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24 de maio a 7 de junho de 2006

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O ÚLTIMO BOÊMIO
Livro-reportagem traz um dos perfis mais famosos do jornalismo literário e revela o outro lado da Nova Iorque dos anos 30
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

omos uma revista de escritores e de artistas gráficos, e é fundamental que nossos colaboradores possam escrever e desenhar o que bem entenderem. Um dos problemas com a encomenda de matérias é que elas transformam colaboradores em empregados”. O parágrafo acima é de autoria de William Shawn, editor da revista The New Yorker entre 1951 e 1987, e mostra por que o periódico foi durante muitas décadas o oásis dos jornalistas que aspiravam uma carreira literária. Afinal, os preceitos do senso comum editorial não vigoravam por lá. Na New Yorker era possível, por exemplo, que o jornalista – que após ter um trabalho publicado no periódico ganhava status de escritor – demorasse semanas e até mesmo meses para concluir um ensaio. Não é a toa que alguns dos nomes mais importantes das letras norte-americanas como J.D. Salinger, Joseph Brodsky (russo de nascimento) e Truman Capote foram colaboradores da NY.

Foi nesse ambiente favorável que Joseph Mitchell, um dos mais destacados escritores da revista, deu vida a O segredo de Joe Gould. O livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, traz dois textos de Mitchell sobre um vagabundo literato nova-iorquino, que desde os anos 1920 vivia nas ruas do Village, o bairro boêmio da cidade. O primeiro relato, “O professor gaivota”, foi escrito em 1942 e traz um perfil de Gould, suas pretensões literárias e sua rotina pelos bares e albergues de Nova Iorque. Já o segundo texto foi escrito 22 anos depois e revela a convivência de Mitchell com seu personagem ao longo de mais de duas décadas.

Figura excêntrica, Joseph Ferdinand Gould era oriundo de uma família da Nova Inglaterra e formado em Harvard – na turma de 1911, como gostava de frisar. Alcoólatra e desempregado crônico, vivia de contribuições que os intelectuais de Greenwich Village lhe ofereciam. Eram essas migalhas, chamadas por ele de “Fundo Joe Gould”, que o sustentavam e lhe davam a auto-estima necessária para escrever um livro interminável chamado “Uma história oral de nosso tempo”. O trabalho, segundo o próprio Gould, seria uma compilação de conversas informais e relatos despretensiosos feitos por gente de todo tipo. Ou seja, uma espécie de história informal do submundo boêmio de Nova Iorque que superaria a Bíblia em 11 ou 12 vezes.

A idéia tinha lhe surgido em 1917, quando estava lendo um livro de contos do irlandês William Carleton. A introdução da obra, escrita pelo poeta William Butler Yeats, trazia uma frase que dizia o seguinte: “A história de uma nação não está nos parlamentos e nos campos de batalha, mas no que as pessoas dizem umas às outras em dias de feiras e em dias de festa, e na maneira como trabalham a terra, como discutem, como fazem romaria”. Aquilo foi a deixa que Gould precisava para largar tudo e se dedicar à História Oral. A partir dali, escrever seria a sua sina para o resto dos dias.

O dândi e o vagabundo
Ao contrário da maioria dos colegas de revista, Joseph Mitchell não se interessava por assuntos convencionais nem gente famosa. Ao invés de escrever sobre grandes cantores e personalidades da moda, preferia olhar para aquilo que ninguém se importava – um de seus textos mais famosos é um relato sobre um pica-pau que derruba uma árvore. Seus trabalhos eram pitorescos, quase sempre sobre coisas esquecidas e obscuras, mas que faziam parte da rotina das cidades. Nesse sentido Joe Gould era o personagem ideal para um perfil jornalístico-literário.

Com um texto sublime e uma narrativa levíssima, “O professor gaivota” fez tanto sucesso que transformou, de um dia para outro, Gould em celebridade. Conhecido pelos freqüentadores dos botecos imundos do Village, Gould se gabava por ser amigo de gente como o poeta e. e. cummings, que certa vez lhe dedicara um poema. Outra habilidade que dizia ter era saber a língua das gaivotas (daí o título do ensaio).

A figura fascinante de Joe Gould e o modo especial de escrita de Mitchell casaram de tal maneira que é difícil pensar em outra pessoa escrevendo sobre o velho boêmio. Isso talvez só tenha sido possível por um motivo: a paciência de Mitchell. Durante o tempo em que coletou as informações para o perfil, o escritor foi a sombra de Gould. Além de ter que escutar repetidas vezes a mesma história sem se chatear, o jornalista teve que conviver com as manias exóticas de seu personagem. Gould era um pária que não se via como uma pessoa inferior entre os que o rodeavam – não do ponto de vista intelectual. Pelo contrário, se achava um gênio no meio de imbecis. Não raras vezes era pego falando mal de um ou outro poeta que freqüentava o Village. Ninguém escapava. Poucos eram aqueles que mereciam a atenção e a reverência da maltrapilha figura. Sua empáfia era tão grande que gostava de comparar sua História Oral à obra de Edward Gibbon, historiador inglês e autor de Declínio e Queda do Império Romano.

Mesmo assim Mitchell seguiu firme na idéia de coletar todas as informações que fossem necessárias para realizar um bom trabalho sobre Gould. O jornalista estava crente que, mesmo sendo seu personagem um homem de difícil entendimento, valeria a pena investir no projeto.

E assim Gould, o velho vagabundo, se tornou uma grande personalidade local no bairro mais famoso de Nova Iorque. Esse perfil já valeria o comentário. Mas Mitchell tinha mais a dizer sobre Joseph Ferdinand Gould. Mais de duas décadas depois de ter escrito “O professor gaivota”, o jornalista revelaria detalhes de sua convivência com Gould no ensaio que dá título ao livro publicado no Brasil. “O segredo de Joe Gould”, bem mais longo, é tão brilhante quanto o texto que trouxe à tona o personagem-literato. Mitchell vai fundo nos detalhes que envolveram, ao longo de várias décadas, a trajetória de um dos homens mais enigmáticos da Nova Iorque dos anos 30 e 40. Revela episódios desconhecidos sobre o modo de vida de Joe e a tão falada História Oral. Na verdade, Mitchell deixa no ar a suspeita de que a grandiosa obra, que tomou mais de 30 anos da vida de Gould, não passava de uma série de ensaios escritos e rescritos repetidas vezes sobre temas que nada tinham a ver com a história oral.

Escritor de talento, Mitchell burilava seus textos com a mesma paciência que escutava seus personagens. Achava que uma conversa espontânea valia mais do que qualquer relato. Talvez por isso Joe Gould despertou tanto sua atenção. A sutileza de sua escrita transforma Gould em um personagem ainda mais especial. Tão especial que depois de concluir o último trabalho sobre o maltrapilho boêmio, Mitchell misteriosamente nunca mais escreveu nada. Passou os últimos trinta anos de sua vida indo diariamente à redação da New Yorker. Seu silêncio ainda suscita dúvidas. Mas o fato é que Mitchell, o homem perfeccionista, levou às ultimas conseqüências sua mania de burilar textos na cabeça.