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19 de junho a 3 de julho de 2006

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PRAZO DE VALIDADE VENCIDO
Fome de Viver não conseguiu sobreviver ao pior dos inimigos: o tempo
por Fábio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

Filmes são produtos. E como todos os produtos, os filmes também têm prazo de validade. Lógico que existem algumas raras exceções, os chamados clássicos que, mesmo com o passar dos anos, os avanços tecnológicos e as novas estéticas, mantêm intactos o frescor narrativo, a proposta inovadora ou simplesmente a capacidade de entretenimento. Não é a toa que são poucas as produções cinematográficas que entram para a história e permanecem na memória coletiva depois de alguns anos.

Dito isso, podemos voltar ao ano de 1983, quando a MTV começava a mostrar ao mundo como fazer televisão para os jovens; o videoclipe dava os primeiros passos enquanto linguagem audiovisual; e a publicidade ganhava, assim, aliados que como ela tinham a manipulação e plasticidade da imagem como principal produto. Nessa mesma época, o cinema "jovem" percebeu essas novas vertentes e foi, aos poucos, deixando a narrativa em segundo plano, enquanto a expressividade das cores, cenários e figurinos, a edição picotada e o ritmo ditado pela música pop passaram a ser os donos da vez.

Foi nesse cenário que cineastas advindos da publicidade começaram a trabalhar e filmes como Fome de Viver viraram referência. A utilização abundante da música pop marcando cenas específicas e mantendo a unidade narrativa, o uso excessivo de câmeras lentas ou de cortes ritmados e uma fotografia e direção de arte que trabalhavam juntas para manter o espectador inebriado com a beleza das imagens são as principais características desses filmes. Mas esse cuidado com a imagética não escondia a fragilidade e artificialidade do roteiro e a falta de talento desses diretores para lidar com os atores e para conduzir minimamente uma história. Ainda assim esses filmes (outro exemplo é Flashdance , de Adrian Lyne, lançado no mesmo ano) fizeram sucesso e passaram a influenciar uma série de longas que tinham os jovens como público-alvo e a imagem como principal ferramenta de marketing.

Mas muitos desses filmes, entre eles Fome de Viver , não conseguiram sobreviver a um dos principais testes cinematográficos: o tempo. Dirigido pelo irmão menos talentoso do também cineasta Ridley Scott (igualmente advindo da publicidade), o filme é hoje um cult muito mais pelo seu elenco (Catherine Deneuve, Susan Sarandon e David Bowie) e temática do que pelos maneirismos empregados pelo estreante Tony Scott. Apesar da antológica cena inicial, quando somos apresentados as personagens de Deneuve e Bowie ao som da sombria "Bega Lugosi is Dead", o filme nunca desenvolve plenamente o tema vampirismo e vida eterna, perdendo força como produção de terror. Mas o que mais incomoda não é o vazio da narrativa ou o desleixo das interpretações (surpreendentemente quem se sai melhor é David Bowie), mas, sim, a preocupação de Scott em entregar um filme "moderno".

Leia-se como "moderno" uma série de opções estéticas que, se em 1983 tinham algum sentido, hoje parecem datadas, quando não risíveis. Dessa forma, ao invés de se interessar pela construção das motivações das personagens e no desenvolvimento da trama, baseada no ótimo best-seller homônimo, Scott prefere se concentrar na ambientação dark do filme. O diretor opta, então, por envolver a produção em sombras, destacando a escuridão em que vive o casal central e saturando o vermelho do sangue de suas vítimas.

Essas escolhas até funcionam, mas a insistência do diretor em filmar cenas-chave em câmera lenta, com cortinas esvoaçantes e pombas brancas dá ao longa um ar de propaganda de sabonete Vinólia. Os constantes flashblacks também não ajudam no desenrolar da história e funcionam muito mais para demonstrar o talento do diretor para a composição de belas imagens do que como contador de histórias (o que fica mais evidente quando olhamos o currículo posterior do diretor – Tog Gun. Ases Indomáveis , Dias de Trovão , Amor à Queima Roupa , Chamas da Vingança , etc.). A trilha sonora instrumental de baixa qualidade potencializa ainda mais essas escolhas e mina completamente a credibilidade da produção.

Talvez Fome de Viver ganhasse uma sobrevida maior se o diretor tivesse se arriscado a usar o rock e pop da época, cheio de sintetizadores sombrios e letras existencialistas características de gêneros como o new wave e gotic rock . Tal recurso poderia ter evitado que Fome de Viver se apoiasse, exclusivamente, em imagens banais e gratuitas (como fez, acertadamente, Lyne em Flashdance ) e não passasse de um exercício estilístico datado e pretensioso, caindo, assim, no esquecimento. A mesma triste sina de uma mera propaganda de sabonete .