controvérsias, e alguns detentos apostaram que ele não voltaria ao país. No entanto, concluída a exposição, José Amaro retornou ao presídio com novas idéias e motivação para continuar o trabalho com esculturas.

Passou, então, a ensinar outros presos a arte de esculpir e entalhar madeira. Vendo o esforço de Amaro, algumas pessoas começaram a colaborar doando madeira para que ele pudesse desenvolver as oficinas e criar mais peças que depois seriam exibidas nas várias mostras que realizou pelo país. Este trabalho acabou motivando as autoridades a aceitarem os seus pedidos de redução de pena. Após oito anos na cadeia, Zé Amaro conseguiu sair em regime condicional e a idéia de voltar a morar no Forte Orange voltou a ser considerada.

PRESERVAÇÃO – José Amaro, então, pediu permissão ao exercito para morar no Forte Orange. A solicitação foi aceita e há mais de vinte anos ele se dedica ao trabalho de manutenção do Forte, tendo recebido, inclusive, uma homenagem do Ministério da Cultura, na década de 1990, por serviços prestados à preservação do patrimônio nacional. Além de realizar a limpeza completa e recuperação das pedras que estruturam a construção, Amaro manteve o Forte com o dinheiro que adquiria vendendo as peças de madeira e esculturas produzidas nas oficinas que continuou realizando com os presidiários, após a saída da cadeia. “Estes trabalhos a gente expõe na lojinha do Forte Orange e também recebo encomendas de fora. Agora mesmo estou terminando uma encomenda de Santa Tereza para uma pessoa de Timbaúba”, conta.

A partir de 1994, no entanto, Amaro e a esposa Gilsinele Sousa criaram a Fundação Forte Orange, e as atividades desenvolvidas pela entidade têm ajudado a manter o forte e a ampliar o projeto de José Amaro na Ilha de Itamaracá. “Eu já fiz alguns trabalhos com as crianças de Vila Velha, ensinando a fazer artesanato. Agora, eu ganhei muita madeira do Ibama, graças a Deus, e essa madeira eu vou trabalhar ensinando algumas crianças e rapazes que não têm profissão. Vou ensinar a arte para eles porque é uma diversão”.

CINEMA - Além do documentário Orange de Itamaracá, Zé Amaro participou de duas produções, entre elas a minissérie Zumbi dos Palmares , de Walter Avancini, em 1996. Na época, o artesão convenceu a produção e o diretor a filmar em Itamaracá e ajudar na renda dos presidiários contratando-os para construir os cenários, além da participação como figurantes. Durante as filmagens que ele conseguiu dar mais um passo em direção ao sonho de contar a sua história. “Eu tive a idéia com outro amigo, de que um dia isso ia causar um livro. Em 1981 quando eu conheci a Beth Faria concretizou mais a idéia, mas quando eu trabalhei como capitão do mato na minissérie Zumbi dos Palmares , então o Franklin estava trabalhando também. Nos conhecemos, fizemos amizade e ele pediu para fazer o filme da minha história”.

José Amaro acredita que estas produções são importantes para divulgar a sua trajetória e atrair incentivos para o trabalho de manutenção do Forte Orange. “Hoje mesmo saíram três matérias nos jornais de Pernambuco, e isso a gente coloca nos arquivos e depois pode fazer alguma coisa com a cultura e o Forte Orange e procurar os órgãos e pode ser mais fácil”. A idéia é procurar divulgar o documentário o máximo possível em festivais e mostras. No Cine PE, Orange de Itamaracá rendeu muitos aplausos do público e a figura de José Amaro foi mais uma vez motivo de matérias nacionais, em jornais e sites de cinema.

Foto: Ana Lira

PLANOS - Enquanto curte a repercussão do documentário, o artesão continua se dedicando às esculturas e entalhes, e se prepara para realizar mostras fora de Pernambuco. “Tem várias exposições para fazer, mas até agora eu não estou preparado. Eu quero preparar mais uns trabalhos melhores para fazer uma em Minas, tem uma em Portugal e com fé em Deus eu vou trabalhar e vou fazer umas peças importantes para fazer estas exposições que tenho sido convidado”.

Além disso, José Amaro tem investido em outras técnicas e materiais para ampliar o trabalho como escultor. “Eu faço escultura com pedra, também, mas com barro eu nunca trabalhei. É eu faço mais escultura em madeira Agora mesmo eu estou fazendo mais arte sacra, e eu faço outros trabalhos de artesanato como bijuterias, mas eu me firmo mais no trabalho de escultura”

Foto: Ana Lira

A família tem sido o principal suporte de Zé Amaro na continuidade do trabalho. Ele conta que a experiência da esposa, que é administradora e consultora empresarial, tem sido fundamental para o desenvolvimento da Fundação Forte Orange, junto com o apoio dos filhos. Amaro deu-lhes nomes de astros do universo: Sol, Marte e Vega. Junto com Sérgio, filho do primeiro casamento de Gilsinele, os quatro ajudam o pai no trabalho de preservação do Forte e nas atividades junto às comunidades em Itamaracá.

José Amaro confessa o desejo de conviver muito tempo ainda com o local. Ele diz que em suas orações pede para não morrer cedo para poder continuar tomando conta do monumento e vivendo em Itamaracá. “Eu não posso me separar da ilha porque eu sou uma parte do Forte Orange. Eu sou uma pedra do Forte Orange e não posso sair dali. Escolhi a ilha para morar e com fé em Deus eu vou viver muitos anos naquela ilha”.