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19 de junho a 3 de julho de 2006

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CÓDIGO DA DECEPÇÃO
Culpa de mais e prazer de menos faz de O Código Da Vinci um longo criptograma de pretensões.
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

máxima leia o livro e assista ao filme não é algo que se aplique com facilidade em se tratando de O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006). Se você ainda não ouviu falar da história e toda a polêmica (traduzindo: mídia gratuita) que tem acompanhado as pretensiosas conspirações religiosas de Dan Brown, autor do livro, ela se inicia em Paris com o assassinato do curador do Museu do Louvre, onde a presença do professor de simbologia, Robert Langdon (Tom Hanks), é solicitada na cena do crime.

A partir daí, Langdon e a criptologista Sophie Neveu (a eterna Amélie Poulain, Audrey Tatou) disparam em uma corrida desenfreada para desvendar vários códigos e provar a inocência do professor, que está sendo perseguido pelo chefe da polícia especial francesa, Bezu Fache (Jean Reno). Isso é apenas o início de uma enorme conspiração que ainda envolve um monge da Opus Dei, a Igreja Católica, um estudioso do Santo Graal, pinturas de Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, Jesus Cristo, Maria Madalena, Cavaleiros Templários, com vários segredos que, se descobertos, podem abalar toda a estrutura do catolicismo como conhecemos hoje.

Polêmicas à parte O Código Da Vinci , o livro, é apenas literatura mediana, que envolve por ter um ritmo ágil e ter sido escrito como se fosse script de um filme (capítulos curtos e frases rápidas). Talvez seja esse o grande erro de O Código Da Vinci , o filme: ter imaginado o livro como um roteiro pré-concebido, sem necessidade de grandes adaptações, colocando-o diretamente em imagens. Com uma narrativa lenta, entrecortada com diversas explicações míticas e religiosas, o que funcionava de maneira exemplar no romance perde a força na tela grande. Mas isso não impedirá o filme de ser um enorme sucesso de bilheteria, pois se cada pessoa que leu o livro quiser vê-lo no cinema já garante ao longa uma carreira considerável e rentável.

Com exageros conspiratórios demais, a teoria que apresenta alguma funcionalidade no romance, perde o impacto, tornando-se até enfadonha na sua versão cinematográfica, fazendo com que alguns clímax sejam óbvios ou até desnecessários. Claro que isso não é culpa da intriga criada por Dan Brown e muito mais da direção apagada e sem brilho de Ron Howard.

Vindo de uma carreira comercial, sem nenhum toque autoral em suas produções, Ron Howard tem se especializado em filmes "acadêmicos" e sem grandes lances de criatividade, feitos para concorreram ao Oscar, como Apollo 13 (1995), Uma mente brilhante (2001), A luta pela esperança (2005), entre outros. Howard é apenas um "operário padrão" extremamente competente no seu ofício, mas que não deixa nenhum tipo de marca naquilo que produz. Se o seu melhor trabalho ainda continua sendo Uma mente brilhante , pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor, ainda falta um trabalho que realmente mostre que ele não passa de mais um, entre tantos outros, diretores do verão americano.

Vaiado e ridicularizado em Cannes, onde abriu o Festival de Cinema, o filme tem sido acompanhado de diversas críticas negativas em toda a imprensa especializada. Claro que tudo isso é um pouco de exagero em se tratando de um filme-evento onde toda a mídia espera o mínimo deslize para falar mal da produção. O Código não é um filme ruim, mas também não é um filme bom. É um grande paradoxo de contradições, como toda a teoria criada por Dan Brown que, na maioria das vezes, está muito mais para um queijo suíço, com os milhões de buracos encontrados na sua suposta "realidade", do que para uma teia intrincada de suspense policial.

Um exemplo disso é a personagem Sophie Neveu, que é ingênua demais em relação ao Santo Graal, como se nunca tivesse ouvido falar dele, algo estranho para alguém que ocupa um alto cargo de criptologista da polícia especial francesa e foi criada por um influente mestre do Priorado de Sião. Sophie é iniciada nos meandros religiosos-filosóficos pelo historiador Leigh Teabing (Ian McKellen) e Robert Langdon, fazendo cara de surpresa a cada "novidade" apresentada, como se nunca tivesse ouvido ou lido qualquer coisa sobre essas teorias que, de uma maneira ou de outra, são comentadas já há algum tempo. Tom Hanks, com sua eterna cara de Forrest Gump, exala apatia em um personagem onde toda a credibilidade do filme reside, como se para ser um professor universitário fosse necessário passar o filme todo com cara de tédio, se levando a sério demais. Será que Robert Langdon já ouviu falar no arqueólogo Indiana Jones, que também era professor?

Esses e outros detalhes acabam por colocar em risco a credibilidade de muitas situações que, por si só já são confusas e estapafúrdias demais. Jesus Cristo se casando com Maria Madalena, tendo diversos descendentes, que são protegidos por uma sociedade secreta, por causa de uma conspiração do imperador Constantino? É por tudo isso e mais um pouco que eu ainda prefiro acreditar em bruxinhos adolescentes e no poder do Um Anel do que nos devaneios pseudo-religiosos e conspiratórios de Dan Brown que, na sua ingenuidade, não muda e nem abala a fé de ninguém.