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24 de maio a 7 de junho de 2006

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CLUBE DO CORAÇÃO
Filme argentino, Clube da Lua, serve de metáfora para a situação econômica de seu próprio povo
por Luiz Andreghetto (luiz_andreghetto@hotmail.com)

or mais óbvio que seja, é impossível falar do “novo” cinema argentino sem comentar a crise que assolou o país nos idos dos anos 90. Mesmo soando, ora como um discurso pronto e repetitivo, ora como uma mera constatação dos fatos, percebe-se, na atual cinematografia argentina, um acerto de contas com um passado assim não tão remoto. Se as crises servem para que uma infinidade de valores e normas sejam repensados, o cinema argentino está fazendo isso com extrema maestria e nos mostrando vitalidade em pequenos dramas do cotidiano de pessoas comuns.

O último exemplar desse “espécime” a aportar em terras brasileiras é Clube da Lua (Luna de Avellaneda, 2004) de Juan José Campanella, diretor do elogiadíssimo e grande sucesso internacional O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia, 2001).

Luna de Avellaneda é um clube de esportes e cultura de um bairro de Buenos Aires que, no passado, viveu dias de esplendor e hoje se encontra falido e quase abandonado. O que antes era mantido por oito mil sócios, hoje apenas umas duzentas pessoas pagam a mensalidade para que o clube funcione. À beira da falência, os poucos sócios remanescentes lutam para que o clube não se torne um cassino. Román (Ricardo Darín, que antes já havia trabalhado com Campanella em Um Mesmo Amor, Uma Mesma Chuva e O Filho da Noiva) é um dos membros da direção do Avellaneda que precisa lutar e manter a integridade do clube que tanto ama entre todos os demais, que estão entre decidir a viabilidade da construção do cassino e o sonho que eles haviam idealizado.

É inegável não admitir que a história do clube reflita a própria história recente da Argentina: o que antes era prosperidade e opulência, tornou-se uma das maiores crises financeiras da América Latina. Metáfora de uma sociedade debilitada e que deixa os sonhos de lado em virtude dos bens materiais, Clube da Lua também retrata a eterna dicotomia entre o coletivo e o privado, a burguesia (representada pelos compradores do Avellaneda) e o proletariado (os sócios do clube que são seduzidos com promessas de novos empregos).

São histórias de pessoas simples que o filme acompanha, mostrando pequenos detalhes do cotidiano de cada uma delas que, ao mesmo tempo em que precisam lutar para manter o clube, também precisam resolver problemas conjugais, desemprego, crises de meia-idade e a perda de alguns sonhos em detrimento de uma realidade dura e cruel. Seria uma crise de meia-idade por não terem correspondido às expectativas que tinham no passado? Ou uma crise com o próprio país que não corresponde às expectativas do seu povo? Emotivo, mesmo sendo político, Campanella traça situações da vida de cada personagem que se misturam com a história da própria Argentina.

A fluidez da narrativa nos leva a invadir o drama de cada um deles, nos envolvendo e emocionando com pequenas histórias do dia-a-dia: Román sem dinheiro para comprar um bom perfume, a amiga que o marido sumiu deixando-a com o filho sem plano de saúde para ir ao dentista, a esposa reclamando que Román não a deseja mais como antigamente e muitos outros.

Mesmo falando de alguns “perdedores”, de pessoas que ainda lutam por algum significado na vida, o filme trata de maneira tocante e nostálgica esses seres imperfeitos, que erram e que amam como todos nós. É dessa imperfeição, da constatação de que a vida nem sempre é da maneira que gostaríamos que fosse e dela temos que tirar o melhor possível, o grande dilema do filme. Román e seus amigos precisam fazer um acerto de contas com o passado, uma comovente aceitação e – por que não? – rejeição das vitórias e perdas da vida.

Entre sonhos não realizados e frustrações pessoais, embalados com uma grande carga sentimental e emocional, Campanella consegue imprimir em seu filme uma dose de otimismo que muito faz falta nos dias atuais. Mesmo entre tantas adversidades ainda existe um caminho novo para ser trilhado. Após o grande sucesso de O Filho da Noiva, Campanella não muda sua maneira de filmar e nem de encarar a sociedade em que vive, onde a beleza está nas imperfeições e ganhar ou perder só depende de cada um de nós.