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19 de junho a 3 de julho de 2006

Equipe Edições Anteriores

O OUTRO LADO
Badi Assad lança Wonderland e inventa seu mundo imaginário através da música, na corda bamba entre delírio e realidade.
por Conrado Falbo (conradofalbo@yahoo.com.br)

az tempo que a cantora/compositora/violonista/percussionista Badi Assad colocou seu virtuoso violão à disposição da música popular. Aliás, desde o início de sua carreira de violonista, a música que fazia já apontava para caminhos mais livres, sem se prender aos limites do repertório erudito, da técnica clássica, das salas de concerto e até mesmo do próprio violão. Ao longo de sua trajetória artística, desenvolveu um estilo único que une o resultado de suas pesquisas na área da voz humana, experimentos com percussão corporal e a exploração de novas sonoridades no violão. Tudo isso personificado no palco de uma maneira peculiar, que hoje é sua marca registrada. Por onde passa, ela desafia definições com seu som literalmente sem fronteiras.

A maioria dos títulos de sua já numerosa discografia foi lançada por selos estrangeiros (apenas seus dois trabalhos mais recentes contam com distribuição no Brasil), tornando-a mais conhecida no exterior que em seu país natal. Depois de uma longa temporada entre Estados Unidos e Europa, a volta ao lar aconteceu com o lançamento de Verde (Edge Music, 2004). O disco, que mistura composições inéditas com clássicos do cancioneiro nacional como “Asa Branca”, conhecida na voz de Luiz Gonzaga e versões de hits do U2 e Björk, funcionou como uma apresentação de Badi ao público brasileiro, quase uma estréia. No Verde, ouvimos o resultado maduro dos anos de estrada de uma artista com coragem, talento e musicalidade suficientes para ousar fazer algo (realmente) novo. Mas o mais recente disco de Badi Assad vai além.

Um álbum elegante, com arranjos criativos, músicos competentes e repertório escolhido a dedo entre o que há de melhor na música contemporânea. Seria o suficiente para justificar a atenção que este lançamento merece, num ano sem muitas novidades na prateleira de MPB. Wonderland (Edge Music, 2006) aparece como um ponto de síntese na consolidação de alguns aspectos já bem característicos de sua identidade musical, como a experimentação e a versatilidade, apontando agora para rumos um tanto mais profundos, principalmente no processo de re-significação das canções e construção de um todo coeso apesar de sua diversidade, ou justamente por causa dela.

O ponto de partida dessa viagem, expresso no título do disco, é o mundo imaginado na clássica história (infantil??) de Lewis Carrol. Contudo, como a própria Badi alerta num texto incluído no encarte do CD, as maravilhas daquele país de fantasia ocultam a loucura e a perversidade de seus habitantes. Logo, já não se pode distinguir sonho de pesadelo.

No País das Maravilhas construído por Badi, a realidade é invertida e (re)criada através da subversão de linguagens musicais. Sua personalidade artística faz com que ela se aproprie de canções das mais díspares procedências e gêneros, utilizando a poesia alheia para escrever um discurso próprio. É assim que conseguimos ouvir, lado a lado, músicas de Lenine, Eurythmics, Gonzaguinha, Billy Blanco, Tori Amos e Cartola com uma sonoridade que consegue ser homogênea sem encobrir a diversidade de estilos como tempero principal da mistura.

Ao traduzir em seus termos um universo dissonante e caótico, a artista costura um mosaico muito pessoal com suas interpretações. Mais que releituras com arranjos exóticos, as canções ganham novos sentidos, não apenas musicais.

Nunca se sabe ao certo que direção seguir dentro da Wonderland , já que as regras que governam aquele espaço são arbitrárias e cambiantes. Não faltam indicações de caminhos a tomar, mas é grande o risco de acabar num desvio. Também nós, habitantes do mundo que se diz real, somos surpreendidos por fatos tão inusitados quanto inevitáveis cada vez que assistimos ao telejornal diário. As letras de “Acredite ou não”, parceria de Lenine e Bráulio Tavares, e “From the United States of Piauí”, de Gonzaguinha, refletem bem essa confusão generalizada da periferia Brasil, com nossas contradições cotidianas, já velhas conhecidas.

As densas “Black Dove”, da pianista americana Tori Amos, e “1000 Mirrors”, do Asian Dub Foundation, figuram ao lado de “Sweet Dreams”, sucesso nos anos 80 com o grupo Eurythmics e “O mundo é um moinho”, de Cartola, num conjunto que bem poderia soar melancólico, para dizer o mínimo. Os temas pesados e tristes da maioria das canções podem provocar uma idéia equivocada no leitor que ainda não ouviu o disco. Mas, por mais que se cante sobre solidão, violência, mesquinhez e estranhamento, o clima geral não é soturno ou sombrio. Badi tece suas versões de forma amena e harmoniosa, por vezes alegre - caso da divertida “Vacilão”, com participação de Seu Jorge. A sonoridade do disco suaviza os tons cinzentos do repertório e nos mostra as duas faces da Wonderland, misturando sempre lágrimas e riso, fantasia e realidade.

No fim, ouvimos uma gravação caseira da então menina Badi cantando “Estrada do sol”, de Tom Jobim e Dolores Duran. Aqui também estão presentes os dois lados do País das Maravilhas: a voz infantil que canta, talvez querendo imitar o mundo adulto, não pode nunca esconder sua verdadeira natureza, que soa na força pura da ingenuidade.

A viagem de Badi, assim como a de Alice, pela Wonderland não é apenas a crônica de um mundo de estranhas idiossincrasias, mas a narrativa de uma jornada íntima, um mergulho interior em que são revelados os sentimentos mais obscuros e os paradoxos mais esclarecedores quando, por fim, o caminho conduz à visão do próprio reflexo no espelho torto daquela realidade inventada, mas que de tão concreta, nos ajuda a enxergar o que está fora do território da ficção.