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2 a 16 de maio de 2006

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RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM
Diários de Jack Kerouac: 1947-1954 mostra Jack Kerouac como o escritor idealista por trás do mito da cultura beat
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

a época do lançamento da sua obra-prima, On The Road , Jack Kerouac resolveu dar vazão a um dos grandes mitos a respeito do seu livro, publicado em 1957. O criador de Dean Mortiaty teria escrito o texto integral, onde narra as peripécias de dois jovens pelas estradas americanas em busca de aventura, bebida e be-bop , em apenas três semanas. Na trilha do boom que se deu à publicação e a publicidade que girou em torno desse ruidoso happening , Kerouac afirmou que, tomado de ímpeto, ele se sentou numa escrivaninha e, de 9 a 27 de abril de 1951, escreveu o texto integral num rolo de telex, redigindo tudo em espaço um e sem parágrafo (algo parecido com os livros de bolso de Proust). Como que tocado pela divina luz do Espírito Santo (ou ligado por doses enormes de benzedrina), ele contou a antiepopéia americana com um estilo despojado o romance da sua vida.

O mito de On The Road foi rebatido por um interlocutor de Jack, Steve Allen que, à época da edição do livro, comandava um programa de entrevistas. Ao ouvir do jovem escritor que este havia passado cerca de sete anos na estrada e que levou três semanas para escrever tudo aquilo, Allen gracejou: “mesmo que você passasse três semanas na estrada, precisaria pelo menos de “sete anos para escrever o livro”. À sombra desse mito, porém, existe uma outra estrada, muito mais longa e tortuosa, que vai de 1947 até 1954, e que vai ao encontro do chiste de Allen: aquela que seria chamada de “a bíblia da geração beat” é, na verdade, uma história mágica que compreende pelo menos uma década inteira, e vai do momento em que Kerouac se descobre escritor, junto com John Clellon Holmes numa cafeteria vagabunda e fétida em Times Square, em Nova Iorque até o momento em que o original foi concebido escrito e reescrito durante os anos 50, e que um editor da Viking Press finalmente o publicasse. Toda essa estrada paralela à sagrada peregrinação pelo que os beats chamaram a “descoberta da verdadeira América” está em Diários de Jack Kerouac, 1947-1954 (358 páginas, R$ 50) .

Reunido pelo historiador Douglas Brinkley, os diários de Jack Kerouac (tradução brasileira de Edmundo Barreiros) espantam por mostrar o homem por trás do mito — aliás, distante. Entronizado justamente por sua obra mais famosa, as anotações se dividem entre relatos pessoais e impressões sobre estética e religião e um diário de viagem, onde ele guardou todas as belíssimas imagens americanas e paisagens que descreve com comovente minúcia em On The Road. Em seus Journals , ele não é Sal Paradise, o evangelista de Neal Cassady, mas o aprendiz de feiticeiro, sentado no ombro de gigantes como Wolfe, Jack London, Dostoievski (certamente o seu escritor preferido, como ele mesmo relata), Herman Melville e, é claro, Mark Twain. Na primeira parte, Kerouac mistura as suas pequenas façanhas pequeno burguesas com a procura pela prosa ideal que, de certa forma, passou primeiro por The Town & The City , uma espécie de romance de formação que precedeu ao projeto de levar a sua vida de andarilho no pós-guerra.

A primeira parte dos Diários descreve o seu processo de criação. A segunda parte, On The Road , é a biografia de sua obra mais ilustre, incluindo passagens e visões poéticas que figurariam no livro em gestação. Ao mesmo tempo em que ele demonstra buscar o caminho de sua prosa, ele dialoga com seus mestres, capturando tudo o que lhe parecesse relevante que devesse entrar no seu trabalho. Kerouac também fala consigo mesmo, entendendo-se como o Escritor, e como o evangelista de algo que ele tinha certeza que seria a sua grande criação. O texto, que parte desde seu encontro com Neal Cassady, em 1947 (aliás, é o ponto de partida de Pé na Estrada ), o vagabundo que queria aprender a escrever com Jack e que acabou se tornando no Messias do movimento beat. No entanto, o Cassady dos diários está distante nos Journals : nesse momento, o protagonista é Kerouac...

Outro que está distante nos Diários é o mito Kerouac e suas variações, o estereótipo que envolveria a sua imagem após a fama. Em vez do gauche beberrão, do andarilho zen-budista ele é o Kerouac jovem idealista, introspectivo, gentil, inteligente, desbravador intelectual, autor zeloso, “solitário católico louco, místico” — ou seja, um jovem como qualquer outro de sua idade, com suas incertezas e seus sonhos...

Isso talvez explique por que muitos de seus admiradores tenham uma imagem tão diversa do escritor quando jovem e o velho praguejador avesso a todas as contraculturas do fim da vida. Jack não queria representar Sal Paradise pelo resto da vida, como um velho e decaído ídolo do rock (ou o velho maestro que não pode aprender novas melodias). Para seus fãs, feliz foi o “estúpido e sagrado” (como escreveu Kerouac) Cassady, que morreu do jeito que sempre foi, bêbado e com hipotermia, num hospital do México, encontrado num canto do mundo, um magiar pós-moderno, motorista do ônibus dos hippies que faziam experiências com LSD pelos desertos da América.

O “verdadeiro” Kerouac, no alto dos seus vinte e cinco anos demonstra o homem lúcido, faminto de conhecimento, intrépido, ávido e louco como um Proust, tentando mapear o momento mais crucial de sua vida, ao mesmo tempo em que desvela todas as suas crenças religiosas e místicas. Não é o licencioso irresponsável como um personagem cuspido e escarrado de Drugstore Cowboy — o que talvez frustre justamente aqueles que idolatram o personagem translúcido que é solidamente descrito na figura do quixotesco e chapiliniano Mortiarty (“não é preciso morrer para ir ao paraíso, comece com Doctor Pepper e termine no uísque”), que Jack transformou num cara adorável até nas suas cafajestices. O artista quando jovem é o engenheiro da palavra, frase a frase, palavra a palavra: basta observar a curiosa relação de expressões curinga que ele incansavelmente usaria em On The Road , anotadas para serem utilizadas em algum momento do livro, coisas como “reluzente imensidão”, “passado espectral”, “perfeito pagão”, entre outras, exercício típico do escritor que lê como escritor.

Poéticas e oníricas, é possível achar as preciosas frases kerouaquianas (“flores sagradas flutuando no ar, eram todos aqueles rostos cansados na América do Jazz” ou “centenas de prostitutas enfileiravam-se ao longo das ruas estreitas e escuras e seus olhos tristes cintilavam para nós sob o manto da noite”) aparecem nos Diários o tempo todo, e são o testemunho do escritor, como se fôssemos cúmplices do seu percurso criativo, com Jack a esculpir meticulosamente por dias e noites a fio a sua obra-prima em cadernos de anotações dados por Cassady, que os arranjava na empresa de trens em que trabalhava (reproduzidos na edição de Douglas Brinkley em fac-símile ). Suas típicas frases se tornam notáveis na terceira e última parte, que é realmente um excerto dos seus diários de viagem, onde o ávido Kerouac estaqueou os alicerces de sua literatura como a sua religião particular.