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24 de maio a 7 de junho de 2006

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COMO UM DEUS EM ETERNO APRENDIZADO
Como o romance gráfico Sandman – Prelúdios e Noturnos, de Neil Gaiman, transforma sonhos em pesadelos e deuses em homens
por Enéias Tavares ( eneiastavares@yahoo.com.br )

h senhor, como são tolos esses mortais” sussurra o recém liberto Morfeus, citando o Puck shakespeareano de Sonhos de uma Noite de Verão. No entanto, diferente da peça elizabetana, Sandman não é sobre casais enamorados, deuses entediados ou bobos endiabrados, mas sobre os pensamentos escorregadios que cada um de nós carrega em sua interioridade, em bons e maus momentos da vida. Num universo onde uma família de deuses se mistura a psicopatas, escritores clássicos e pessoas comuns, o inconsciente humano se desnuda num texto cheio de possíveis leituras. Não basta dizer que Sandman é um sucesso mundial de público e crítica (frase já insignificante depois de tantas obras semelhantes). O que é preciso ser dito sobre o texto gaimaniano é que ele pode ser o que cada leitor quiser, onde quer que esteja, o que talvez seja o segredo das grandes obras ficcionais que perduram após décadas e décadas de intermináveis releituras.

A série Sandman, publicada pela Vertigo (selo adulto da editora DC Comics) entre 1989 e 1994, é um sucesso absoluto ainda hoje. Uma das provas disso são os dez volumes que compõem o romance gráfico e que finalmente chega ao Brasil pela editora Conrad. Sua coleção de grandes ilustradores ao lado das capas de Dave McKean são um deleite para os olhos de qualquer apreciador da boa arte. Prelúdios e Noturnos, o primeiro volume, é sobre a prisão do deus do sono por quase um século, nas mãos de um ocultista que procurava aprisionar a irmã da divindade. Roderick Burgess é um homem comum interessado apenas no que todos nós já estivemos, estamos ou sempre estaremos interessados: vida eterna. Morfeus, Sandman ou Sonho, é um deus hebraico, o qual tem no Iavé bíblico seu modelo comportamental. Silencioso e repleto de orgulho. Caprichoso e incansável, é um pesadelo de vontade, poder e frieza. Caim e Abel, as Hécates, John Constantine e a Morte são apenas alguns dos muitos personagens que aparecem no primeiro volume da obra que poderia ser classificado como um conto soturno de vingança, poder e morte. Hamletiano demais? Talvez, embora a presença real do bardo apenas aconteça no segundo volume, Casa de Bonecas, num diálogo mais do que memorável com Christopher Marlowe, escritor de Fautus.

Neil Gaiman preenche cada página do seu épico com citações e situações do conhecimento de todos. Literatura, música, cinema, religião, filosofia e ciência irão se entrecruzar com os temas presentes no texto. Talvez a preocupação do escritor seja criar um conto moderno que consiga costurar uma cultura tão retalhada e fragmentada como a nossa. Em Prelúdios e Noturnos, encontramos a busca de um ser que, preso por décadas, volta um tanto perdido a sua velha vida. Velhos conhecidos, velhos amuletos e velhos lugares se misturam numa trama que vai do céu ao inferno (literalmente) dentro de poucas páginas. Neste aspecto, a amálgama da cultura grega com a cristã é um tanto surpreendente. Quando Morfeus visita o inferno para recuperar seu elmo perdido, uma batalha discursiva é travada, como nos antigos campeonatos retóricos da Atenas clássica. Morfeus sai vencedor, mas não sem antes desgostar um Lúcifer rafaélico com o rosto e a voz de David Bowie. E talvez esse seja um dos elementos que fazem de Neil Gaiman um dos escritores mais cônscios do tempo em que vivemos. Num mundo bagunçado e barulhento, repleto de ruído e carente de sentido, Sandman dança por ondas de rádio oníricas em busca de um passado que não pode mais ser recuperado, pelo menos não no campo espiritual. O Sandman que ressurge já perto do fim do primeiro volume do romance gráfico é um deus recuperado em armas, mas ferido em espírito. Um deus que talvez se dê conta de que não fez tanta falta quanto gostaria. Esse tema, recorrente em todos os volumes de Sandman, volta a aparecer em outro romance de Gaiman, Deuses Americanos, no qual deuses antigos são substituídos por divindades modernas como Mídia Boy e Sex Muse. Na verdade, num mundo extremamente midiático e sensual, quem ainda pode adorar os velhos deuses? Nesse aspecto, Sandman é um voltar à fonte. Um conto que vai buscar nos mitos mais antigos de nossa civilização ocidental um sentido para uma contemporaneidade tão paradoxal.

Durante todo o livro somos levados a acompanhar o protagonista numa busca que poderia seguir o esquema Fuga-Vingança-Busca-Resposta. Ao fugir da prisão de Burgess, Morfeus é todo fúria e vingança. A procura de seus amuletos de poder, que preenche a maior parte do texto, é uma busca de sentido espiritual também. É uma busca por força e auto-afirmação. No fim, ao encontrar a Morte, sua inacreditavelmente doce irmã, Sandman ainda está preso ao Romantismo que marcava o século 19, época em que foi aprisionado. Ele é um Byron citadino sentado numa praça suja chorando seu drama particular enquanto o mundo caótico e barulhento do final dos anos oitenta queima atrás de si. O conselho da Morte é no mínimo irônico: Viva! E ao Som de suas Asas, encontramos um Sandman renascido, ciente de que os tempos, assim como os sonhos, mudam.

Certeza vez, Gaiman resumiu o seu épico pós-moderno como um conto em que um deus tem de decidir entre mudar ou morrer, e ele decide. O Sandman de Gaiman pode ser sim um deus que está entre o mudar e o morrer. Entretanto, todos nós também o somos. E imutabilidade sempre foi e sempre será sinônimo de morte. Por isso mudamos. Por isso nos adaptamos. Por isso crescemos. E nesse sentido, a busca de Sandman é a nossa busca por sentido numa existência que por si só não tem sentido. O deus tem um trabalho: é o guardião dos sonhos. À parte disso, é uma entidade em busca de transcendência e relevância num espaço hermético de palavras e discursos. O que entendemos por “transcendência”? É uma palavra como “sonho” ou “desejo”: cada um de nós tem uma definição particular. Mas entendo por transcendência conseguir ser um espírito de relevância cada vez maior. Queremos ser. Queremos estar. Queremos fazer falta. Freud chamaria isso de neurose. E ele deixa claro que o homem não pode desejar não ser neurótico, sendo essa por si só, a maior das neuroses. Sandman é um ser repleto de neuroses e contradições, o que precisamente o faz continuar. O que o faz não desistir. Não vivemos para ter respostas, e sim para continuar fazendo mais e mais perguntas. Não vivemos para cortejar a realidade e sim para nos perder em ilusões oníricas ou neuróticas. Esse é o sentido da existência humana moderna. E Gaiman molda seu personagem como se molda um sonho: cheio de indefinições e falhas, lapsos e vontades, mas não sem esquecer do que torna possíveis os sonhos, a inconceituável imaginação humana.

Como T.S. Eliot deixou-nos claro, não há mais busca por conhecimento ou sabedoria na época da informação. Nesse sentido proponho uma leitura de Sandman, no qual o objetivo não seja sondar ou compreender, e sim, imaginar. Ler Sandman buscando o conhecimento de todas as inumeráveis referências ou uma perdida e absoluta sabedoria shakespeareana é perder tempo. É tarefa por demais grandiosa para qualquer mortal. Especialmente se desejamos que Puck, ou Sandman se preferir, esteja errado. A mais completa e possível leitura de Prelúdios e Noturnos, numa época em que todas as leituras são possíveis e incompletas, seria uma leitura de noites que chegam e vão em sua escuridão e silêncio. Ler o primeiro volume de Sandman – Prelúdios e Noturnos é como um sonho verdadeiro, talvez um pouco confuso às vezes, mas nunca desinteressante. Um refluxo de interminável exercício imaginativo.